A Capela do Morumbi reconstitui a instalação o último trabalho criado por Leonilson, que não chegou a vê-la montada, pois faleceu antes da inauguração – a obra foi apresentada em 1993.
Visitamos a Capela com uma das expoentes da chamada Geração 80, Leda Catunda, que junto com seu ex-parceiro, Sergio Romagnolo, era próxima do artista, a quem influenciou e de quem sofreu influência. Ela destacou a visão poética de sua obra, que a partir de 1991, passa a ser impactada pela experiência de viver com a Aids e seus sintomas. A doença, o vírus HIV, o deparar-se com a finitude da vida são introduzidos nos trabalhos e caracterizam a sua produção, desenvolvida até o ano de sua morte, em 1993.
Aqui a singela da Capela, joga luz a dimensão simbólica da obra de Leonilson.
Passeamos com Leda Catunda pelo vazio e objetos que compõem a instalação. Ela comenta as inscrições: uma cadeira forrada com tecidos e a palavra bordada “los delicias”; um cabideiro com tecidos de voile branco e laranja, delicadamente superpostos, e duas camisas costuradas pela barra, com o nome “Lázaro”, referência ao personagem bíblico, ressuscitado por Cristo quatro dias depois de sua morte.
Remontagem em 2011 faz parte da retrospectiva apresentada no Itaú Cultural
Para o curador do espaço Douglas de Freitas, o lugar ressalta o romantismo, a ironia e a religiosidade, temas recorrentes em sua obra.
“O valor simbólico é construído por palavras e matéria. Camisas de uso cotidiano dispostas sobre duas cadeiras que ocupam o altar recebem as inscrições “da falsa moral” e “do bom coração”. As mangas alongadas que pendem até o chão e a aparência frágil e delicada do tecido sinalizam o corpo fragilizado pela doença. O silêncio da Capela é contraposto à inquietação causada pela simbologia da ausência explicitada pelos objetos.”
Aos 36 anos, pouco antes da abertura da instalação, Leonilson faleceu. Por esse trabalho e por outro realizado também em 1993, o artista recebeu homenagem póstuma e prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
O passeio virtual pela instalação na Capela
A instalação de Leonilson celebra 20 anos do projeto de Instalações de Arte Contemporânea na Capela do Morumbi
Localizada ao lado da antiga Fazenda do Morumbi, a charmosa Capela já vale uma visita por si só. Erguida em 1949, sobre ruínas do século 19 de uma construção em taipa-de-pilão, pelo arquiteto Gregori Warchavchik, tem recebido prestigiados artistas brasileiros: Carlos Fajardo, Iole de Freitas, Dudi Maia Rosa, Sergio Sister, Carmela Gross, Carlos Vergara, José Resende, Nelson Leirner, e recentemente, Guto Lacaz, Laura Vinci, num total de 108 instalações até hoje.
Instalação Leonilson: sob o peso de meus amores
Até 29 de maio de 2011
Local: Capela do Morumbi
Endereço: Av. Morumbi, 5387, São Paulo
Datas e horários: de terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada franca
Os Pensamentos do Coração, 1988/ Foto: Rômulo Fialdini
É a mais abrangente mostra da obra de José Leonilson, – artista-chave da geração 80, que faleceu precocemente em 1993, de aids -, desde a retrospectiva organizada por Lisette Lagnado, curadora da Bienal de São Paulo, em 2006, e fundadora da Sociedade Amigos do Projeto Leonilson.
Ricardo Resende um dos curadores, ao lado de Bitu Cassundé, conduziu nossa visita pelos 3 andares da exposição no Itaú Cultural, e nos deu uma aula sobre a obra, repleta de símbolos e índices e as metáforas mais utilizadas por Leonilson: rios, caminhos, trajetos, artérias, vias, órgãos, cidades, desejos, vida, doença e morte.
“Leonilson relata-se por meio das repetições”
Como escrevem os curadores… É nesse fluxo de poesia autobiográfica, que nos deixamos levar, entre telas e tecido, palavras e imagens, brinquedos, bordados e botões, carregados de intensidade e afeto.
Na exposição, obras inéditas do alemão Albert Hien
Mapa-mundi e globos também ocupam lugar de destaque na obra de Leonilson que compartilhou seu desejo de mudar o mundo com o artista alemão Albert Hien. Pela primeira vez, obras inéditas dele e outras feitas em conjunto são mostradas no país, como por exemplo How to Rebuilt at Least One Eight Part of the world, feita a 4 mãos, logo depois do acidente nuclear em Chernobyl.
De personalidades distintas ambos tinham em comum na tradução da geografia do mundo e da natureza, o colecionismo, a inclusão de brinquedos e signos recorrentes em suas obras (ampulheta, símbolo do infinito, números, navio, escada, ponte, relógio, avião, farol, instrumentos musicais, átomo, vulcão, montanha, cadeira, bússola, torre).
Um percurso biográfico onde reina a palavra como imagem
O recurso gráfico em suas construções ”poético-visuais” faz o diálogo entre as artes visuais e a literatura, a palavra e a imagem se conjugam numa estética semelhante àquela das histórias em quadrinhos. A curadoria de Ricardo Resende e Bitu Cassundé explicita o legado de Leonilson, as 300 obras expostas propôem uma reflexão sobre seu trabalho; fica impossível sair da mostra sem perceber a amplitude de sua contribuição para a produção artística contemporânea.
Taxonomia: a arte de traduzir o mundo em listas, números, coleções…
Em toda exposição é possível reconhecer símbolos, repetições, recorrências de Leonilson… Nas palavras dos curadores: “Seu legado constitui um grande arquivo, impregnado de memórias, classificações, vida e transposições. Esses arquivos de referências pessoais são compostos por materiais recolhidos do cotidiano, como tíquetes de viagens, entradas de cinema, matérias de jornais e revistas com informações pessoais, de amigos ou de sua obra, programações das exposições, fotos, contas, endereços, telefones, cartões, relatos de viagem, uma refinada escrita poética, esboços de trabalhos e demais particularidades.”
Agendas e cadernos de desenhos e de anotações digitalizados
Sobre o artista
Nasceu em Fortaleza, mas mudou-se para São Paulo em 1961, onde cursou a Fap. Ficou reconhecido pelo uso de costuras e bordados. Morreu em decorrência da aids em 1993.
Créditos das fotos: Eduardo Brandão/ Eduardo Ortega/ Rômulo Fialdini/ Albert Hien/ Vicente de Mello
Sob o Peso dos Meus Amores – Retrospectiva de Leonilson
Até 29 de maio 2011
Local: Itaú Cultural Endereço: Av. Paulista, 149
Datas e horários: terças a sexta das 9h às 20h/ sábados e domingos das 11h às 20h
Entrada gratuita