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09/06/2009 - 12:26

Billie Holiday e o estranho fruto sangrento do sul

Em 1939, Billie Holiday lançou uma música de nome esquisito: “Strange Fruit”, ou “Fruto Estranho”, falava das estranhas frutas que pendiam dos álamos do sul, corpos negros e o cheiro de sangue no ar.

 

“Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop”

“As árvores do sul dão um estranho fruto,
Sangue nas folhas e sangue na raiz,
Corpos negros balançando à brisa do sul,
Estranhos frutos pendurados nos álamos

Cena pastoral e galante sulista,
Os olhos saltados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresco,
E então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos depenarem,
Para a chuva enrugar, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Esta é uma estranha e amarga colheita”.


Tá, todo esse papo poderia ser o fruto (estranho) da imaginação de um diretor de filme de terror. Mas o pior é que, embora soe como um cenário fictício, os versos foram escritos por um professor judeu e eram inspirados na mais pura verdade.

Ok, mas como um professor judeu e branco do Bronx emplacou a autoria do maior sucesso de Billie Holiday, que é também um dos hinos contra o racismo — e a primeira música a se posicionar contra a discriminação? Certo, vamos chegar lá. Mas vamos contar essa história de trás para a frente.

Em 1939, Billie Holiday teve um pequeno conflito com sua gravadora, a Columbia, porque queria gravar uma canção composta por um tal Lewis Allan. Depois de muita discussão, ficou decidido que a já aclamada cantora obteria uma licença para gravar a tal música em outra gravadora, a pequena Commodore – cujo dono, Milt Gabler, começou a chorar feito criança depois que Billie cantou para ele uma versão acapella da música.

No mesmo ano, em um compacto 78 rpm, saía “Strange Fruit”. A música fez um sucesso estrondoso; era o ponto alto (e final) dos shows de Lady Day. Todas as luzes se apagavam e apenas um foco de luz era aceso sobre a cantora; daí ela desfiava os versos tristes sobre aquele cenário de horror no sul. Dá uma olhada como era:

Se não conseguir assistir, clique aqui.

E os versos ficam mais tristes ainda quando sabemos que a canção, composta por Abel Meerpool (o professor judeu que usou o pseudônimo de Lewis Allan), foi inspirada por uma fotografia chocante, muito chocante.

Tá pronto para vê-la?
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O fruto estranho que balançava nas árvores do sul, em foto de Lawrence Beitler

A foto acima não saiu de nenhum filme de terror. É real e foi tirada em 7 de abril de 1930, quando uma multidão linchou Thomas Shipp e Abram Smith, ambos de 19 anos, em Indiana – e por pouco não pegou um terceiro rapaz, chamado James Herbert Cameron, 16. Os três, negros, foram acusados de roubar e matar um homem branco e estuprar a namorada dele. Antes que recebessem um julgamento, foram mortos e pendurados pela multidão.

Os linchamentos eram bem comuns em certas áreas dos Estados Unidos desta época – especialmente de homens negros acusados — ou não — de crimes contra brancos. Também eram usados como uma forma de amedrontar os negros e mantê-los longe das urnas e de qualquer exercício de seus (poucos) direitos de cidadãos. Depois que o fotógrafo Lawrence Beitler registrou a cena que inspirou a música “Strange Fruit” (e vendeu milhares de cópias desta mesma fotografia que você viu aí em cima, a 50 centavos de dólar cada), no entanto, eles deixaram de acontecer. Terá sido o impacto da música?

Epílogo

James Cameron escapou vivo, escreveu a auto-biografia “Time of Terror: A Survivor’s Story” (“Tempo de Terror: a História de um Sobrevivente”) e fundou o Museu Americano do Holocausto Negro, que, nas palavras do próprio site da instituição, se propõe a “educar o público sobre as injustiças sofridas por pessoas de ascendência negra, além de proporcionar aos visitantes uma oportunidade de repensar suas suposições sobre raça e racismo”.

E você, está bem educado sobre isso?

 

Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , , , ,

78 comentários para “Billie Holiday e o estranho fruto sangrento do sul”

  1. Marcelo disse:

    Eu li o texto ora mencionado, e de forma exorbitante , achei fantastico e ao mesmo tempo triste por amigos que acharam de forma erronea ser uma coisa justa o ocorrido! caro Almeida, como vc , sou afrodescendente, curso uma boa faculdade a qual estou no 10º semestre e me preparando para o próximo exame de ordem pelo Complexo Damasio de Jesus. Fiquei muito feliz como se posicionou em seu texto, e tenho certeza se algumas pessoas( sejam brancas ou negras) que tiveram a paciência de ter lido, passaram a refletir melhor e chegaram a conclusão de que nós negros , somos tão capazes e aptos como os brancos; não quero pregar racismo em cima desse meu modesto texto, mas gostaria que todas as pessoas fossem mais humanas , pois DEUS existe, e a prova esta no nosso dia a dia. Parabéns Almeida.

  2. Gra disse:

    Ok. Concordo com todas as teorias de direitos humanos citados e bla, bla, bla, porém, a justiça sempre foi muito falha; não citarei cor (negro ou branco), o fato é que ocorreu um episódio parecido a poucos meses em meu bairro dois caras estupraram uma garota de 16 anos de uma maneira brutal, maxucaram muita ela, o pai dela levou- a a delegacia para prestar queixa, porém algumas semanas depois ela retirou a queixa, alguém sabe responder porquê? Eu mesmo responderei, ela estava sendo ameaçada de morte por seus agressores, e até que ela provasse por A mais B a culpa dos caras e esperar ainda seu julgamento ela já estaria morta e/ou este horror “seja” presente na vida de mais uma vítima (que DEUS nos proteja)…e porque….? Por que ninguém (as autoridades) se interessam com casos tão anônimos como este, preferem dizer que a garota estava drogada e “fez” por livre e espôntanea vontade. Só que quem está de fora como eu sei, e muitos o sabem!! Será que este não seria o caso de a população se unir e fazer justiça com as próprias mãos? Porque uma coisa eu lhes digo, se o fosse com uma de minhas irmãs, minha mãe, ou alguém de que amo, eu o faria com minhas próprias mãos….aí, alguns anos adiante, talvez 70 também, não sei, alguém diria: “coitadinho deles”, “talvez” fossem inocentes, mas eu teria a certeza de que a justiça estaria feita!!!

  3. Clarissa Passos disse:

    Tô gostando mesmo de ver as opiniões por aqui. E tenho alguns pontos a levanatar para alguns leitores em específico:

    Ao *Gra – 11:39*, que levantou o interessante ponto de que, quando acontece com a gente, temos mesmo é vontade de matar o malfeitor: é para isso que existe o Estado. Para evitar que as pessoas ajam como bem entendem, seja de cabeça quente ou não. Para isso que o Estado tem que garantir julgamento. E todo mundo tem direito a um.

    Ao *Edson Carlos – 09:51*: você termina com a frase “Afinal, ninguém tem o direito de matar outra pessoa !”. Mas foi justamente isso que a população da cidade fez com os dois! Decida-se, fio. As pessoas têm ou não têm o direito de matar outras? Ou você acha que *algumas* pessoas têm esse direito e outras não? Sei não, mas acho que quem discrimina os outros é você — apesar de todo esse discurso de “proteger é discriminar”, o que eu acho uma balela, porque justiça não é tratar todo mundo igual, mas sim tratar os diferentes diferentemente.

    Ao *William – 08:04*: o pior é que existem, William… Veja o comentário do Gra… :(

  4. Edson Carlos disse:

    Cara 10/06/2009 – 12:44
    Enviado por: Clarissa Passos
    Desde a minha primeira frase, preguei a equiparidade entre todos, sejam de qual raça forem, agora, a Sra. no seu infeliz dito, mostrou quem a Sra. verdadeiramente é: UMA GRANDE E FELIZ RACISTA ENRUSTIDA !!!

    “porque justiça não é tratar todo mundo igual, mas sim tratar os diferentes diferentemente” ?!?!?!?!?!
    O que é isso? Filosofia de piquenique, TCC de sociólogo ou bordão de ong ?

    Negro é diferente, cara Clarissa ?
    Acho que a Sra. é uma discriminadora sem precedentes !
    Ou melhor, acho não, tenho certeza!

    As pessoas elegem políticos representantes, que tenham as propostas que melhor lhes convêm, que traduzirão em leis as aspirações, o ideal de vida de cada um.
    Portanto, deduzindo, as leis são feitas pela vontade do povo.
    Quando alguém vai preso e a juri popular, quem está lá para decidir sobre o destino do réu? O povo !
    No caso em tela, foi o povo que decidiu sobre a execução dos dois. Não foi a vontade de um apenas, não foi vingança una!

    Estou bem centrado nas minhas convicções e se a Sra. tivesse prestado um pouco mais de atenção às duas últimas frases, teria visto que na primeira:
    “Aliás, o fim que todo bandido deveria ter.”
    resume-se que quem tira uma vida sem motivo justificável, deva pagar da mesma forma. Aprendi desde pequeno que não se deve fazer aos outros o que não queremos que nos façam !
    E na segunda e última frase:
    “Afinal, ninguém tem o direito de matar outra pessoa !”
    Foi com referência aos dois bandidos. Porque os outros que aparecem na foto, ERA O POVO FAZENDO JUSTIÇA !!!

    E o que a Sra. chama de justiça ?
    Um juri onde o advogado do criminoso não tem nenhum comprometimento com a verdade ? Onde ele busca brechas na lei para safar um assassino da cadeia ? Onde, um assassino, mesmo que condenado a 30 anos, não ficará mais que 3 ou 4 ?
    É esse o seu norte de justiça ?
    Essa justiça é boa para os errados, não para a sociedade produtiva, que precisa e merece tranquilidade e segurança ! Bandido não paga imposto ! Bandido agride a sociedade que o está defendendo, como a Sra. !

    Deixo uma questão para a Sra. meditar, que, com o seu ênfase de levantar a bandeira da justiça, esqueceu-se de pensar:

    O homem que foi morto, teve um julgamento ? Quem o julgou ?

    E a namorada ? Foi estuprada com consentimento judicial, após apreciado por um mediador ?

  5. HealThoid disse:

    Interesting… But what sign on novelties of the news?

  6. MARCO disse:

    As árvores? Poucas existem. Os linchamentos? Físicos e morais. Continuam. Aqui e ali. Nos morros e no asfalto. Na falta de oportunidade, de educação, de acesso aos bens da vida por todos almejados. E, pelo que li desses comentários, há de se plantar mais árvores! Lamentável.

  7. JR disse:

    Me causa nojo não apenas o ato ocorrido décadas atrás como o fato de haver pessoas como o fabio britto e dominus nos dias de hoje, o que mostra como o ser humano pode ser abjeto.
    O fato da música ser de um judeu é tocante, nos mostra quem nem todos somos bestas assassinas.
    Com a minha fé diminuída, me despeço.

  8. Carlos Catapani disse:

    Deviam pendurar o tal Fábio Brito, que deve ter sido um bom enforcador de aulas de português .

  9. Lau disse:

    Os animais são melhores q os seres humanos…

  10. Gus H. Davis disse:

    Não existe nenhuma diferenca entre um racista e um assassino. Um mata o espirito (o racista) e o outro mata o corpo ( o assassino). de vez enquando, eles são a mesmo pessoa. Pense nisso! Um corpo sem espirito é um zumbi e o espirito sem um corpo é um fantasma. De qualquer maneira voce esta morto.

    Gus Davis

    136\2009

  11. Anderson disse:

    Algum dos especialistas em humanidade dessa pagina poderia me explicar como o mundo ainda gira??? Diante da constatacao cada vez mais evidente das Injusticas passadas justificando mais injusticas no futuro, estupidez de todo tipo com novas roupagens e aparencias e perversos de toda especie com um discurso do amor !!! Diga aqui pra essa criatura, voce especialista em humanidade, como eu faco pra desembarcar desse barco furado e ter uma vida longe desse lixo ideologico?

  12. R I D Í C U L O…

  13. babs disse:

    Fantástico cheguei aqui por acaso …e já favoritei…..Parabéns…continue assim..

  14. Renan disse:

    Caramba como tem gente ignorante aqui! Não sabem se quer ler um texto e entendê-lo e vem com discursos que só comprometem suas opiniões. O caso aqui é de injustiça e racismo e ponto. Os jovens foram enforcados sem ao menos ter a chance de se defenderem. No contexto da época, se um grupo de jovens brancos tivessem cometido o crime teriam um julgamento justo. Mas se livrariam tranquilamente da culpa acusando negros de seus atos. Como saber a verdade?

    Só pra acrescentar, isso não é só contra os negros não, no Brasil ainda hoje adolescentes põem fogo em índios, agridem senhoras em pontos de ônibus; e os pais ainda justificam “eles só estavam querendo se divertir”. Acaba logo Mundâo!!!

  15. Eduardo disse:

    Fora a opnião da galera, q na verdade é irrelevante, queria dizer q a história ficou imcompleta, já q houve 1 sobrevivente e q ainda escreveu a auto-biografia, cade então o fim da história, eram ou não culpados?

  16. mala 100 alça disse:

    Ao Eduardo:

    Se queres saber se eram ou não culpados, dê um tiro na cabeça e pergunte diretamente ao Thomas Shipp ou Abram Smith.

  17. Wagner disse:

    Ótimo texto, parabéns!

  18. leandro v. disse:

    clarissa vc é genio, seus textos são fodasticos

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