Dzi Croquettes, por Daniel Barbosa
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Vídeos e texto enviados pelo jornalista Daniel Barbosa:
Quando o assunto é ditadura militar, a classe artística brasileira sempre lamentou – e com razão – as mazelas do período negro, mas dificilmente lembrou de capítulos debochados e escrachados, brilhantes e coloridos que marcaram a história da nossa arte. No limbo de uma era de trevas ficaram as peripécias performáticas de Dzi Croquettes, grupo de teatro carioca que revolucionou os palcos do Brasil e da Europa com muita irreverência nos anos 70 e início da década de 80. Quase 30 anos depois das últimas apresentações, a trupe ganhou as telas de cinema com o documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez.
Além de resgatar engenhosa manifestação cultural, os diretores apresentaram o grupo de 13 bailarinos e atores à nova geração, que, além de admirar a originalidade do Dzi, repete a intrigante pergunta: como eles conseguiram driblar a ditadura militar? E driblaram mesmo. Tanto que o drible é sustentado pela abertura do filme, que inicia com flashes do cenário político de 64 e o AI-5 de 1968, que boicotou aproximadamente 450 peças de teatro, 500 obras cinematográficas e 1000 letras de músicas. E o Dzi? Enquanto isso, o Dzi desfilava sua androginia em corpos torneados, peludos e purpurinados, sob luzes e refletores, envoltos em boás e mínimos trajes femininos, montados em saltos altos, coloridos por maquiagem pesadíssima, e com vozes afeminadas cantavam: “eu não tenho culpa de ser chique assim”.
Chiques? Para a censura, não. Mas quem era a tal censura? Eles não a conheciam. No inicio – e por um bom período – talvez os censores tivessem a mesma visão da menina Tatiana. Eram “palhacinhos”. Ou, numa conceituação mais predominante, o “Dzi” era um “bando de viado”. E o bando arrebatou hordas de tietes. Todos queriam ver Dzi Croquettes, todos queriam ser Dzi Croquettes. Dzi Croquettes virou estado de espírito e distinguiu momentos da contracultura e do desbunde brasileiro. Então o sistema entendeu que a seminudez dos corpos apocalípticos ia além do cômico, do farsesco e do grotesco. Com a “força do macho e a graça da fêmea” – slogan da trupe –, afrontavam as privações da época, tentavam explicar que “a vida é um cabaré”, como diz o “pai” da família Dzi Croquettes, o bailarino Lennie Dale, em trecho do filme. E o exílio levou-os a fazer o cabaré em Paris, onde conquistaram cartazes do show business, como as atrizes Lisa Minelli e a belle de jour, Catherine Deneuve, a cantora e atriz Josephine Baker, o estilista Valentino e, sobretudo, os palcos franceses. Provaram que eram “das internacionais”.
No filme, a trajetória da “família” Dzi Croquettes é narrada pela mescla de histórias de vida: as memórias da diretora – filha de Américo Issa, que trabalhou na equipe técnica do Dzi; por relatos biográficos – de artistas que acompanharam e tiveram o grupo como inspiração; e por depoimentos autobiográficos – dos últimos componentes Ciro Barcelos, Benedicto Lacerda, Cláudio Tovar, Bayard Tonelli e Reginaldo de Poly – já “viraram purpurina”, como diz a narrativa de Issa: Wagner Ribeiro, Cláudio Gaya, Roberto de Rodriguez, Paulo Bacellar (Paolette), Carlinhos Machado, Rogério de Poly, Eloy Simões e Lennie Dale.
A vida de Dale daria um filme à parte. Experiente nos palcos da Broadway, o bailarino deu maturidade artística ao grupo, renovou a dança no Brasil e revolucionou a música verde-amarela. Muito criativo e com mãos de ferro, o americano levava os parceiros a encenações magistrais que misturavam o teatro de vivências – o improviso atrelado às experiências do atores – ao musical. Fosse com a lancinante “Assim falou Zaratustra” (Strauss), ou com a animada “Tinindo trincando” (Novos Baianos) ou ainda com a sensualíssima “Dois pra lá, dois pra cá”, na voz de Elis Regina, o espetáculo não saia da linha do atrevimento.
O filme apresenta uma série de curiosidades. O Dzi Croquettes criou e também popularizou muitas expressões e termos usados pelo público gay, principalmente. “Tá boa, santa?”, “arrasa”, “adoro”, “rosetar”, “se jogar”, “rodar a baiana”, a palavra “amor” com o erre arranhado e arrastado – apesar dessa característica, o mote principal do Dzi não era fazer proselitismo a um grupo específico. A identidade sexual do grupo era definida com a frase: “Nem homem. Nem mulher. Gente”. Ou seja: “nem dama nem valete”, e sim dzi croquette. Mais que avaliações rotuladas, a trajetória dos 13 homens ensandecidos é vital à cultura brasileira, pois foram eles quem acenderam novas luzes no nosso teatro, cultivaram e moldaram outra forma de ser brasileiro e deram mais suavidade a uma época de ingratidão. O filme está aí pra contar a imprescindível história do Dzi Croquettes.
Autor: Mona Dorf - Categoria(s): Você por Aqui Tags: Bayard Tonelli, Benedicto Lacerda, Carlinhos Machado, Catherine Deneuve, Ciro Barcelos, Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Dzi Croquettes, Elis Regina, Eloy Simões, Josephine Baker, Lennie Dale, Lisa Minelli, Novos Baianos, Paulo Bacellar (Paolette), Raphael Alvarez, Reginaldo de Poly, Roberto de Rodriguez, Rogério de Poly, Tatiana Issa, Valentino, Wagner Ribeiro
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Nem dama, nem valete. É um texto de rei. Obrigado Daniel. Fiquei muito empolgado com Dzi Croquettes.
Daniel,
Obrigada pelo lindo texto! Fiquei muito feliz e orgulhosa com a tua percepção qto ao filme…
É lendo um belo texto como esse que vemos o quanto a luta de ter feito o filme valeu a pena!!!
Obrigada pelo espaço, pela divulgação e pelo carinho com nosso filme e com nossos “Dzi Croquettes”
Grande beijo,
Tatiana Issa.
“Sem querer ser crítico, quem sou eu…”! A modéstia do texto do e-mail contrasta com a profundade de análise deste arrojado e pertinente crítico de arte. Quer queiras quer não ao optares pela ingrata mais honrosa profissão que consome o seu tempo e a sua alma com a “pena” presa entre os calejados dedos que desfilam vadia, porém produtivamente sobre o teclado do computador, traçastes o seu destino, inevitavelmente, para o docemente doentio mundo dos críticos; e daqueles críticos que advogam para o diabo! O prazer inefável de ler-te, isso mesmo: ler-te! na totalidade do seu ser que encarna no texto como expressão da sua alma completamente nua arrebata-nos para o olimpo da cultura em busca da revitalização nesses tempos da mais pura morte cultural! Obrigado por você existir! Mas para não perder o mania de inventar um defeito: a ditadura não foi um período “negro”. Foi tenebroso mesmo! Pois se negro fora teria sido muito bom!
Abração Dan’s! Desculpa a brincadeira.
Muito feliz e grato com os comentários – e com a oportunidade de publicar o texto!
Jonas e Matias, grande abraço!
Tatiana, o filme é lindo de verdade! Parabéns! Uma prova de que ainda temos memórias! Abraços!
maravilhosos que felicidade que tenhao resgatado isto .
Texto primoroso! Produza mais, muito bom encontrar e ler artigo como este.