Mona Dorf media a primeira mesa de sábado na Fliporto Clarice Lispector: como se constrói uma biografia com Benjamin Moser e Nádia Gotlib.
Foto: Anapaula Ziglio
Durante a mesa, os dois biógrafos de Clarice Lispector leram trechos de seus livros e debateram pela primeira vez em público suas convergências e divergências. Acompanhe abaixo um trecho:
Estrelas internacionais de todos os naipes e escritores que percorreram o circuito das Letras - Flip, Bienal do Livro, Fórum das Letras - se deslocam a partir dessa sexta-feira, 11 de novembro, para o Nordeste brasileiro, num cenário de sonho. Olinda promete realçar ainda mais o brilho dessa VI edição envolvendo toda a comunidade literária de Pernambuco e dos estados vizinhos.
O coordenador do evento, o escritor e advogado Antônio Campos vislumbra, na relação entre Fliporto e Olinda, um encontro que promete ser duradouro. “Assim, a Fliporto transfigura sua marca preservando a essência simbólica do ‘porto’, o espaço em que viajantes (autores) e nativos (público) se misturam, trocando suas riquezas e misturando artefatos. É o maior porto literário do nosso vasto mar cultural que é o Nordeste!”
Entre os nomes da literatura mundial, Camille Paglia, uma das mais influentes intelectuais da atualidade, o escritor sírio Adonis (pseudônimo de Ali Ahmed Said Esber), sempre cotado ao para o Nobel, os argentinos Ricardo Piglia e Alberto Manguel…
A literatura e presença judaica no mundo ibero americano
este ano, é o tema central que serve como norte para as mesas de discussões, como explica o Membro da Academia Pernambucana de Letras (APL). Foi dele a ideia da discussão em torno da literatura judaica e a sugestão da homenageada desse ano, Clarice Lispector. “A escolha de Clarice se deve a própria trajetória da escritora, que da Ucrânia veio para o Brasil e sua importância seminal para a construção da literatura brasileira moderna”, afirma.
Eu estarei mediando a conversa que junta pela primeira vez dois especialistas em Clarice, os biógrafos Nádia Gotlib - cujo mergulho nos acervos da família resultou na linda: Clarice Fotobiografia, publicada pela Imprensa Oficial, que passeia por sua vida, do Recife ao Rio de Janeiro, e pelos anos de casamento com o diplomata - e o americano Benjamin Moser, esse último responsável por Clarice, lançado em 2009 nos EUA e aqui.
A curadoria literária da Fliporto
é do jornalista e escritor Mário Hélio Gomes, doutor em Antropologia pela Universidade Salamanca (Espanha) e coordenador-geral da EditoraMassangana/Fundação Joaquim Nabuco.
Na intensa programação alinhavada por ele com o melhor de nossas letras, tem também espaço para o cinema, artes plásticas, música e tecnologia nos projetos simultâneos: Cine Fliporto, Fliporto Criança, Fliporto Gastronomia e Fliporto Digital. A Festa sedia ainda a I Feira do Livro de Pernambuco onde estará sendo lançado também o Autores e Ideias!
Programação para todos os gostos
Figuram ainda entre as novidades da Fliporto Clarice na Cabeceira, nova coletânea, dessa vez de crônicas, organizada por Teresa Montero; a graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho; A Cidade Ilhada, de Milton Hatoum; Traduzindo Hanna, de Ronaldo Wrobel; e Deixa Eu Ir Meu Povo, da pernambucana Luzilá Gonçalves Ferreira.
A sexta edição confirma Ioram Melcer, Michel Sleiman, Geneton Moraes Neto, Edney Silvestre, Marcia Tiburi, Raimundo Carrero, François Jullien, Contardo Calligaris, Adriana Armony, Tatiana Salem Levy, Alberto Dines, Moacyr Scliar e Guilherme Fiúza.
Pernambuco reaviva a profunda relação com Clarice Lispector para adotá-la plenamente – quem sabe um dia veremos a velha casa da onde ela viveu na Praça Maciel Pinheiro como um belo memorial – com essa justa homenagem. No ano em que são celebrados os 90 anos de seu nascimento, a Fliporto dedica a chegada à nova década a uma das autoras mais vanguardistas do País. “A honraria a Clarice se deve à própria trajetória da escritora, que da Ucrânia veio para o Brasil, e a sua importância seminal para a construção da literatura nacional”, define Antônio Campos, coordenador geral da Fliporto.
Diva da moderna literatura brasileira, Clarice Lispector permeia de forma muito especial a Fliporto 2010. Merecidamente homenageada da sexta edição, culmina como ponto alto de diversos caminhos propostos pela Festa Literária Internacional de Pernambuco. Judia, nascida na Ucrânia, passou a infância e adolescência no Recife, e viveu por diversas cidades do mundo. Nossa Kafka de saias é uma mescla única e vigorosa da temática que aqui se propõe: Literatura e presença judaica no mundo ibero-americano.
No último sábado, o Salão de Idéias da Bienal lotou para ouvir a atriz Beth Goulart e Benjamim Moser, falar sobre uma escritora que atrai multidões: Clarice Lispector. O escritor que acabei encontrando, por acaso, novamente no domingo, me confessou: ” Nunca pensei que passaria tanto tempo falando sobre um livro… ” . A biografia Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), foi lançada há um ano nos EUA, e em seguida aqui no Brasil (Cosac Naify), desde então, o autor americano que mora na Hollanda, não parou. ” Toda hora estou no Brasil! Volto daqui a 3 meses para a Fliporto! ” comemora.
Durante a Flip, tívemos uma boa conversa com ele. Benjamin Moser nos leu um trecho do livro e falou da pesquisa e da viagem à Ucrânia.
Cada um tem a empregada que merece…
(
Obstinado, Benjamim aprendeu português e ficou cinco anos imerso na vida e na obra de Clarice para apresentá-la ao leitor não lusófono. Sua biografia -que teve como tradutor o clariciano, José Geraldo Couto - vem se somar à outras obras, na linha de biografias e memórias, como os da pesquisadora Nadia Gotlib com quem conversamos longamente.
Filiação de Clarice Lispector à tradição literária da mística judaica
Muitos já observaram que sua literatura não parecia “brasileira”, e que até mesmo em português guarda um raro sotaque.
“Para os judeus, tradicionalmente, a experiência mística se dá por meio da escrita, da palavra escrita. Não existe místico judeu que não escreveu livros. Ao escrever, Deus aparece porque, em hebraico, não é apenas a palavra de Deus que é sagrada, o próprio alfabeto é sagrado”. Para Moser, essa matriz judaica é “óbvia”, na literatura dela mas sempre foi relegada a segundo plano.
Neste trecho, Benjamim Moser fala da vida de Clarice no Recife e do seu judaismo. Descreve o lugar de onde veio sua família, terra de peregrinação: ” Era uma regiâo que fervilhava de misticismo, não só de judeus…”
Clarice não era religiosa, mas vinha de uma família que falava com Deus
Benjamim fez questão de viajar para “sentir” de perto as cidades onde a escritora viveu. Numa pesquisa inédita, ele percorreu durante 5 anos, os lugares por onde os Lispector passaram, da agreste Podólia (região da Ucrânia) ao célebre apartamento no Leme onde ela passaria o resto da vida, do Recife da sua infância às cidades onde viveu com o marido diplomata: ” Se eu soubesse quanto dinheiro isso ia custar… mas quando vi, já estava completamente envolvido na minha busca! ”
O ponto alto do seu livro, discutível para alguns, é revelar aspectos desconhecidos da vida da escritora, como um possível estupro da mâe dela, em função do qual, ela viria a contrair a sífilis, doença que a matou. Benjamim desenvolve a tese de que Clarice carregaria a culpa de não ter salvo a mãe a vida toda.
A revelação inédita viria de uma conversa da própria Clarice e de Elisa Lispector, irmã mais velha, também escritora, que permitiu ao biógrafo enxergar os dramáticos episódios vividos pelos Lispector, durante os pogroms - perseguições a judeus-, que assolaram a Ucrânia entre 1910 e 1920.
Benjamin Moser fala também da sua relação com a psicanálise. Desde quando morou em Berna, Clarice teve diferentes terapeutas e psicanalistas; Moser procura reconstituir essas experiências, especialmente importantes numa escritora que fez da subjetividade a principal matéria de sua ficção.
A boemia intelectual do Rio de Janeiro dos anos 50 e 60 –com quem Clarice cultivou sólidas amizades sobretudo com os escritores mineiros: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos- foi tema do programa Letras&Leituras com os dois biográfos Benjamin Moser e Nadia Gotlib.
A política de estuprar mulheres era uma forma de humilhação do pai, da família
“Como é possível que ninguém fora do Brasil saiba quem é essa mulher?”. O jovem Benjamim Moser é responsável por difundi-la no exterior. Para o leitor brasileiro, é interessante também conhecer a visão de um estrangeiro sobre o Brasil e sobre uma des nossas mais instigantes escritoras.
Não é de hoje que críticos, biógrafos, pesquisadores, jornalistas, artistas tentam decifrar Clarice Lispector. Sem contar os livros de sua autoria, só na Amazon.com são listados 74 itens que contêm “Clarice Lispector” no título; na Livraria Cultura 37. A fotobiografia organizada por Nádia Battella Gotlib, publicada pela Imprensa Oficial, traz oitocentas imagens.
Seu rosto é reproduzido à exaustão na internet, em selos postais, literatura de cordel, é um ícone da cultura brasileira. O mistério estampado no rosto da escritora, no entanto, permanece. Por isso é que, na edição brasileira, Benjamin Moser e a Cosac Naify apostaram não em imagens, mas numa narrativa, para dar conta desse mistério.
Clarice, uma biografia Autor: Benjamin Moser Editora: Cosac Naify Tradução: José Geraldo Couto Quarta capa: Yudith Rosenbaum Foto da capa: Claudia Andujar
O livro contém apenas uma imagem de Clarice. Assim mesmo, seu rosto não aparece na capa, apenas na lombada do livro e numa foto interna, como que para reafirmar que é somente pelas palavras que se pretende capturar sua vida e obra. O título do livro em português – Clarice, – remete à proverbial vírgula que abre Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.
Na mesa Gilberto Freyre e o século 21 que encerra no domingo, às 11h45 , a homenagem ao sociólogo, três de seus maiores intérpretes analisam a atualidade sua a obra. O escritor americano Benjamim Moser, quase um brasilianista, – ele esteve em Pernambuco para pesquisar a vida de Clarice Lispector – fará a mediação. Pelo tom do texto, que escreveu sobre Freyre há algumas semanas, deve pegar pesado:” Escrevi esse texto que foi publicado nos EUA e depois foi traduzido aqui, ele combateu o racismo, mas apoiou Salazar… Esteve na Africa, pouca gente sabe… Apesar de contraditório, fez muito pelo Brasil”.
Mais tarde às 16h30, na mesa Nacional, estrangeiro, o americano Benjamin Moser, volta à Tenda dos Autores, para uma conversa com o tradutor alemão Berthold Zilly (de Guimarães e Machado), entre outros escritores brasileiros. Ao se aproximarem da cultura brasileira, eles se transformaram em intérpretes da literatura produzida no Brasil e seu papel no exterior: “Nós somos uma espécie de canal, acho um privilégio poder falar de outras cultura, fora do nosso país.”
A Flip é mesmo uma festa! O que não faltam são jantares e pequenas recepções para festejar os autores que vem a Paraty. O almoço chez Dom João de Orleans e Bragança já virou tradição. Há 5 anos, no primeiro dia, que é de fato a quinta-feira com as primeiras mesas de debate, o príncipe abre seu lindo casarão colonial, à beira mar, para um almoço, oferecido pela Imprensa Oficial e CBL - Câmara Brasileira do Livro, para os escritores e convidados da Flip. Pinturas e obras de arte nas paredes históricas e um jardim com vegetação de mata atlântica fazem a delícia do encontro, momento relax , propício para ver mais de perto os escritores e tomar uma caipirinha. Sem falar no cardápio, este ano baseado em Casa Grande & Senzala. Ano passado foi lá que consegui trocar dois dedos de prosa com Gay Talese e até tirar aquela foto de tiete. Este ano, entre outros, Amyr Klink e as três filhas que lançam livro na Flipzona, e Benjamim Moser, autor de Clarice, (Editora Cosac Naify ). O americano contou que acabou mesmo ficando muito amigo do conterrâneo William Kennedy.
Amyr Klink é praticamente cidadão honorário de Paraty, freqüenta a cidade desde a infância, quando seu pai descobriu a região e comprou terras para criar gado. Muitos anos depois, ele mesmo, compraria ou melhor “alugaria” por alguns anos uma linda ilha na baía onde montou uma casa com pequeno trapiche para atracar seus barcos. O amor ao mar veio dessa convivência com esse litoral selvagem, amor que o lançou nas mais loucas aventuras pelos mares. Numa delas, para a Antártica, onde carregou a mulher e as três filhas; dessa aventura nasce mais um livro Férias na Antártica, dessa vez escrito e ilustrado pelo resto da família, a ser lançado no sábado, na Flipzona.
Filhas de peixe, peixinho são…
Tamara, Laura e Marina Klink contam suas viagens pelo mundo
Sábado, 07/08, das 17h às 18h
Flipzona – Paraty/RJ