A 9ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paratycomeça na próxima quarta-feira, 06/07, inspirada pelos ideais antropofágicos de Oswald de Andrade. Até 10 de julho, mais de 20 autores de 13 países vão discutir, em 18 mesas, ciência, filosofia, tecnologia, linguagem e muita literatura.
Infelizmente, a festa já sofreu uma baixa importante: um dos maiores escritores italianos, Antonio Tabucchi, que estava previsto para compartilhar a mesa Noturno Italiano com a Ignacio Loyola Brandão no dia 08/07, sexta-feira, 17h15, cancelou sua vinda devido a decisão da justiça brasileira em relação ao caso Cesare Battisti. No lugar, a mesa Ficções da crônica vai contar com a presença de Loyola Brandão e do psicanalista Contardo Calligaris.
Oswald de Andrade: homem de grandes emoções
Para homenagear esse famoso escritor brasileiro que alterou todo o cenário de uma época com o seu Manifesto Antropófago, a organização da Flip contou com a ajuda da única filha viva de Oswald: Antonieta Marília de Oswald de Andrade. Ela conta que o convite a pegou de surpresa. “Que bom que ele está sendo homenageado neste ano para jovens do século XXI”. Em entrevista, Marília revelou à coluna curiosidades sobre a vida do pai.
O nome de Marília é uma homenagem do pai à mãe Maria Antonieta d’Alkmin, quinta e última mulher do escritor. ”Oswald vivia com minha mãe completamente apaixonado. Conviver com um casal assim, isso me formou, foi uma coisa muito forte. E a impulsividade… Oswald era de altos e baixos, grandes emoções que evidentemente me marcaram muito. Meu pai era um furacão até ficar muito doente. Essa fase para mim foi terrível, assisti a morte do meu pai muito prematuramente (Oswald morreu quando ela tinha 8 anos). Mas enquanto ele esteve saudável, ele era o mesmo Oswald de Andrade. Ele só falava da minha mãe, adorava ela”. Emocionada, Marília lembrou de uma dedicatória que ele escreveu para sua mãe: “Antonieta, eu quero que você me continue”.
Psicóloga com doutorado na Universidade Columbia (EUA), é figura importante na dança nacional. Implantou o curso de dança da Unicamp e integrou nos 70 o Ballet Stagium. Além de ajudar a organização da Festa com a abertura dos arquivos de família, ela também foi a embaixatriz do convite ao professor e crítico Antônio Cândido que vai iniciar a Flip com o compositor e professor de literatura brasileira José Miguel Wisnick na mesa Oswald de Andrade: devoração e mobilidade, 06/07, quarta-feira, às 19h. “Não conversamos sobre como será a palestra, pois ele prefere manter uma certa liberdade. Nossa conversa foi muito sobre nossa vida comum, algo bem pessoal. O convite quando eu fiz, ele realmente em princípio não aceitaria, porque ele não aceita mais falar em público. Mas aceitou”.
As dançarinas de Oswald
Ao todo, Oswald teve quatro filhos, sendo Marília a única mulher. Ela conta que se tornou bailarina por influência do pai que aos 4 anos a levou para ter aulas de balé. ”Apesar de não ter tido dança na Semana de 22, ele era um apaixonado”. Inclusive, uma das namoradas do escritor e grande paixão foi a bailarina Landa Kosbach, que conheceu em 1912, aos 22 anos, numa viagem de navio à Europa. Outro de seus amores foi a dançarina Isadora Duncan, que, numa visita ao Brasil, dançou para ele quase nua, no pôr-do-sol.
“Isadora e meu pai eram duas pessoas muito à frente do seu tempo”, afirma Marília. Ela se tornou numa autoridade sobre a bailarina. Nos anos 1990, levou coreografias originais de Isadora para a Europa, dançando no papel que fora dela. Ela sempre teve curiosidade para saber quem era Landa. No fim dos anos 1980, uma pesquisadora da obra de Oswald solucionou o caso. Landa seria a bailarina Carmen Brandão, a mesma que fora sua primeira professora de dança. Seu pai as havia apresentado. “Eu não poderia nunca suspeitar que a minha professora era a Landa, uma senhora quando eu a conheci. Fiz aula com ela até os 7 ou 8 anos.”
Vídeo produzido pelos jovens da FlipZona inspirados por Oswald de Andrade
Durante a Flip, uma exposição vai apresentar Oswald ao público. Além de fotografias, vai ser possível ver a primeira edição de obras como Pau-Brasil, lançada com desenhos e capa da pintora Tarsila do Amaral, com quem o autor foi casado nos anos 1920. Haverá dois núcleos na exposição: um organizado pela Flip e outro, pela Casa Guilherme de Almeida, que destacará a relação de Almeida com Oswald. “Essa exposição está sendo elaborada pela curadoria. A parte que vou fazer é sobre as dançarinas de Oswald. Mostrar como ele era envolvido até a morte, desde a juventude, com dançarinas, com a paixão que ele tinha pela dança”, explica Marília.
Depois da Flip, todo esse conjunto poderá ser visto na própria Casa Guilherme de Almeida, que, em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, formará o circuito Oswald de Andrade de exposição em São Paulo. Marília não tem dúvida de que Oswald sempre foi inovador: “Oswald é um escritor deste século e tem que ser lido pelos jovens, tem que ser compreendido. Ele não é só um personagem da semana de Arte 22″. Para ela, a Festa literária de Paraty vai ser uma grande oportunidade para atrair novos leitores para a obra do pai.
Estrelas internacionais de todos os naipes e escritores que percorreram o circuito das Letras - Flip, Bienal do Livro, Fórum das Letras - se deslocam a partir dessa sexta-feira, 11 de novembro, para o Nordeste brasileiro, num cenário de sonho. Olinda promete realçar ainda mais o brilho dessa VI edição envolvendo toda a comunidade literária de Pernambuco e dos estados vizinhos.
O coordenador do evento, o escritor e advogado Antônio Campos vislumbra, na relação entre Fliporto e Olinda, um encontro que promete ser duradouro. “Assim, a Fliporto transfigura sua marca preservando a essência simbólica do ‘porto’, o espaço em que viajantes (autores) e nativos (público) se misturam, trocando suas riquezas e misturando artefatos. É o maior porto literário do nosso vasto mar cultural que é o Nordeste!”
Entre os nomes da literatura mundial, Camille Paglia, uma das mais influentes intelectuais da atualidade, o escritor sírio Adonis (pseudônimo de Ali Ahmed Said Esber), sempre cotado ao para o Nobel, os argentinos Ricardo Piglia e Alberto Manguel…
A literatura e presença judaica no mundo ibero americano
este ano, é o tema central que serve como norte para as mesas de discussões, como explica o Membro da Academia Pernambucana de Letras (APL). Foi dele a ideia da discussão em torno da literatura judaica e a sugestão da homenageada desse ano, Clarice Lispector. “A escolha de Clarice se deve a própria trajetória da escritora, que da Ucrânia veio para o Brasil e sua importância seminal para a construção da literatura brasileira moderna”, afirma.
Eu estarei mediando a conversa que junta pela primeira vez dois especialistas em Clarice, os biógrafos Nádia Gotlib - cujo mergulho nos acervos da família resultou na linda: Clarice Fotobiografia, publicada pela Imprensa Oficial, que passeia por sua vida, do Recife ao Rio de Janeiro, e pelos anos de casamento com o diplomata - e o americano Benjamin Moser, esse último responsável por Clarice, lançado em 2009 nos EUA e aqui.
A curadoria literária da Fliporto
é do jornalista e escritor Mário Hélio Gomes, doutor em Antropologia pela Universidade Salamanca (Espanha) e coordenador-geral da EditoraMassangana/Fundação Joaquim Nabuco.
Na intensa programação alinhavada por ele com o melhor de nossas letras, tem também espaço para o cinema, artes plásticas, música e tecnologia nos projetos simultâneos: Cine Fliporto, Fliporto Criança, Fliporto Gastronomia e Fliporto Digital. A Festa sedia ainda a I Feira do Livro de Pernambuco onde estará sendo lançado também o Autores e Ideias!
Programação para todos os gostos
Figuram ainda entre as novidades da Fliporto Clarice na Cabeceira, nova coletânea, dessa vez de crônicas, organizada por Teresa Montero; a graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho; A Cidade Ilhada, de Milton Hatoum; Traduzindo Hanna, de Ronaldo Wrobel; e Deixa Eu Ir Meu Povo, da pernambucana Luzilá Gonçalves Ferreira.
A sexta edição confirma Ioram Melcer, Michel Sleiman, Geneton Moraes Neto, Edney Silvestre, Marcia Tiburi, Raimundo Carrero, François Jullien, Contardo Calligaris, Adriana Armony, Tatiana Salem Levy, Alberto Dines, Moacyr Scliar e Guilherme Fiúza.
Pernambuco reaviva a profunda relação com Clarice Lispector para adotá-la plenamente – quem sabe um dia veremos a velha casa da onde ela viveu na Praça Maciel Pinheiro como um belo memorial – com essa justa homenagem. No ano em que são celebrados os 90 anos de seu nascimento, a Fliporto dedica a chegada à nova década a uma das autoras mais vanguardistas do País. “A honraria a Clarice se deve à própria trajetória da escritora, que da Ucrânia veio para o Brasil, e a sua importância seminal para a construção da literatura nacional”, define Antônio Campos, coordenador geral da Fliporto.
Diva da moderna literatura brasileira, Clarice Lispector permeia de forma muito especial a Fliporto 2010. Merecidamente homenageada da sexta edição, culmina como ponto alto de diversos caminhos propostos pela Festa Literária Internacional de Pernambuco. Judia, nascida na Ucrânia, passou a infância e adolescência no Recife, e viveu por diversas cidades do mundo. Nossa Kafka de saias é uma mescla única e vigorosa da temática que aqui se propõe: Literatura e presença judaica no mundo ibero-americano.