Se agosto foi o mês das letras no eixo Rio-SP com a Flip e a Bienal do Livro, novembro não deixa por menos, com vários eventos espalhados pelo país, a começar pelo o Fórum das Letras, em Ouro Preto, MG, que abre oficialmente nesta quarta, dia 10, com uma homenagem ao poeta o mineiro Affonso Ávila e segue até 15 de novembro.
Ainda nesta semana, na sexta, dia 12 abre Fliporto em Olinda, e quinta-feira 18 de novembro, a Balada Literária invade a Vila Madalena, em São Paulo. É festa literária para todos os gostos, e ninguém botar defeito!
NoFórum das Letras de Ouro Preto é influência africana na cultura brasileira – ainda mais em Ouro Preto, cidade erguida por escravos -, que dá o tom dessa sexta edição. Ela traz nos encontros escritores dos países de língua portuguesa como os moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane, a primeira mulher moçambicana a publicar um romance; outros destaques são os angolanos Pepetela, Ondjaki, Carmo Neto, João de Melo, Adriano Botelho e João Maimona, entre outros convidados do evento.
De Portugal, vem Luandino Vieira, Inocência da Mata e Margarida Paredes, do Brasil, Ferreira Gullar, Alberto Mussa, Nei Lopes, Flávio Carneiro, Marina Colasanti, Laurentino Gomes, Décio Pignatari, Daniel Galera, Rafael Coutinho, João Paulo Cuenca, Ronaldo Correia de Brito, Clóvis Bulcão, Affonso Romano de Sant’anna, só para citar alguns nomes…
O português é a quarta língua mais falada do mundo, mas a literatura produzida nos países lusófonos ainda não é muito conhecida, nem mesmo nos próprios países de língua portuguesa dos três continentes. Os países de língua portuguesa da África, assim como o Brasil, foram colônias, tem problemas, questionamentos e expectativas semelhantes aos brasileiros. O diálogo e o conhecimento mútuo das realidades e manifestações culturais só pode ser uma troca enriquecedora para todos os lados. O Fórum das Letras busca uma política de promoção e divulgação da cultura e da literatura brasileira, em interação com países cujos ideais se assemelham aos nossos”, comenta a coordenadora do Fórum das Letras é Guiomar de Grammont, diretora do Instituto de Filosofia, Artes de Cultura (IFAC) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Além da programação acontecem vários eventos paralelos: o Fórum das Letrinhas, Literatura em Cena, Via-Sacra Poética e Ciclo Bravo! de Jornalismo e Literatura.
Noite ouropretana iluminada pelas letras
As atrações paralelas seguem noite adentro na Via-Sacra Poética, onde poetas levam a poesia para pontos inusitados da cidade, a céu aberto, bares e restaurantes. O encontro do público com autores jovens ou já consagrados, se mistura com o cotidiano da população. A programação tem também lançamentos de livros, leitura de poesias, exibição de vídeo-poemas, performances poéticas, cortejos e shows musicais ligados à literatura.
Fórum das Letras Ouro Preto- Minas Gerais
10 e 15 de novembro de 2010
Ovacionado e aplaudido, durante dez minutos por um público de pé, Gullar agradecia: “Muito bom ver que ainda há quem goste de poesia”. A cena do Festival da Mantiqueira – Diálogos com a literatura, se repetiu mais uma vez, no sábado, no encerramento de uma das mesas mais interessantes dessa Flip. Conduzida por Samuel Titan Jr, professor de literatura, e coordenador cultural do Instituto Moreira Salles a conversa conseguiu variar da trajetória política do poeta, passando pela criação, das diversas fases de sua poesia, ao convívio com os artistas plásticos, Lygia Pape, Lygia Clark, Oiticica, Mario Pedrosa, ” o estado maior do neoconcretismo”, nas palavras do próprio Gullar.
Ele estava inspirado e divertiu a plateia ao contar os percalços de sua vida, contando que sempre remou contra a maré.
Da amizade e depois ruptura com os poetas concretistas, os irmãos Campos e Pignatari, a vida no Rio sempre inventando com os artistas plásticos, ao exílio na Rússia e Buenos Aires, onde escreveu o famoso “Poema Sujo” (1976) durante a ditadura, para falar dos que desapareciam… Difícil dizer o que foi mais interessante.
Sempre com muito bom humor, mostrou que a poesia nasce do espanto:” É um milagre; eu vivo um dos melhores estados quando estou escrevendo minha poesia, mas infelizmente não é quando eu quero. Às vezes passo meses inteiros sem escrever… Cara, qualquer coisa pode surpreender um poeta. Quer ver? Outro dia, escrevi o poema “Acidente na sala” depois que bati o osso hilíaco num móvel. Cara, eu tenho osso, e osso pergunta? Não dá pra explicar entende… Vem do acaso.”
Foi mais um momento em que a plateia veio abaixo.
Para logo em seguida, ficar hipnotizada pela leitura desse e mais dois poemas do livro inédito, Em Alguma parte alguma, que ele lança em Setembro, após dez anos sem publicar.