Maradona reinventa ofício de técnico com “peixinho”
Para tristeza de quem gosta apenas do espetáculo em campo, da bola rolando, do drible e do gol, os técnicos de futebol ganharam nos últimos anos o status de estrelas. Tornaram-se figuras centrais do negócio, capazes de aplicar “nós táticos”, virar jogos impossíveis, fazer substituições genais, além de terem a força de motivar times derrotados e transmitir mensagens geniais.
Pense no Brasil. Pense em Wanderley Luxemburgo, Mano Menezes e Muricy Ramalho. Ou em qualquer técnico da sua preferência, aqui ou no exterior. Cada um a seu jeito, todos eles são, toda semana, tão ou mais protagonistas das partidas que seus clubes disputam do que Ronaldo, Diego Souza, Kaká etc etc. O que os técnicos dizem ou deixam de dizer, o seu bom ou mau humor, o que escrevem no Twitter ou no blog, acompanhamos tudo que fazem como se fossem realmente estrelas do espetáculo.
Para piorar, o protagonismo dos técnicos levou grande parte destes profissionais, como ocorre com toda figura no palco, a comporem personagens. Difícil encontrar hoje um técnico que soe espontâneo, que diga o que realmente pensa, que faça o que lhe dá na telha, que vista a roupa que gostaria… Com a ajuda de assessores de imprensa e de imagem, os técnicos se tornaram, realmente, astros de primeira grandeza, protagonistas, do mundo do futebol.
Não estou aqui dizendo que os técnicos são falsos, mas que agem de acordo com determinados roteiros, que construíram e seguem, para o bem da imagem deles. Tornaram-se previsíveis. Passamos a esperar o novo “nó tático” do “professor”, ou a nova “patada”, ou a nova “bronca” como quem espera um gol do craque do time. E sabemos que ela virá, mais cedo ou mais tarde, porque os técnicos viraram personagens de si mesmos.
Tudo isso para falar de um técnico que parece não ter a menor vocação para ser técnico – Diego “Dios” Maradona, maior jogador da história da Argentina, hoje no palco à frente da cambaleante seleção de seu país.
Não vou aqui repetir os números e estatísticas que comprovam o desastre de sua gestão no comando da seleção. É possivelmente o pior e mais confuso técnico que o país já teve, nos últimos 40 anos. O que me chama a atenção é o fato de agir e se comportar como um jogador, e não como técnico.
Alguém poderá dizer que ele também está compondo um personagem. Que tudo não passa de encenação. Não é impossível. Mas mesmo que seja um personagem, é fantástico, porque é um personagem que vai totalmente contra a maré, contra essa onda “científica” que os “professores” tentam nos fazer engolir sobre o futebol “moderno”.
O “peixinho” que Maradona deu neste sábado à noite, na beira do gramado, depois do gol de “San” Palermo contra o Peru, aos 48 minutos do segundo tempo, impedido, sob chuva e vento, é uma dessas cenas que ficarão para a história do futebol.
No futuro, Maradona será lembrado pelo dois gols que fez contra a Inglaterra na Copa de 86 (pelo que eles ilustram da sua genialidade e malandragem em campo) e pelo “peixinho” no Monumental de Nunez. Este último, como exemplo da atitude de um técnico de futebol que reinventou o ofício.
Crédito da foto: EFE



