Clarice costumava tomar, banhos de mar, em Olinda, nas primeiras horas da manhã, levada pelo pai, como num ritual de purificação. Lá encontramos sua sobrinha neta Nicole Algranti, que participava da Fliporto e produziu o filme De Corpo Inteiro, exclusivamente para o mercado de DVD e TV. (69 minutos)
Nos anos 60 e 70, Clarice que atuava como jornalista entrevistou dezenas de personalidades para a Revista Manchete e para o Jornal do Brasil, reunidas hoje no livro Entrevistas, lançado em maio de 2007, pela editora Rocco. São conversas de vida com 25 personalidades como Ferreira Gullar, Tônia Carrero, Maria Bonomi, Nélida Pinõn e os falecidos Érico Veríssimo, Fernando Sabino, Helio Pellegrino, Tom Jobim…
De Corpo Inteiro: Uma Clarice simples revelada por Nicole
Inspirada nessas entrevistas, a diretora Nicole Algranti, sobrinha neta de Clarice, filmou De Corpo Inteiro com pitadas de ficção: a personagem principal é Clarice Lispector, em encontros dramatizados com as mais variadas personalidades com quem ela conversou. Clarice dá uma verdadeira aula de jornalismo ao mergulhar poeticamente no mundo de seus entrevistados. “Era uma pessoa simples, agradável, que gostava de crianças e animais” conta Nicole.
Clarice vai se revelando aos poucos, a cada entrevista que realiza
De acordo com a diretora do documentário ficcional, “O filme contextualiza as décadas de 60 e 70, que foram os anos nos quais ela trabalhou como jornalista.” faceta que poucos conhecem…
Três irmãs escritoras
Além de Clarice, Elisa e tania, avó de Nicole também escreviam.
Em Exílio, Elisa Lispector contou a saga da família parecida como a de muitos judeus que emigravam daquela região, fugindo dos pogroms, perseguições.
“Eram pobres, mas tinham fome de saber. A necessidade de aprender a português fez com que elas mergulhassem de cabeça na língua”, conta Nicole, cuja avó publicou um livro aos 89 anos, pouco antes de falecer, dois anos atrás.
O filme é uma homenagem aos amigos que foram entrevistados pela escritora. “Ela tinha um toque especial na hora de entrevistar. Procuramos os textos publicados pela artista, as pessoas que ainda estão vivas foram entrevistadas novamente. É um filme interessante para o jornalista ver”, comenta.
Não, não se trata de uma biblioteca. Também não é a Bienal do Livro, tampouco as livrarias espaçosas que andam cada vez mais convidativas. Trata-se de uma bela coleção de livros, com nomes e títulos de peso que invadiu o espaço de uma Estação que costuma abrigar pinturas em suas paredes.
Na Estação Pinacoteca, gente que faz a cena cultural: os poetas Ferreira Gullar, Paulo Vanzolini, o arquiteto Oscar Niemeyer, os artistas Carybé, Maria Bonomi, Maureen Bisiliat, Lasar Segall, Oswald de Andrade, William Faulkner, Jorge Luis Borges… só para citar alguns. Eles aparecem em livros, imagens e textos estrategicamente situados para atrair o olhar e curiosidade do leitor. Como bem disse certa vez Jo Soares, num Roda Viva: “Com o livro, existe o prazer de ler, o prazer de ter, de comprar. E o prazer de pegar.”
E isso se aplica bem aos livros da Imprensa Oficial que programou inclusive um canto, o Espaço do Leitor, onde os livros podem ser manuseados, folheados.
Nas paredes, frases de João Guimarães Rosa, Saramago, Jean-Paul Sartre, Graciliano Ramos, Cortázar, Shakespeare, Borges, Victor Hugo, Lobo Antunes, entre outros ajudam a despertar e a consolidar a paixão pela leitura. De Guimarães Rosa: “Toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada”.
A Imprensa Oficial é conhecida pela qualidade de sua impressão e bom gosto quem podem ser apreciados em O Romanceiro da Inconfidência, com desenhos de Renina Katz, no livro que traz a obra completa de Leon Ferrari, editado com a Edusp e Cosac ou ainda nas belas fotobiografias como a de Clarice, e a recente Viva Pagu, com fotos, textos e escritos da irreverente Patrícia Galvão, musa modernista.
Para Hubert Alquéres, presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, a iniciativa amplia a possiblidade de fruição dos belos exemplares publicados pela empresa, já que a Estação Pinacoteca é muito visitada: “ É um prazer dar nossa contribuição e colocar à disposição do público, parte dos mais belos e procurados livros publicados pela empresa. Nossa proposta foi criar ambientes para instigar os visitantes e provocar sua interação com a linguagem e a palavra”.
São mais de 300 títulos, distribuídos por 400 m², edições que representam várias áreas do conhecimento. A curadoria é de Cecília Scharlach, coordenadora editorial da Imprensa Oficial. O arquiteto Haron Cohen assina a direção de arte e a produção gráfica é de Alex Wissenbach.
Vitrines com prêmios, peças gráficas, convites, marcadores de páginas, postais e bonecos mostram o processo de produção até a impressão. Na mostra, livros da parcerias da Imprensa Oficial com editoras universitárias e instituições culturais, como a Biblioteca Nacional, a Pinacoteca do Estado, Academia Brasileira de Letras, o Museu Afro Brasil, o Instituto Tomie Ohtake, o Instituto Moreira Salles.
Tem ainda os títulos da famosa Coleção Aplauso, que hoje pode ser baixada na internet, com as biografias de nossos mais renomados artistas. Dos mais atuais como Sérgio Ricardo: canto vadio e Célia Helena: atriz visceral, passando pelo vencedor do Jabuti, Raul Cortez, Beatriz Segall, Tonia Carrero, até os primeiros exemplares, como Sérgio Cardoso: imagens de sua arte ou Maria Della Costa: seu teatro, sua vida.
Em todo acervo, há obras premiadas como o vencedor do Jabuti, Monteiro Lobato livro a livro, de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini e Resmungos, de Ferreira Gullar, premiado pela Câmara Brasileira do Livro. Em todas as edições, impressiona a excelência gráfica. Agora é só ir lá conferir! E apreciar, tem para todos os gostos: Arte sacra colonial, barroco memória viva; Caixa Modernista , da gravura à arte pública (organização de Jorge Schawartz, Maria Bonomi); Mestres do modernismo; Roupa de artista: o vestuário na obra de arte (Cacilda Teixeira da Costa), Igrejas paulistas: barroco e rococó; Fotógrafos franceses em São Paulo na primeira metade do século XX; Joias da Mata Atlântica; Escritos sobre arte, Tinhorão, o legendário; Impressões de Carybé nas suas visitas ao Benin (1969-1987).
Há ainda resgate de nossa memória histórica, jornalística e política através de edições institucionais de interesse gráfico-editorial e uma vitrine com os jornais antigos como o Ex, com a notícia da morte de Vladimir Herzog.
Exposição de Livros da Imprensa Oficial Até 15 de agosto.
Local: Estação Pinacoteca
Endereço: Largo General Osório, 66 – Centro, São Paulo
Datas e horários: Terça a domingo das 10h às 17h30 com permanência até as 18h
Grátis aos sábados