As Artes de Benin em exposição no Rio
Muitos dos escravos brasileiros vieram do Benin, que também recebeu de volta uma grande população de africanos, tornados brasileiros, que voltaram para lá. Por isso, no Benin ainda hoje tem os Souzas, os Oliveiras, Os Regos, os Rochas. Os brasileiros levaram a religião católica para o Benin… Quem conta é o colecionador e curador Emanoel Araújo. Ele trouxe para o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, a mesma exposição já mostrada no Museu Afro Brasil, em São Paulo, que ele dirige. África Ancestral e Contemporânea-As Artes de Benin apresenta a arte ancestral, tradicional, e também a contemporânea produzida por um dos berços da nação brasileira, o Benin, país localizado na região ocidental da África.
Emanoel relata uma história muito interessante sobre um dos últimos traficantes, baiano, chamado Francisco de Souza, o Chachá de Souza, que fez um pacto de sangue com o rei Guezo. “Ele virou vice-rei de Uidá no Benin, onde fez o grande tráfico negreiro durante todo o século XIX. Ele juntou cerca de 120 milhões de dólares na época, era uma das grandes fortunas do mundo. E fez uma grande dinastia de Chachás: hoje existe o oitavo Chachá, descendente do Chachá de Souza.”
A exposição nos mostra um dos povos mais criativos da África, os artistas mais representativos da atualidade, sem esquecer a tradição, o cotidiano da vida e da cultura do Benin, berço fundamental do Brasil, já que muitos escravos vieram de lá.
Nove nomes do Benin, internacionalmente reconhecidos: Dominique Zinkpe, Tchif, Quenum, Tokoudagba, Eloi Lokossou, Kifouli Dossou e Edwige Aplogan, Aston. Impressionante perceber a estética desses jovens artistas contemporâneos, grandes criadores como pintores, escultores…
Pergunto ao co-curador, André Joli como ele selecionou os artistas. “Foram eles que me escolheram. Eu era diretor do Centro Cultural Francês e os artistas chegavam lá para ver se tinham uma oportunidade de mostrar o trabalho deles.”
Destaque para o navio negreiro
Numa sala especial, a instalação com produtos reciclados do artista Aston impressiona. “Sua obra o significado um ecológico, ou seja, não se deve jogar fora o material. Vi ele de tardinha recolhendo coisas na rua. Todo um discurso sobre o fato de que não se deve continuar a poluir. Com esse material ele cria esses personagens, um trabalho sobre a ideia da escravidão. Os escravos eram levados para a praia, os barcos ficavam ancorados e pequenas lanches os levavam para os barcos. Quando a viagem começava, alguns eram jogados ao mar quando morriam. A ideia dele é mostrar que os escravos eram considerados como um produto comercial.”
Converso em francês com Tchif, artista que tem hoje um centro cultural por lá: “A pobreza é um clichê que se faz da África. Em todo o mundo há pobres. Depende do contexto que se define a pobreza e o desenvolvimento. Nos EUA, também há pessoas morando nas ruas. A África não é assim tão pobre como se imagina. Se a África continua pobre é porque o ocidente todo poderoso a explorou. O cacau e o café vem da África.
Nas minhas telas a técnica que eu utilizo é a mista, uma mistura de cores, de pigmentos e acrílico que representam a Terra. Eu não pinto só da África, eu trabalho com o conceito do universo.
Gérard Quenum tem telas com cores fortes de fazer inveja a Basquiat
De grande impacto também, a instalação com bonecas em capacetes militares: “Essas bonecas representam os antigos combatentes, os veteranos de guerra.”
Quem vier até o centro Helio Oiticica terá uma bela oportubnidade4 de conhecer melhor a cultura dos irmãos do outro lado do Atlântico! Distribuidas em 3 espaços diferentes, 300 obras entre os apliqué (tapeçarias feitas com recorte de tecidos que mostram os símbolos reais do Benin desde o século XV ao século XIX), fotografias como as de Pierre Verger, pinturas, esculturas, grandes máscaras para os deuses do Vodou, vestimentas e outras manifestações estéticas.
Leia também:
O grito de Frans Krajcberg pela floresta
“Hereros Angola”: uma relação profunda com a África
O Museu Afro Brasil por seu fundador
A Líbia no Museu Afro no Ibirapuera
Exposição África Ancestral e Contemporânea: As Artes de Benin
Até 04 de setembro de 2011
Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica do Rio de Janeiro
Rua Luis de Camões, 68, Rio de Janeiro
Terça a sexta-feira, das 11h às 18h, e sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h
Entrada franca

Orkut




