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31/10/2009 - 13:47

Os temas universais do paulistano Ugo Giorgetti

Mostra SeloParticipei há alguns meses da gravação de um programa de televisão, “Sala de Cinema”, cujo entrevistado era o cineasta Ugo Giorgetti. Exibido no SescTV, o programa é uma espécie de talk-show, comandado por Miguel de Almeida, com a participação de alguns convidados, que fazem perguntas para o entrevistado.

ugo giiorgettiAo longo da entrevista, Almeida fez várias perguntas a Giorgetti relacionadas ao universo paulista de seus filmes – “Jogo Duro”, “A Festa”, “Sábado”, “O Príncipe” e mesmo os dois “Boleiros”. Esta é uma questão recorrente e, mais uma vez, tive a oportunidade de ver como incomoda a Giorgetti ser rotulado como “cineasta paulista”.

Apesar de ambientados sempre em São Paulo, e a cidade ser um elemento central em seus filmes, Giorgetti entende, com toda a razão, que vê-lo como “cineasta paulista” limita, e muito, o alcance de sua obra.

Giorgetti sempre argumenta que São Paulo está presente em seus filmes porque é nesta cidade que nasceu, foi criado e vive, mas os temas de seu cinema são universais. A exibição de “Solo” e “Paredes Nuas”, seus filmes mais recentes, confirma isso, mais uma vez.

Como explicou em entrevista ao Último Segundo (Ugo Giorgetti filma os dilemas da sociedade do prazer), “Paredes Nuas” trata de um fenômeno relativamente recente, as irresistíveis seduções oferecidas pelo mercado de consumo, e “Solo” encara um tema mais que universal, a solidão de um idoso numa grande metrópole.

SoloAmbos os filmes se passam em São Paulo. Em “Solo”, o emocionante monólogo interpretado por Antonio Abujamra, a cidade aparece especialmente, nas lembranças do personagem, na transformação dos bairros em que ele viveu e na sua incapacidade de se adaptar aos tempos modernos. Isso faz de “Solo” um filme paulista? Lógico que não. A cidade é apenas a aldeia de Giorgetti a serviço de uma narrativa capaz de comover qualquer pessoa, em qualquer lugar.

“Solo” tem sessões no sábado (31), às 19h10; no Unibanco Arteplex, na segunda-feira (2/11), às 13hs, no Unibanco Arteplex; e na terça, às 18h20, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações sobre o filme no site da Mostra.

“Paredes Nuas” tem ainda apenas uma sessão, neste sábado (31), às 17h20, no Unibanco Aretplex. Mais informações, aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , ,
10/05/2009 - 12:14

O garçom, o ator, o diretor de “Boleiros” e o “Lance!”

Aproveito o domingo para responder aos leitores que cobraram notícias sobre meu livro, “História do Lance!”, lançado quarta-feira passada, dia 6, no bar Canto Madalena, em São Paulo.

Foi uma noitada muito legal, com a presença de muitos amigos e colegas, ao longo da qual autografei 70 livros. Um dos pontos altos da festa ocorreu quase ao final, quando o garçom Aguinaldo, que passara a noite servindo chope para a turma, aproximou-se de mim com um livro na mão e pediu um autógrafo. Disse que era leitor do “Lance!” e iria ler o livro.

A primeira pessoa a chegar em busca do livro, mal o bar abriu, às 19hs, era um rosto familiar, mas cujo nome eu não lembrava. Fiquei um pouco sem graça, mas acabei perguntando: “De onde eu te conheço?” André Bicudo, ele se apresentou. “Sou ator, trabalhei nos dois ‘Boleiros’, e também sou técnico de futebol”.

“Boleiros”, de Ugo Giorgetti, para quem não sabe, é um dos melhores filmes já feitos sobre o universo do futebol brasileiro. Em torno de uma mesa de bar, um grupo de ex-jogadores relembra histórias e causos saborosos, sobre o juiz ladrão, o técnico moralista, o craque com medo, enfim, uma galeria de tipos fantásticos do universo da bola.

Lançado em 1998, com muito sucesso, “Boleiros” mereceu uma sequência em 2006, na qual Giorgetti apresenta novos personagens, como o craque que faz sucesso no exterior, mas tem um irmão envolvido com problemas pesados no Brasil, e a Maria Chuteira, especializada em namorar jogadores de futebol.

Figura simpaticíssima, André Bicudo havia lido algo sobre o lançamento e foi ao bar. Sentou-se com os meus amigos e ficou lá por um tempo. Quando o ambiente começou a se encher de gente, ele se foi. Ao final da festa, me dei conta que acabei conversando pouco com André. Queria ouvi-lo sobre o seu papel em “Boleiros”, no qual ele interpreta Caco, um craque do Corinthians que está com medo de jogar e é salvo por um pai-de-santo (vivido por Andre Abujamra).

Pois eis que o círculo se fecha neste domingo. Em sua coluna no caderno de Esportes do “Estadão”, o cineasta Ugo Giorgetti, diretor de “Boleiros”, escreveu um texto que me deixou sem palavras sobre “História do Lance!”. A coluna, infelizmente, não está aberta no site do jornal, motivo pelo qual reproduzo apenas um trecho aqui:

“O Lance! está lá, é claro. Mas, para chegar até ele, Stycer sentiu que era necessário estudar e examinar tudo que o precedeu, porque nenhuma publicação surge solitária, desligada do mundo anterior, ao contrário, ela é sempre fruto e conseqüência. Para falar do Lance! é preciso falar da A Gazeta Esportiva e do Jornal dos Sports. Para falar dessas duas publicações esportivas é preciso falar da imprensa em geral e, para falar da imprensa, é preciso falar do Brasil. É isso que foi feito em História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo, que acaba de ser lançado. Quem ler esse livro vai inevitavelmente se encontrar com o País, pois o que acontece no futebol acontece na sociedade. E a maneira como, no decorrer do tempo, a imprensa interpreta o fenômeno do futebol é reveladora de como ela se coloca diante do resto da realidade brasileira”.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, Esporte Tags: , , ,
02/11/2008 - 12:50

Ugo Giorgetti desafia o lugar-comum sobre Maradona

O bom senso recomenda entender a escolha do novo técnico da seleção argentina como um gesto de lunáticos desesperados, fadado ao fracasso e ao ridículo. O currículo e o histórico de Maradona justificam as análises, quase consensuais, que reprovam e mesmo ridicularizam a opção dos cartolas argentinos.

O cineasta Ugo Giorgetti, porém, não escreve sobre futebol para repetir lugares comuns.  Sempre aos domingos, no “Estadão”, publica as suas sábias reflexões, às vezes temperadas de nostalgia, sobre um universo que conhece muito bem – como se pode ver nos seus dois filmes sobre o assunto (“Boleiros”). Giorgetti não joga para a torcida, nem parece preocupado em agradar ou desagradar gregos ou troianos.

A sua reflexão sobre Maradona, neste domingo, é exemplar. Reproduzo abaixo um trecho do artigo:

Essa afronta à sensatez me agrada muitíssimo, até para contrariar noções preconcebidas sobre os argentinos. Ao contrário do que se diz, eles estão sempre abertos à emoção, ao inexplicável, cheios de sentimentos contraditórios, muito distantes do mundo das estatísticas e dos estudos dos administradores de empresas do futebol. Freqüentemente a Argentina vem ao encontro de seu povo. E, se o povo reprova em massa a indicação de Maradona, é porque o tomam por um deles, e não se vêm a si mesmos como técnicos da seleção. Não para ganhar títulos. Não é com loucos e desajustados que se ganham as copas. No fundo, porém, devem estar orgulhosos. Ousaram colocar seu ídolo maior de novo em campo, e esperam, como tantas vezes esperaram na história argentina, que o passado glorioso ressurja. Por que não? Por que confiar só nos fatos e na feroz realidade dos números?

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , ,
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