Tico Santa Cruz | Mauricio Stycer
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04/08/2009 - 17:28

Novidade nos anos 90, a “sabotagem criativa” está de volta

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Em fevereiro de 1997, o caderno “Mais!”, da “Folha”, deu capa para uma longa reportagem que escrevi sobre os chamados “novos rebeldes”.  A matéria começava assim:

Em tempos de ceticismo total, fim da história, fim das ideologias e fim do milênio, muita gente pode achar que não há mais espaço para a rebeldia e a subversão. Engano. Pequenas iniciativas isoladas, a maioria nos Estados Unidos, mostram que “contestar o sistema”’ não é um termo fora de moda.

Nesta edição são apresentados alguns dos grupos ou indivíduos que acreditam, em plenos anos 90, em variadas formas de ativismo político e transgressão. (…) A rebeldia se expressa por meio de atos não-belicosos e mais discretos, de denúncia, quase imperceptíveis aos olhos do chamado grande público.

Os alvos principais dos novos rebeldes não são os Estados e nações, mas a publicidade, os meios de comunicação, as grandes corporações empresariais. A Internet, a rede mundial de computadores, por ser um meio em que as idéias e informações circulam com quase total liberdade, se tornou um dos canais preferidos dos novos rebeldes.

Eu descrevia, então, alguns atos chamados de “sabotagem criativa”, como o do programador de computador que foi demitido de uma grande empresa fabricante de jogos eletrônicos após ter alterado um joguinho que ele próprio desenvolvia. O programador introduziu uma cena homossexual no jogo, para criticar a falta de personagens gays no universo dos videogames.

A sabotagem atingiu menos de 80 mil jogos, logo recolhidos pelo fabricante, mas o efeito obtido pela sabotagem foi infinitamente maior: o caso foi noticiado pelos principais meios de comunicação do planeta, entre os quais o jornal ”The New York Times”.

Escrevo essa longa introdução para comentar um ato de “sabotagem criativa” que o músico Tico Santa Cruz está tentando promover. Como relatei há duas semanas (Músico revela pressão e ingerência de gravadora para música tocar na rádio ) Santa Cruz está em conflito aberto com a rádio Mix FM, que não toca músicas do novo disco de seu grupo, o Detonautas.

Esta semana, o músico publicou dois textos em seu blog, convocando seus fãs a falarem, ao vivo, na rádio, uma frase de protesto, contra a Mix. O fã que conseguir ludibriar a emissora e falar a frase solicitada pelo músico será presenteado com um iPhone, prometeu Santa Cruz.
 
Não apoio a iniciativa do músico. Ao contrário. Acredito que a solução de conflitos deve ser resolvida de acordo com as regras estabelecidas. Nesse caso, se Santa Cruz considera-se lesado pela rádio, e não dispõe mais de canais de comunicação com a sua direção, deveria buscar os seus direitos na Justiça.

Mas achei curioso, nostálgico até, ele adotar publicamente uma tática de sabotagem criativa. Em 1997, poderíamos chamar Tico Santa Cruz de um “novo rebelde”. Hoje, talvez, deveríamos chamá-lo de um “velho novo rebelde”.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, Internet Tags: , , ,
26/07/2009 - 14:33

Falando abertamente de “jabá”

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Escrevi na última sexta-feira que a prática do jabá nas rádios brasileiras “é uma espécie de caixa-preta, muito bem protegida e imune, inclusive, à investigação jornalística”.  Comentava um texto do músico Tico Santa Cruz, publicado em seu blog, no qual ele afirma que o seu grupo, o Detonautas, está sendo boicotado pela rádio Mix FM. O músico contou que, certa vez, a rádio exigiu dos Detonautas que alterassem uma música já gravada para se adequar aos padrões da emissora. 

O jornalista Rodney Brocanelli, que mantém o blog Rádio Base, escreveu para me alertar que a “caixa preta” do jabá não é tão fechada assim. Ele me enviou trechos de uma entrevista de Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, à revista Playboy, em 2006, na qual o empresário fala abertamente do assunto. Eis o trecho:

PLAYBOY: Muita gente diz que você é jabazeiro [que cobra jabá].
TUTINHA: Me chamem do que quiser. Na minha rádio tem nota fiscal, tô pouco me danando. O cara para entrar no Fantástico também paga. Jabá é quando você faz ilegalmente na empresa. O que eu faço são acordos comerciais.

PLAYBOY: Que tipo de acordo?
TUTINHA: Por exemplo: hoje chegam 30 artistas novos por dia na rádio. Por que eu vou tocar? Eu seleciono dez, mas não tenho espaço para tocar os dez. Aí eu vou nas gravadoras e para aquela que me dá alguma vantagem eu dou preferência.

PLAYBOY: Que vantagem?
TUTINHA: Se você tem um produto novo, você paga pra lançar. Era isso o que eu fazia. Eu tocava, mas queria alguma coisa. Promoção, dinheiro. Ah, bota aí 100 mil reais de anúncio na rádio. Me dá um carro pra sortear para o ouvinte. Mas hoje não tem mais isso. As gravadoras não têm mais dinheiro. O que pode existir é o empresário fazer acordo. Ah, toca aí meu artista e eu te dou três shows. Ou uma porcentagem da venda dos discos
.

Brocanelli também publica em seu blog trechos de uma entrevista que fez com Roberto Miller Maia, ex-diretor da rádio Brasil 2000, na qual ele também fala abertamente do assunto. Eis o trecho selecionado:

Não existe o estar pagando para tocar, mas existe um acordo de cavalheiros. Como o U2 está dando ao ouvinte da rádio uma oportunidade de uma promoção que leva o sujeito para Miami, em contrapartida tem que se mostrar o trabalho dos caras. Por que uma banda fica famosa? Tem sempre aquele trabalho de marketing. Por mais que uma banda seja brilhante ou excelente alguém precisou falar sobre ela, instigar as pessoas a gostarem daquilo. E também existem as armações, que não duram nada. Se a banda for ruim, não vai adiantar. Tem que existir um mínimo de talento, de empatia com aquele grupo de pessoas a quem você vai oferecer esse produto. Isso tudo deveria ser uma coisa mais clara, ficou uma coisa obscura durante todos esses anos. Se tudo fosse às claras, não existiria corrupção.

Eis, portanto, duas manifestações que mostram que o jabá não é, como eu disse, uma caixa-preta sem chave.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, jornalismo Tags: , , , , , , ,
02/07/2009 - 12:16

Caro Tico Santa Cruz,

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Como tenho andado muito pelo Twitter acabei achando o seu perfil, onde você se apresenta como “cantor, compositor, poeteiro, blogueiro e AGORA jornalista”. Acredito. Mas, lendo o texto que você postou nesta quinta-feira em seu blog, “Sarney VENCEU”, não posso deixar de pensar que essas qualificações todas não foram suficientes para te fazer entender o que aconteceu nos últimos dias. Nem te ajudaram a ter uma perspectiva histórica dos acontecimentos.

Escrevi há algumas semanas um longo texto contra a obrigatoriedade do diploma de jornalista, no qual dizia, entre outras coisas:

1. O que é preciso saber e aprender para ser jornalista? É uma questão polêmica. Há alguns consensos: é preciso ter cultura geral e domínio total da língua portuguesa. Conhecer história é fundamental. Matemática e estatística são conhecimentos necessários. Ética. Direito. É preciso ter o hábito de ler jornais e revistas, ter gosto pela informação. Ter espírito crítico, ser capaz de compreender a realidade em que vive, é outro atributo obrigatório.

Tenho a impressão, lendo o seu blog, que te faltam todos esses atributos. Um sinal evidente disso é a sua idéia de que o movimento “Fora Sarney” começou e acabou na Internet no espaço de uma ou duas semanas. Quer dizer, você propõe uma manifestação contra um político que está aí, na estrada, há mais de 50 anos, só aparecem uns gatos pingados e você conclui que o movimento fracassou? Como assim?

Esse teu texto também me lembra aquele garoto que leva a bola para o playground, se irrita porque perdeu a primeira partida e vai embora, levando a bola e impedindo o jogo de continuar.

Neste caso, porém, nem isso é possível. Se você se preparar um pouco mais para os embates da política, verá que essa partida que você quis jogar – e acaba de de desistir – já está em andamento há muito tempo, e não tem data, ainda, para terminar. 

Atualização às 13h: Tico Santa Cruz responde:

Cerca de 30 minutos depois de entrar no ar minha carta-aberta, Tico Santa Cruz manifestou-se sobre o texto por meio de curtas mensagens enviadas via Twitter. O músico disse, primeiro: “Caro jornalista, reconhecer uma derrota como PESSOAL, significa uma reflexão interna, não geral. A meu ver é 1 passo p mudar”. Em seguida, postou: “Reconhecer a derrota não significa DESISTIR, significa que sou capaz de mudar a estratégia, não me julgue sem conhecer.” E completou: “Caso o contrário estará repetindo o mesmo padrão dos TANTOS internautas que emitem opiniões sem se aprofundar nas ações”.

Ontem, Santa Cruz havia escrito no Twitter: “Vocês estão cobertos de razão. Desculpem. Estou me retirando. Reconheço quando perdi. Não consigo + argumentar.” Em seu texto, no blog, também escreve, dirigindo-se a Sarney: “devamos entender que  eles e  vossos pares estão certos e que por conseguinte o Senhor deve seguir as orientações do Querido Presidente LULA e permanecer presidindo a casa.”

Fica aqui, em todo caso, a posição oficial de Tico Santa Cruz: ele não desistiu do “Fora Sarney”. Ainda bem.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Brasil, Cultura, Internet Tags: , ,
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