Uma conversa com Ferreira Gullar: mais de 80 anos de poesia, política e arte
O Prêmio Jabuti, que mudou de regras esse ano – não há mais 3 finalistas para cada categoria – já tem os vencedores de 2011 para cada uma das 29 categorias. Em Alguma Parte Alguma, publicado ano passado, por Ferreira Gullar, ganhou o Prêmio na categoria poesia. José Castello ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance com seu livro Ribamar.
Conversamos com Ferreira Gullar, em sua casa, uma ano atrás, pouco antes do aguardado lançamento do livro Em Alguma Parte Alguma, pela José Olympio, quando ele acabava de completar 80 anos. Ele nos recebeu na penumbra de seu apartamento em Copacabana, onde não é poupado dos barulhos externos. Contente com todo esse reconhecimento? com o Prêmio Camões? – pergunto. Feliz, sem dúvida, mas ainda surpreso, espantado com tanto assédio da mídia: “Não aguento mais dar entrevistas! É uma atrás da outra, esta será a última. Acho uma overexposição, eu quero sim, é que leiam a minha poesia”, brada um Gullar, um tanto cansado, mal humorado. Como bem disse na Flip, ele sempre remou contra a maré. Apesar disso, arrebatou a plateia de Paraty, ao narrar com humor, sua trajetória de percalços, onde a produção artística caminhou lado a lado com a política.
Incomodado com o gato que acabara de ganhar de presente de Adriana Calcanhoto – o bichano demanda ração especial e não aceita a que ele comprou no bairro -, aos poucos, o poeta vai se animando: “Ela quis ser gentil, eu contei que meu gato morreu, e a Adriana apareceu com esse filhote aqui, também siamês. Mas ela me arrumou um problema, sabe!”.
Nesse vídeo, ele nos fala da sua estreita relação com a arte e aponta com apreço quadros de artistas amigos que ornam as paredes de uma sala bagunçada de literatura e arte. O poeta já desejou ser pintor e tem se dedicado a fazer colagens de papel; ele nos mostra o boneco de outro livro inédito, de colagens de bichos, Zoologia bizarra, que sairá pela Casa da Palavra.
Na casa de Gullar
“Rilke, Elliot, Rimbaud, Mallarmé, Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Camões, Castro Alves, Olavo Bilac, tem poetas que eu leio e releio a obra toda, não me canso… É um mundo muito rico!”, festeja um Gullar, que na infância chegou a pensar que poesia era coisa de gente morta. Claro que as pessoas lêem poesia, senão meus livros não venderiam. O livro Toda Poesia está na décima nona edição, os outros estão em décima quinta, décima quarta… ” exclama.
O Duplo, um poema do novo livro de poesias
Entre um livro e outro são sempre muitos anos, o que não quer dizer que o poeta não escreve no meio tempo em que fica sem publicar. “A luta corporal foi uma aventura que nasceu de um ideal poético, impossível de atingir. O resultado é que a linguagem foi levada ao limite, implodiu. Todo livro meu é uma aventura que vai se concretizando a medida que eu faço, refaço, critico, edito”. A poesia concreta é uma experiência ultrapassada; a rigor, nunca me considerei um poeta concreto, como os irmãos Campos. De lá eu fui para a poesia neoconcreta que veio dar depois no Poema Sujo e nos poemas de hoje”, considera. Na Flip, ele disse que fez Poema Sujo porque as pessoas estavam desaparecendo na ditadura e ele tinha medo de morrer. “Quis deixar algo em meu nome e no daqueles que sumiam, de repente.“ Gravado numa fita, o libelo foi trazido pelo poetinha Vinicius de Morais que o fez circular pelo país. Ícone, virou quase um hino dos anos de chumbo. O novo livro só tem poesias inéditas, mas carrega nos traços os versos dessa trajetória. “Não me sinto com 80 anos!”
O novo livro de poesias Em Alguma Parte Alguma
Em Alguma Parte Alguma
Livraria Cultura – Loja Record /Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073, São Paulo
A partir das 19 horas
Veja também, o poeta na Flip 2010:
“A arte existe porque a vida não basta” Ferreira Gullar
“É bom fazer poesia: ninguém te obriga”
Flip 2010 foi salva pela programação do sábado
Notas relacionadas:
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Gullar é um patrimônio, um gênio, é difícil falar de pessoas assim. Talves as melhores palavras sejam de Vinícius -”se todos fossem iguais a voce”. Temos que agradecer a ele pela arte das letras.
“TRADUZIR-SE” NA VOZ DE FAGNER É SIMPLESMENTE INEFÁVEL.
ALÉM DE GRANDE INTELECTUAL É TAMBÉM UM ANTI COMUNISTA, ANTI-LULISTA E ANTI SINDICALISTA. FORTUNA AO GULLAR.
[...] This post was mentioned on Twitter by Jean Marcel, Ike Knuth. Ike Knuth said: #IkeNews Ferreira Gullar – 80 anos de poesia, política e arte | Mona Dorf: http://goo.gl/SuGe [...]
Ano retrasado Gullar esteve em minha cidade, para uma palestra em uma feira literária. Como trabalho em uma cidade distante 80km, não cheguei a tempo de ver o grande poeta de perto. Quando cheguei ao local da palestra, ele já havia saído.
Desolado, quando saí do local da palestra, quem eu vejo sentado em uma churrascaria próxima? Ele mesmo!
Não tive coragem de me aproximar, nem de atrapalhar Ferreira Gullar…
PORQUE ANTILULISTA, EXPLIQUE?
Li “Toda Poesia”. Li Castro Alves (todo) e lí alguma coisa de Neruda, de Drummond e dos modernistas em geral. Recentemente dei um “tapa” em Bilac. Gullar é maravilhoso, espetacular, um patrimônio do porte de Saramago. Eu o considero na poesia, da grandesa de Picaso na pintura e explico o porquê. Picaso criou e saiu de estilos, Gullar idém. Hoje é “antipatizante” do PT, mas acreditem, não é pelos motivos que o PSDB gostaria… Gullar tem uma relação visceral com o povo e o popular, não é tucano, com certeza…
É por falta de algo melhor.
A poesia, como toda obra artística, está aberta a inumeráveis interpretações. Vejo, em Gullar, uma sensibilidade inigualável, no que diz respeito à precária condição social da maioria do brasileiros. Acredito que isso nos faz refletir sobre a vida que temos e o que podemos fazer para que ela se torne menos hostil a nós e ao próximo.
um velho poeta que não envelhece
oi, mona.
te mando outro video-poema.
http://www.youtube.com/watch?v=jR3MBDqDh5w
espero q goste
abbracci,
paulo de toledo
OI, Paulo! Obrigada por mais essa contribuição. Assim, que publicarmos na seção “Você por Aqui”avisaremos. Quem quiser participar, é só enviar email com seu material para o email vcporaqui@ig.com.br.
Valeu, Mona!
Abração,
Paulo
[...] e crítico de arte, Ferreira Gullar vive um grande momento, além do aniversário, 80 anos de vida e poesia, acaba de lançar Em Alguma Parte Alguma, seu novo livro de poemas, pela José Olympio, após uma [...]
[...] “O poeta é um fingidor”, não porque mente, mas sim porque cria e constantemente se reinventa. A alma do artista que nos encanta com sua ficção, é também um convite à nossa própria recriação. Faça todo dia da sua vida ser uma obra de arte e descubra a magia e a beleza que estão por trás das coisas. A experiência de visitar a exposição no Museu da Língua é um bom começo! Lembrando que “A arte existe porque a vida não basta!” como costuma dizer Ferreira Gullar. [...]
Mona Dorf, considerando a frase de Gullar ” …quando algo me toco o joelho”, isto a propósito da inquietação como alimento de inspiração do poeta. As pessoas reagem a esse “transtorno” de forma diversa; Assim aquelas dadas mais as atividades físicas onde ausente de sensibilidade têm reações brutais à coisa que as incomodam para com isso retornar ao estado de tranquilidade, é pois, um embate frequente; Por outro lado, a pessoa que buscou mais o esforço intelectual face a INQUITAÇÃO questiona, interroga e investiga exaurindo possibilidades daí – a Poesia, Filosofia, Literatura etc. Essa é a inspiração de Ferreira Gullar.
Bacana a entrevista! Mona, vc poderia nos ajudar a entrar em contato com o Ferreira Gullar? Gostaríamos muitíssimo que ele viesse conversar com nossos alunos.da Graded School, em São Paulo. Agradeço se puder entrar em contato. Um abraço, Cecília
Oi Cecilia,
Talvez o mais fácil seja vc entrar em contato com a assessoria de imprensa da Record que publica seus livros. Esse é o caminho pelo qual eu fui.
Sucesso!