Dzi Croquettes, por Daniel Barbosa | Mona Dorf
terça-feira, 17 de agosto de 2010 Você por Aqui | 08:00

Dzi Croquettes, por Daniel Barbosa

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Vídeos e  texto enviados pelo jornalista Daniel Barbosa:

Quando o assunto é ditadura militar, a classe artística brasileira sempre lamentou – e com razão – as mazelas do período negro, mas dificilmente lembrou de capítulos debochados e escrachados, brilhantes e coloridos que marcaram a história da nossa arte. No limbo de uma era de trevas ficaram as peripécias performáticas de Dzi Croquettes, grupo de teatro carioca que revolucionou os palcos do Brasil e da Europa com muita irreverência nos anos 70 e início da década de 80. Quase 30 anos depois das últimas apresentações, a trupe ganhou as telas de cinema com o documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez.
 

Além de resgatar engenhosa manifestação cultural, os diretores apresentaram o grupo de 13 bailarinos e atores à nova geração, que, além de admirar a originalidade do Dzi, repete a intrigante pergunta: como eles conseguiram driblar a ditadura militar? E driblaram mesmo. Tanto que o drible é sustentado pela abertura do filme, que inicia com flashes do cenário político de 64 e o AI-5 de 1968, que boicotou aproximadamente 450 peças de teatro, 500 obras cinematográficas e 1000 letras de músicas. E o Dzi? Enquanto isso, o Dzi desfilava sua androginia em corpos torneados, peludos e purpurinados, sob luzes e refletores, envoltos em boás e mínimos trajes femininos, montados em saltos altos, coloridos por maquiagem pesadíssima, e com vozes afeminadas cantavam: “eu não tenho culpa de ser chique assim”.
 
Chiques? Para a censura, não. Mas quem era a tal censura? Eles não a conheciam. No inicio – e por um bom período – talvez os censores tivessem a mesma visão da menina Tatiana. Eram “palhacinhos”. Ou, numa conceituação mais predominante, o “Dzi” era um “bando de viado”. E o bando arrebatou hordas de tietes. Todos queriam ver Dzi Croquettes, todos queriam ser Dzi Croquettes. Dzi Croquettes virou estado de espírito e distinguiu momentos da contracultura e do desbunde brasileiro. Então o sistema entendeu que a seminudez dos corpos apocalípticos ia além do cômico, do farsesco e do grotesco. Com a “força do macho e a graça da fêmea” – slogan da trupe –, afrontavam as privações da época, tentavam explicar que “a vida é um cabaré”, como diz o “pai” da família Dzi Croquettes, o bailarino Lennie Dale, em trecho do filme. E o exílio levou-os a fazer o cabaré em Paris, onde conquistaram cartazes do show business, como as atrizes Lisa Minelli e a belle de jour, Catherine Deneuve, a cantora e atriz Josephine Baker, o estilista Valentino e, sobretudo, os palcos franceses. Provaram que eram “das internacionais”.
 
No filme, a trajetória da “família” Dzi Croquettes é narrada pela mescla de histórias de vida: as memórias da diretora – filha de Américo Issa, que trabalhou na equipe técnica do Dzi; por relatos biográficos – de artistas que acompanharam e tiveram o grupo como inspiração; e por depoimentos autobiográficos – dos últimos componentes Ciro Barcelos, Benedicto Lacerda, Cláudio Tovar, Bayard Tonelli e Reginaldo de Poly – já “viraram purpurina”, como diz a  narrativa de Issa: Wagner Ribeiro, Cláudio Gaya, Roberto de Rodriguez, Paulo Bacellar (Paolette), Carlinhos Machado, Rogério de Poly, Eloy Simões e Lennie Dale.
 
A vida de Dale daria um filme à parte. Experiente nos palcos da Broadway, o bailarino deu maturidade artística ao grupo, renovou a dança no Brasil e revolucionou a música verde-amarela. Muito criativo e com mãos de ferro, o americano levava os parceiros a encenações magistrais que misturavam o teatro de vivências – o improviso atrelado às experiências do atores – ao musical. Fosse com a lancinante “Assim falou Zaratustra” (Strauss), ou com a animada “Tinindo trincando” (Novos Baianos) ou ainda com a sensualíssima “Dois pra lá, dois pra cá”, na voz de Elis Regina, o espetáculo não saia da linha do atrevimento.
 

O filme apresenta uma série de curiosidades. O Dzi Croquettes criou e também popularizou muitas expressões e termos usados pelo público gay, principalmente. “Tá boa, santa?”, “arrasa”, “adoro”, “rosetar”, “se jogar”, “rodar a baiana”, a palavra “amor” com o erre arranhado e arrastado – apesar dessa característica, o mote principal do Dzi não era fazer proselitismo a um grupo específico. A identidade sexual do grupo era definida com a frase: “Nem homem. Nem mulher. Gente”. Ou seja: “nem dama nem valete”, e sim dzi croquette. Mais que avaliações  rotuladas, a trajetória dos 13 homens ensandecidos é vital à cultura brasileira, pois foram eles quem acenderam novas luzes no nosso teatro, cultivaram e moldaram outra forma de ser brasileiro e deram mais suavidade a uma época de ingratidão. O filme está aí pra contar a imprescindível história do Dzi Croquettes.

Autor: Mona Dorf - Categoria(s): Você por Aqui Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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7 comentários para “Dzi Croquettes, por Daniel Barbosa”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Samantha Shiraishi, giselle zamboni. giselle zamboni said: Acompanhem na Coluna da @MonaDorf as letras de @DanielBarbosa_ comentando o filme DZI CROQUETTES, bárbaro! Corram lá! http://bit.ly/9UuApX [...]

  2. Jonas Tavares de Souza disse:

    Nem dama, nem valete. É um texto de rei. Obrigado Daniel. Fiquei muito empolgado com Dzi Croquettes.

  3. Tatiana Issa disse:

    Daniel,
    Obrigada pelo lindo texto! Fiquei muito feliz e orgulhosa com a tua percepção qto ao filme…
    É lendo um belo texto como esse que vemos o quanto a luta de ter feito o filme valeu a pena!!!
    Obrigada pelo espaço, pela divulgação e pelo carinho com nosso filme e com nossos “Dzi Croquettes”
    Grande beijo,
    Tatiana Issa.

  4. Filomeno Matias disse:

    “Sem querer ser crítico, quem sou eu…”! A modéstia do texto do e-mail contrasta com a profundade de análise deste arrojado e pertinente crítico de arte. Quer queiras quer não ao optares pela ingrata mais honrosa profissão que consome o seu tempo e a sua alma com a “pena” presa entre os calejados dedos que desfilam vadia, porém produtivamente sobre o teclado do computador, traçastes o seu destino, inevitavelmente, para o docemente doentio mundo dos críticos; e daqueles críticos que advogam para o diabo! O prazer inefável de ler-te, isso mesmo: ler-te! na totalidade do seu ser que encarna no texto como expressão da sua alma completamente nua arrebata-nos para o olimpo da cultura em busca da revitalização nesses tempos da mais pura morte cultural! Obrigado por você existir! Mas para não perder o mania de inventar um defeito: a ditadura não foi um período “negro”. Foi tenebroso mesmo! Pois se negro fora teria sido muito bom!

    Abração Dan’s! Desculpa a brincadeira.

  5. Muito feliz e grato com os comentários – e com a oportunidade de publicar o texto!

    Jonas e Matias, grande abraço!

    Tatiana, o filme é lindo de verdade! Parabéns! Uma prova de que ainda temos memórias! Abraços!

  6. paulo dingler disse:

    maravilhosos que felicidade que tenhao resgatado isto .

  7. Caio disse:

    Texto primoroso! Produza mais, muito bom encontrar e ler artigo como este.

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