Na biografia definitiva de Garrincha, “Estrela Solitária” (Companhia das Letras), Ruy Castro trata da passagem do jogador pelo Corinthians ao longo de dois capítulos. Há incríveis semelhanças – e muitas diferenças – entre a situação que o craque vivia no período de sua contratação pela equipe paulista, dezembro de 1965, e o momento de Ronaldo neste dezembro de 2008, quando acaba de acertar com o time.
Garrincha tinha, então, 32 anos – como Ronaldo hoje. Desprezado no Botafogo, onde virara reserva de Jairzinho, foi negociado com o Corinthians por 220 milhões de cruzeiros (100 mil dólares) – o craque ficou com 15%, pagos pelo Botafogo. No dia 14 de janeiro de 1966, assinou contrato de dois anos. Receberia salário de 200 mil cruzeiros mensais, mais luvas de 12 milhões parceladas em 24 prestações mensais de 500 mil. Ou seja, começaria ganhando 700 mil cruzeiros fixos – ou 300 dólares.
O técnico do Corinthians era Oswaldo Brandão, que teve papel fundamental na vinda de Garrincha. Devoto de pai-de-santo, ele sabia que o guru do jogador, o pai-de-santo Alberto, havia recomendado a Garrincha e Elza Soares que deixassem o Rio de Janeiro para fugir da energia negativa que estava afetando o craque. Ao chegar a São Paulo, Brandão levou “seu” Alberto ao Parque São Jorge, tarde da noite. O Corinthians não ganhava nada havia 12 anos. Brandão pediu a Alberto que encontrasse sapos enterrados no gramado – e o pai-de-santo logo “viu” um enterrado dentro de um dos gols.
Garrincha alugou um apartamento na rua Maranhão, em Higienópolis, bairro nobre da cidade. Os moradores logo reclamaram do barulho que o casal fazia de madrugada. Elza tentava controlar o ímpeto do craque pela bebida, mas a situação já estava incontrolável àquela altura, conta Castro.
“Certa manhã, o repórter José Maria de Aquino foi entrevistá-lo e percebeu seu bafo. Alertou-o:
“Começando cedo, Mané?”
Garrincha se traiu:
“Não é possível! O hortelã disfarça!”
Garrincha chegou a São Paulo com 79 quilos, oito acima de seu peso normal. Antes de contratá-lo, o Corinthians fez o ortopedista João de Vicenzo examinar o seu joelho. Ele não encontrou nada de anormal. Precisava apenas emagrecer e recuperar a potência da perna direita, disse o médico.
Estreou no dia 2 de março, contra o Vasco, no Pacaembu. “Na semana do jogo, Elza foi de bar em bar nas proximidades do parque São Jorge implorar aos seus donos que, se Garrincha aparecesse, não lhe vendessem bebida. Os empregados dos botequins acharam graça – Garrincha já se tornara um habituê”, escreve Castro.
Jogou 13 partidas em um ano – no meio, houve a Copa da Inglaterra, da qual participou. Em janeiro de 1967, sem clube, sem futuro e alcoólatra, voltou ao Rio de Janeiro.