Os desenhos do cineasta Akira Kurosawa
Nem todo mundo sabe que o cineasta Akira Kurosawa, quando jovem, aspirava ser pintor. Aos 18 anos já se destacava o suficiente para que seu trabalho fosse admitido na prestigiosa Nika Art Exhibition. No ano do centenário de seu nascimento, o Instituto Tomie Ohtake e a Mostra Internacional de Cinema mostram, pela primeira vez, os desenhos para cinema, criados pelo mestre japonês, os storyboards. Desenhos que revelam o imenso talento do cineasta para as artes plásticas.
Os storyboards de Kurosawa revelam o quanto seus filmes já estavam completos em sua mente. As emoções dos personagens, o figurino, as locações, a luz, o enquadramento e a composição das cenas contidas em suas pinturas são reproduzidos nos filmes. Por isso, ao contemplar essas pinturas perfeitamente executadas, além de remeter à origem de cada obra cinematográfica, compreende-se os recorrentes comentários em sua filmografia de que “cada quadro é belo como uma fotografia”
A mostra reúne 80 storyboards concebidos para os filmes Kagemusha (1980), Ran (1985), Dreams (1990), Rhapsody in August (1991), Madadayo (1993) e The Sea Watches (2002) que podem ser acompanhados aqui pelo nosso passeio virtual.
Antes de São Paulo, os desenhos estiveram no Tókio Metropolitan Museum of Photografy. O diretor do Instituto, Ricardo Ohtake conta que quando Kurosawa decidiu seguir a carreira que o consagrou, deixou completamente a pintura e queimou os trabalhos que havia feito até então. Meio século depois, durante a produção do filme Kagemusha, ele retoma o pincel para criar os storyboards com o desejo de registrar ao menos as imagens estáticas, na eventualidade de a filmagem não ser realizada. Kurosawa enfrentava constantes adiamentos na filmagem devido a restrições orçamentárias, problemas que nossos cineastas bem conhecem por aqui…
O diretor Martin Scorsese, que atuou como Van Gogh, em Dreams, dirigido por Kurosawa, enxerga a maestria absoluta do cinema em seus desenhos e pinturas preparatórios. “Ao ver os desenhos que ele me dera para minhas cenas como Van Gogh em seu Dreams, lembro-me da sua precisão em absolutamente tudo – quantos passos dar durante a filmagem de uma cena, o posicionamento de meus braços, o tamanho das pinceladas de Van Gogh, o modo com que meus olhos e minha barba seriam enquadrados. Ao olhar essas pinturas e desenhos, pode-se sentir que ele vive e respira cinema – elas estão esperando para serem realizadas e postas em movimento”.
Para quem quiser se aprofundar no conhecimento não só da obra e personalidade do cineasta, mas principalmente do processo criativo e produtivo de um dos maiores gênios do cinema, segue a nossa dica – À espera do tempo- filmando com Kurosawa – livro de Teruyo Nogami, assistente de Kurosawa, continuísta e diretora associada por aproximadamente meio século, que a Cosac Naify lança em parceria com a Mostra Internacional de Cinema.
Autor: Teruyo Nogami
Editora: Cosac Naify
Tradução: Diogo Kaupatez
Prefácio: Donald Richie
Quarta capa: Francis Ford Coppola, Martin Scorsese
Coedição: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Páginas: 38
De Rashomon até Madadayo, Nogami registrou curiosidades sobre as filmagens, os bastidores e as locações, em um diário, com relatos na primeira pessoa e desenhos das “cenas” mais marcantes, feitos durante as folgas entre as filmagens.
Veja outras exposições realizadas no Instituto Tomie Ohtake:
Concretismo Russo, da publicidade à arte
Visionaire para todos os sentidos
Kurosawa – criando imagens para cinema
Até 28 de novembro, de 2010
Local: Instituto Tomie Ohtake
Endereço: Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropés) – Pinheiros,São Paulo
Datas e horários: de terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada Franca

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