Por que o debate sobre concentração não avança no futebol?
Há dois dias, Ronaldo fez uma ótima observação sobre o excesso de concentração no Corinthians. Disse ele: “Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio venceria sempre. Temos que fazer o máximo para conseguir esse título e passar o resto do ano mais tranquilo, porque eu, particularmente, estou cansado”.
A frase teve muita repercussão, mas pouca discussão – e não lembro de ter lido nenhuma menção ao seu autor original, o jornalista João Saldanha (1917-1990), que disse: “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto.” Desde o final da década de 60, Saldanha defendia a idéia que os excessos da concentração eram desnecessários e que os jogadores de futebol, em sua maioria, tinham consciência que o desempenho em campo estava relacionado ao bom estado físico.
Saldanha foi um dos precursores no futebol da idéia de oferecer “liberdade com responsabilidade” aos atletas. Adotada em outros países a partir da década de 70, a proposta nunca encontrou eco no Brasil, salvo em raros episódios, como a Democracia Corintiana, liderada por Sócrates, na década de 80.
Mano Menezes evitou polemizar com Ronaldo, mas defendeu o rígido regime de concentração adotado pelo Corinthians: “É um sacrifício explicável num momento como esse”, disse, encerrando o assunto.
Como ocorreu com Saldanha, Ronaldo pregou no vazio. Creio que no ambiente do futebol brasileiro permanece forte a idéia que os jogadores, em sua maioria, são crianças irresponsáveis, que só pensam em se divertir, e que precisam ser tuteladas.
Estou com Saldanha e Ronaldo: acho que concentração não ganha jogo. O que você acha? Por que esse debate não prospera no Brasil?
Aproveito para recomendar duas leituras a quem se interessar em conhecer um pouco mais das idéias de João Saldanha. São duas ótimas biografias sobre o jornalista; “João Saldanha – Sobre nuvens de fantasia”, de João Maximo (Relume Dumará), e “João Saldanha – Uma vida em jogo”, de Andre Iki Siqueira (Companhia Editora Nacional).



