31/08/2009 - 11:15
Cheguei ao Morumbi por volta das 15h de domingo. Às 15h30, me sentei na arquibancada, atrás de um dos gols, no setor onde ficam as torcidas organizadas Independente e Dragões da Real. Meu objetivo era observar como os torcedores mais fanáticos do São Paulo reagiriam à presença de Muricy Ramalho, o técnico que levou o clube a conquistar as três últimas edições do Brasileiro, no banco do arquirrival Palmeiras.
Alguns dias antes da partida, o meia Hermanes, um fã declarado de Muricy, havia orientado a torcida: “Se eu fosse torcedor, deixaria o que já passou. Agora, é nova história. O Muricy foi treinador aqui, mas não é mais. Nossa torcida tem que receber o Ricardo Gomes e os jogadores do São Paulo”, afirmou.
Fiquei no meu lugar até as 16h50. Ao longo de todo esse período não ouvi nenhuma menção a Muricy. Nem vaias nem aplausos. Escrevi no iG Esporte:
Na arquibancada, as principais torcidas organizadas do São Paulo optaram por receber em silêncio o técnico do Palmeiras. Nem a Independente nem a Dragões da Real se manifestaram em relação ao comandante da equipe que venceu os últimos três Brasileiros.
Como de hábito, antes do início da partida, as organizadas gritaram os nomes de todos os jogadores do São Paulo – com exceção de Richarlyson – e até do técnico Ricardo Gomes (um mirrado grito de “Ricardo! Ricardo! Ricardo!”).
No segundo tempo, me transferi para o lado oposto da arquibancada, onde ficam torcedores sem vínculo com as organizadas. Também ali, não ouvi nenhuma referência a Muricy, nem contra nem a favor. Deixei o setor aos 30 minutos do segundo tempo e assisti o final da partida no setor reservado à imprensa.
Mas um estádio de futebol é um lugar muito grande. E um repórter não dá conta de ouvir tudo que se passa ali. Com 41 mil espectadores pagantes neste domingo, o Morumbi também acolheu gente que gritou o nome de Muricy e gente que vaiou o técnico do Palmeiras.
Não sei onde essas manifestações ocorreram, mas registro abaixo o que os jornais observaram a respeito do assunto nesta segunda-feira:
Folha de S.Paulo: “O técnico palmeirense foi recebido com vaias por parte da torcida, quando seu nome foi anunciado no placar eletrônico”.
O Estado de S.Paulo: “Os torcedores são-paulinos se dividiram nas arquibancadas. Enquanto alguns vaiaram na hora em que o nome do treinador foi anunciado, a maioria gritou ‘É Muricy’ logo depois”
O Globo: “Vaiado por uma parte da torcida são-paulina, aplaudido por outra”.
Agora: “Timidamente, parte da torcida são-paulina o homenageou com o coro de ‘é, Muricy’. Houve vaias também quando a torcida palmeirense gritou o seu nome.”
Jornal da Tarde: “Parte da torcida tricolor o vaiou timidamente, mas também houve alguns aplausos.”
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte, jornalismo
Tags: Dragões da Real, Independente, Morumbi, Muricy, Palmeiras, São Paulo, torcida, vaias
25/03/2009 - 11:05
Dia seguinte de paredão é sempre parecido. Dentro da casa, aquela ressaca. Aqui fora, os torcedores saem da toca para manifestar as suas preferências, comemorar e reclamar. Já estou me acostumando.
Na caixa de e-mails, às quartas-feiras, começam a pipocar mensagens de leitores que acompanham o programa pelo “pay per view”, 24 horas por dia, com “denúncias” variadas sobre o que os personagens fazem dentro da casa, mas a edição do programa não mostra. Também são comuns as mensagens me alertando para o fato de que a direção do programa está “conspirando” a favor deste ou contra aquele candidato. Recebo, ainda, “denúncias” sobre “fatos escandalosos” que os pais, parentes e amigos dos confinados fazem fora da casa para ajudar os “brothers”.
Outro termômetro é a caixa de comentários das críticas que escrevo. Nesta terça-feira, escrevi sobre a piada que o programa fez com Ana, exibindo um monstrinho de desenho animado correndo atrás da loirinha, que se diz “perseguida” pelos outros candidatos. O texto foi publicado por volta da uma da manhã desta quarta. Ao religar o computador, às 9h30, já havia 200 comentários – muitos me agradecendo por ter “desmascarado a farsa” que é Ana, outros felizes por eu ter “denunciado” o que a edição do programa e Bial fizeram com a candidata.
Um pouco como no jornalismo esportivo, acho, não importa o que você escreve quando está mexendo com os sentimentos de torcedores apaixonados. Cada um lê como quer e aproveita a oportunidade para mandar a sua mensagem – ou o seu petardo.
Em tempo: O meu texto, Bial faz piada com a “perseguida” e expõe “Lado Ana” ao ridículo, está publicado, como sempre, no site especial do iG dedicado ao programa.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão
Tags: Ana, BBB9, Bial, espectadores, paredão, perseguida, torcida
12/03/2009 - 10:09
Assisti Corinthians e São Caetano no Pacaembu. Atrás de mim sentou-se um daqueles torcedores fanáticos, que passam o jogo inteiro dando instruções aos jogadores e fazendo comentários críticos. O sujeito só não criticou Ronaldo. Os demais… Douglas, André Santos, Felipe, ninguém escapou da fúria do torcedor. Mas o seu principal alvo era o meia Boquita. “O Boquita é preso”, começou ele, reclamando da falta de mobilidade do jogador. “Olha esse Boquita!”, suspirava, a cada passe errado. “Esse Boquita é uma merda!”, decretou ao final do primeiro tempo.
Antes do início do segundo tempo, o placar eletrônico anuncia. Sai Boquita, entra Dentinho. Consagrado, o torcedor atrás de mim enche o peito e diz: “Viu? E eu não ganho 450 paus!”. A referência, claro, era ao técnico Mano Menezes (salário de R$ 350 mil mensais), que fez a substituição.
O meu relato da noite consagradora de Ronaldo está publicado no Último Segundo (Fiel se rende a Ronaldo; só falta inventar um grito de guerra para Ele), em texto que descrevo o clima de paixão entre a torcida e o Fenômeno. Neste link aqui, também há uma reportagem em vídeo da noite gloriosa do atacante.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte
Tags: Corinthians, Fiel, Ronaldo, São Caetano, torcida
10/03/2009 - 14:49
Passou sem a merecida repercussão, talvez por culpa daquele golzinho do Ronaldo, uma sábia manifestação do presidente do Palmeiras. Em texto intitulado “O palmeirensismo”, publicado na mais recente edição da revista “CartaCapital”, Luiz Gonzaga Belluzzo discorre sobre características peculiares desta sua religião, mas o faz com tamanha clareza e didatismo que as lições ali contidas podem ser lidas e absorvidas por fiéis de outros credos.
Belluzzo escreve sob o impacto da derrota do Palmeiras para o Colo-Colo por 3 a 1, pela Taça Libertadores, em casa, no último dia 3, e antes do empate com o Corinthians, em Presidente Prudente.
“Antes do jogo com o Colo-Colo, o time do Palmeiras era o melhor do Brasil, cuíca do mundo. Os jogadores, todos jovens, maravilhosos. O treinador, genial. Conseguiu entrosar o time em pouco tempo. Isso, a despeito das cautelosas advertências do Vanderley Luxemburgo sobre a precocidade, os exageros e as irrealidades das celebrações.”
Depois da derrota Belluzzo sentiu na pele o mau humor da chamada Turma do Amendoim – um grupo de torcedores fanáticos, normalmente alojados nas numeradas do Parque Antarctica, que gosta de dar palpites sobre a gestão do futebol do clube.
“Depois da derrota, o time não valia nada. Fora os telefonemas de palestrinos, uns furiosos outros angustiados, minha caixa postal ficou entupida de sugestões de novas contratações e modificações táticas urgentes. (…)A Turma do Amendoim não perdoa erro de respiração em minuto de silêncio. Pergunto ao caro leitor, seja ele palmeirense ou muito ao contrário: você conhece outro time no mundo que tenha uma torcida como a Turma do Amendoim? Duvido.”
Belluzzo diz não se incomodar com as críticas e palpites, mas lamenta, na conclusão do artigo, sentir falta de bom humor e auto-ironia nas reflexões pós-derrota. Escreve o mestre:
“A nossa proverbial intolerância com as falhas de nossos atletas está fazendo esmaecer a outra virtude, aquela que nos distinguia dos torcedores comuns: a sabedoria de tratar a amargura das derrotas com humor e autoironia, atitude própria dos que conhecem as limitações da condição humana. É isso que assegurou, no século XX, nossa trajetória vitoriosa acima de qualquer resultado contingente.”
A capacidade de rir de si mesmo, nos piores momentos, é o que distingue os grandes dos pequenos. É isso que pede Belluzzo à Turma do Amendoim – um pedido válido, evidentemente, ao torcedor de qualquer time. A íntegra do texto pode ser lida no site da revista, aqui.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte
Tags: Luiz Gonzaga Belluzzo, Palmeiras, torcida, Turma do Amendoim
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