segunda-feira, 4 de julho de 2011 Entrevista, FLIP, Festivais Literários, Literatura, Poesia | 08:00

“Meu pai era um furacão” por Marília de Oswald de Andrade

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A 9ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty começa na próxima quarta-feira, 06/07, inspirada pelos ideais antropofágicos de Oswald de Andrade. Até 10 de julho, mais de 20 autores de 13 países vão discutir, em 18 mesas, ciência, filosofia, tecnologia, linguagem e muita literatura.

Infelizmente, a festa já sofreu uma baixa importante: um dos maiores escritores italianos, Antonio Tabucchi,  que estava previsto para compartilhar a mesa Noturno Italiano com a Ignacio Loyola Brandão no dia 08/07, sexta-feira, 17h15, cancelou sua vinda devido a decisão da justiça brasileira em relação ao caso Cesare Battisti. No lugar, a mesa Ficções da crônica vai contar com a presença de Loyola Brandão e do psicanalista Contardo Calligaris.

Oswald de Andrade: homem de grandes emoções

Para homenagear esse famoso escritor brasileiro que alterou todo o cenário de uma época com o seu Manifesto Antropófago, a organização da Flip contou com a ajuda da única filha viva de Oswald: Antonieta Marília de Oswald de Andrade. Ela conta que o convite a pegou de surpresa. “Que bom que ele está sendo homenageado neste ano para jovens do século XXI”. Em entrevista, Marília revelou à coluna curiosidades sobre a vida do pai.

O nome de Marília é uma homenagem do pai à mãe Maria Antonieta d’Alkmin, quinta e última mulher do escritor. ”Oswald vivia com minha mãe completamente apaixonado. Conviver com um casal assim, isso me formou, foi uma coisa muito forte. E a impulsividade… Oswald era de altos e baixos, grandes emoções que evidentemente me marcaram muito. Meu pai era um furacão até ficar muito doente. Essa fase para mim foi terrível, assisti a morte do meu pai muito prematuramente (Oswald morreu quando ela tinha 8 anos). Mas enquanto ele esteve saudável, ele era o mesmo Oswald de Andrade. Ele só falava da minha mãe, adorava ela”.  Emocionada, Marília lembrou de uma dedicatória que ele escreveu para sua mãe: “Antonieta, eu quero que você me continue”.  

Psicóloga com doutorado na Universidade Columbia (EUA), é figura importante na dança nacional. Implantou o curso de dança da Unicamp e integrou nos 70 o Ballet Stagium. Além de ajudar a organização da Festa com a abertura dos arquivos de família, ela também foi a embaixatriz do convite ao professor e crítico Antônio Cândido que vai iniciar a Flip com o compositor e professor de literatura brasileira José Miguel Wisnick na mesa Oswald de Andrade: devoração e mobilidade, 06/07, quarta-feira, às 19h. “Não conversamos sobre como será a palestra, pois ele prefere manter uma certa liberdade. Nossa conversa foi muito sobre nossa vida comum, algo bem pessoal. O convite quando eu fiz, ele realmente em princípio não aceitaria, porque ele não aceita mais falar em público. Mas aceitou”.  

As dançarinas de Oswald

Ao todo, Oswald teve quatro filhos, sendo Marília a única mulher. Ela conta que se tornou bailarina por influência do pai que aos 4 anos a levou para ter aulas de balé. ”Apesar de não ter tido dança na Semana de 22, ele era um apaixonado”. Inclusive, uma das namoradas do escritor e grande paixão foi a bailarina Landa Kosbach, que conheceu em 1912, aos 22 anos, numa viagem de navio à Europa. Outro de seus amores foi a dançarina Isadora Duncan, que, numa visita ao Brasil, dançou para ele quase nua, no pôr-do-sol.

“Isadora e meu pai eram duas pessoas muito à frente do seu tempo”, afirma Marília. Ela se tornou numa autoridade sobre a bailarina. Nos anos 1990, levou coreografias originais de Isadora para a Europa, dançando no papel que fora dela. Ela sempre teve curiosidade para saber quem era Landa. No fim dos anos 1980, uma pesquisadora da obra de Oswald solucionou o caso. Landa seria a bailarina Carmen Brandão, a mesma que fora sua primeira professora de dança. Seu pai as havia apresentado. “Eu não poderia nunca suspeitar que a minha professora era a Landa, uma senhora quando eu a conheci. Fiz aula com ela até os 7 ou 8 anos.”

Vídeo produzido pelos jovens da FlipZona inspirados por Oswald de Andrade

Durante a Flip, uma exposição vai apresentar Oswald ao público. Além de fotografias, vai ser possível ver a primeira edição de obras como Pau-Brasil, lançada com desenhos e capa da pintora Tarsila do Amaral, com quem o autor foi casado nos anos 1920. Haverá dois núcleos na exposição: um organizado pela Flip e outro, pela Casa Guilherme de Almeida, que destacará a relação de Almeida com Oswald. “Essa exposição está sendo elaborada pela curadoria. A parte que vou fazer é sobre as dançarinas de Oswald. Mostrar como ele era envolvido até a morte, desde a juventude, com dançarinas, com a paixão que ele tinha pela dança”, explica Marília. 

Depois da Flip, todo esse conjunto poderá ser visto na própria Casa Guilherme de Almeida, que, em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, formará o circuito Oswald de Andrade de exposição em São Paulo. Marília não tem dúvida de que Oswald sempre foi inovador: “Oswald é um escritor deste século e tem que ser lido pelos jovens, tem que ser compreendido. Ele não é só um personagem da semana de Arte 22″. Para ela, a Festa literária de Paraty vai ser uma grande oportunidade para atrair novos leitores para a obra do pai.

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Flip- Festa Literária de Paraty 2011
Local: Paraty- RJ
Conheça o mapa das tendas
Data: 6 a 10 de julho 2011
Veja programação completa aqui

Autor: Mona Dorf - Categoria(s): Entrevista, FLIP, Festivais Literários, Literatura, Poesia Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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