25 anos de uma turma verdadeiramente iluminista
Uma turma de colegas se reuniu neste sábado, no Rio, para festejar 25 anos de formados na Faculdade de Economia e Administração (FEA) da UFRJ. Isso é assunto deste blog porque, não por acaso, trata-se da minha turma. Foi uma festa muito simpática, que juntou quase três dezenas de economistas, muitos deles, como eu, que não se viam há muuuitos anos.
Entramos na faculdade num período especial. O país vivia o afrouxamento da ditadura, a UNE e os DCEs voltavam a funcionar de forma legalizada e a faculdade contava com a energia de um grande time de professores – Maria da Conceição Tavares e Carlos Lessa à frente – engajados num projeto educacional de alto nível.
Ao longo da nossa reunião de 25 anos, fui me dando conta da influência desse conjunto de fatores sobre a turma formada em 1983 – uma rara e elogiável vocação para o serviço público, no melhor sentido que essa expressão pode ter. Havia ali, entre nós, vários economistas que trabalham em instituições como BNDES, Eletrobrás, FMI, Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Dieese, ANP (Agência Nacional do Petróleo), Petrobras, governo do Espírito Santo, além de professores da UERJ e UFRJ.
Mas não vou me alongar na descrição deste encontro. Publico abaixo, com a sua autorização, o relato de um de meus colegas, o economista Paulo Faveret, enviado na tarde desta segunda-feira a todos os que participaram da reunião:
Muito obrigado por palavras e gestos tão bonitos e generosos! A tarde foi muitíssimo agradável. Cumpriu exatamente o papel de dar espaço para as pessoas se reencontrarem, trocarem idéias, atualizarem as informações e, com sorte, até fofocarem um pouco.
O tempo da faculdade é sempre muito especial para todos. Fico com a ligeira impressão, e pode ser pretensão, mas há de ser pretensão modesta e gostosa, que esse tempo foi ainda mais especial para nós. Como em muitos outros casos, ali se forjaram amizades para toda a vida, amores, até casamentos, contatos profissionais cujo valor só cresce com os anos – bons frutos que evidenciam a solidez e a fertilidade da árvore de onde provêem.
O que torna nossa turma especial não é tampouco seu excepcional desempenho acadêmico e profissional. Se não foi a melhor, certamente está entre as melhores da FEA em todos os tempos, e, por que não dizer?, até mesmo do Brasil. O sucesso de vários integrantes não se mede apenas por dinheiro, posição, status, mas pelo respeito que merecem entre pares e não-economistas.
A verdadeira excepcionalidade de nossa turma parece residir sobretudo numa admirável conjugação de rigor acadêmico, paixão pelo conhecimento e dedicação ao interesse público. Uma turma verdadeiramente iluminista. Como alguém mencionou durante o almoço, raras vezes tantos de uma só turma seguiram dedicados a temas públicos, seja como parte de suas atividades acadêmicas, seja como integrantes de organizações com esse fim. Esse traço, se não é uma verdade estatisticamente comprovável, é sensível nas atitudes de todos, nas preocupações com o semelhante, no profundo respeito à divergência, na aceitação do debate como instrumento de aprimoramento das decisões coletivas e individuais.
Ao longo de minha vida pessoal e profissional, não têm sido poucas as oportunidades para exercer esses ensinamentos, tão enraizados em minha vivência graças aos anos intensos da faculdade. Embora o movimento estudantil já não fosse tão romântico e perigoso como o de alguns anos antes, o clima na FEA era excepcional. A qualidade das controvérsias, a forma franca e honesta como se fazia, tudo isso estava acima da média. E nada comprometia a amizade dos opostos, que sempre tomavam cerveja ao final de embates que pareciam raivosos, mas que, sabíamos todos, eram de idéias, não de pessoas.
Aqueles anos incutiram em muitos de nós um tipo raro de idealismo: sonhador, como deve ser, porém bem-informado, calçado em muito conhecimento, e sempre inspirado pelos exemplos práticos de mestres e colegas, com destaque para nossos convidados de honra. Predica e pratica. O terreno era fértil e a semente, boa. Por isso, é com felicidade que constato que a turma não sucumbiu nem ao ceticismo tão comum aos entrados em décadas, nem ao cinismo deslavado que campeia em nossos trópicos. Vinte e cinco anos depois, sinto que ainda guardamos aquela chama de colaborar com a construção de um mundo melhor. O couro é mais grosso do que antes, tomamos mais cuidados do que aos vinte anos, mas ainda há brilho no olhar.
Que Deus nos anime sempre a transmitir esse espírito para nossos filhos, familiares, amigos, alunos e colegas. Assim estaremos devolvendo ao menos parte do que recebemos durante aqueles anos iluminados.
Abraços e beijos a todos,
Paulo



