14/09/2009 - 11:09
O show do Beirut em São Paulo, na última sexta-feira, já foi bastante comentado, mas um aspecto da ótima apresentação da turma de Zach Condon no Via Funchal me chamou negativamente a atenção: o comportamento “nacionalista” do público.
O Beirut se destacou no cenário musical por duas fortes características: a opção por uma base sonora “démodé”, centrada em trombone, trompete e contrabaixo, e um mix de influências regionais variadas, dos Bálcãs ao México, passando pela canção francesa, entre outros.
Desde o ano passado, Condon tem incluído no repertório de algumas apresentações a canção “Leãozinho”, de Caetano Veloso. O You Tube está repleto de vídeos que expõem o jeito desengonçado, mas simpático do líder do Beirut em seu duelo com versos como “Gosto muito de você, leãozinho… Para desentristecer, leãozinho”.
Assim que o Beirut pisou no palco do Via Funchal começaram o gritos de “Leãozinho”. De forma insistente, no intervalo entre as músicas, fãs do grupo pediam para Condon cantar a música de Caetano Veloso. E nada do músico atender o pedido. A certa altura, tropeçando no português, ele disse que não se lembrava mais da letra, o que não diminuiu o ímpeto do público. “Leãozinho!” “Leãozinho!”
De tanto ouvir a platéia no show de Salvador gritar “toca Raul!”, em homenagem a Raul Seixas, Condon passou a repetir a piada e, mais de uma vez, falou em São Paulo: “Toca Raul!”
Alguém da platéia ofereceu uma bandeira do Brasil a Condon, que educadamente a enrolou em torno do pescoço – e com ela ficou até o final, não sem antes brincar com as palavras “ordem e progresso”. No final do show, o Beirut tocou, sem muito entusiasmo, uma versão em inglês de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, para delírio do público.
Não canso de me espantar com esse comportamento. Por que alguém vai a um show de um artista estrangeiro e passa 60 minutos pedindo para ele cantar “Leãozinho”? Por que o público fica tão feliz de ver o músico repetir algumas palavras que decorou em português? Qual é a graça de ver um estrangeiro “abraçar” a bandeira do Brasil?
Crédito da foto: Stephan Solon/Via Funchal
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Brasil, Cultura
Tags: Aquarela do Brasil, Beirut, Brasil, Caetano Veloso, Leãozinho, Via Funchal, Zach Condon
19/07/2009 - 13:08
Sapato branco, jeans escuro, camisa para fora da calça, uma gravatinha preta, rabo de cavalo e luvas sem os dedos, Cat Power canta com os ombros curvados, olhando ora para o chão, ora para os músicos e, eventualmente, para um ponto vazio, na lateral do palco.
Nome artístico de Chan Marshall, Cat Power tem 37 anos, mas aparenta, à distância, a metade. De tempos em tempos, agacha-se e bebe um gole de uma caneca, tudo indica, de chá. Uma vela sobre o teclado de Gregg Foremann e um incenso, em cima da aparelhagem de som, ajudam a compor o ambiente.
Sua voz, rouca, mas potente, também ajuda na idéia de que há algo de adolescente nisso tudo – impressão que será reforçada ao final das quase duas horas de espetáculo, quando a então tímida e contida dá lugar a uma desinibida e feliz Cat Power. Ela aproxima-se do público – meninas, em sua maioria – e distribui flores e cópias do set-list do show que está terminando. Agacha-se, toca a mão das fãs, assina alguns autógrafos, sorri e agradece o carinho – como faria qualquer cantor popular.
Não conheço o suficiente para desfiar todo o repertório do show, mas reconheci inúmeras canções de seu mais recente CD, “Jukebox”, de 2008, no qual corajosamente reinterpreta músicas de Billy Holliday (“Don´t Explain”), Joni Mitchell (“Blue”) e Bob Dylan (“I Believe in You”), para não falar de “New York”, imortalizada por Frank Sinatra. Também canta uma das minhas favoritas, sua homenagem a Dylan, “Song to Bobby”, e duas ou três músicas de seu disco anterior, “The Greatest”, entre as quais a canção-título.
Para quem não conhece Cat Power, mas gosta de cinema, duas músicas suas, entre as quais “The Greastest”, estão na trilha sonora de “Um Beijo Roubado” (“My Blueberry Nights”), do chinês Wong Kar Wai, exibido no ano passado no Brasil. Cat Power aparece brevemente no filme, no papel da mulher que deu um pé na bunda do galã Jude Law.
O seu show em São Paulo, que será repetido neste domingo no Rio, ficaria melhor num ambiente menor, mais acolhedor (e menos extorsivo) que o Via Funchal. Em todo caso, é um espetáculo bonito, até emocionante, mas, tenho a impressão, sobrevalorizado. Sua voz é bonita, mas não única. E sua “atitude”, que o público “indie” tanto admira, às vezes parece seguir um roteiro pré-estabelecido.
Em tempo: no iG Música, em Cat Power emociona o público em São Paulo, você encontra mais detalhes sobre o show e uma descrição mais rica do repertório apresentado.
Crédito da foto: Agência Estado
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura
Tags: Cat Power, Jukebox, Rio, São Paulo, The Greatest, Um Beijo Roubado, Via Funchal