01/04/2009 - 17:21
Um momento histórico ocorreu na apresentação do Radiohead em Buenos Aires, dia 24 de março, dois dias depois do show em São Paulo. Trata-se de data tristemente célebre na Argentina – neste dia, em 1976, um golpe militar derrubou o governo de Isabelita Perón e instaurou uma sangrenta ditadura no País. O baixista Colin Greenwood (ou será o guitarrista Ed O’Brien?), num espanhol claudicante, mas compreensível, foi ao microfone e disse:
Este show esta noite é um sonho que se tornou realidade. Sabemos que hoje é um dia importante na Argentina. Completa-se hoje 33 anos do golpe de estado militar. Queremos dedicar a próxima canção para todas as vítimas que sofreram, a todos que perderem seus entes queridos, a todos que desapareceram.
E o Radiohead começou a cantar “How To Disappear Completely”. O áudio deste momento emocionante está disponível em diferentes arquivos no You Tube, como este aqui.
Até onde eu pude averiguar, o show do Radiohead em Buenos Aires, para cerca de 30 mil pessoas, com ingressos a US$ 90 (como no Brasil), transcorreu sem os problemas relatados no espetáculo ocorrido na Chácara do Jockey em São Paulo. A este respeito, aliás, a empresa promotora pelo evento desapareceu completamente, até o momento.
Relatei nesta quarta-feira, no Último Segundo, que a Promotoria de Justiça do Consumidor, no Ministério Público do Estado de São Paulo, avalia uma queixa recebida sobre o assunto. No dia seguinte, a organização do festival enviou uma nota em resposta às reclamações dos leitores, também publicada no Último Segundo.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura
Tags: Buenos Aires, How To Disappear Completely, Radiohead, São Paulo
23/03/2009 - 15:18
Escrevi hoje de manhã um comentário sobre a falta de estrutura e a desorganização do show do Radiohead. Deixei claro que gostei do ótimo show, mas mesmo assim temia que fosse ouvir desaforos dos fãs da banda. Que nada!!! A caixa de comentários do blog lotou com depoimentos de leitores descrevendo um show de horrores ainda pior do que eu vi. Fiz uma atualização no post, às 11h30, chamando a atenção para problemas que eu não tinha percebido, mas resolvi escrever um novo texto, agora à tarde, para dar mais destaque à voz dos leitores.
Um dos maiores dramas, que não enfrentei, porque fui e voltei de táxi, foi vivido por aqueles que deixaram o carro no estacionamento oficial. Há relatos de pessoas que, duas horas depois do fim do show, ainda não tinham conseguido sair do local. Como Ana M., que definiu a sua experiência como uma “bad trip”:
Ninguém lembrou de comentar que na 1h30 de espera não havia nenhuma alma penada para organizar o trânsito dentro do estacionamento? (se tinha, eu não vi) Ficamos todo o tempo sem saber o que estava acontecendo num terreno praticamente baldio com trechos escuros e escorregadios. Certamente essa “bad trip” vai fazer muita gente pensar muitas vezes antes de ir a um show num lugar isolado como a chácara. Santa desorganização!
O depoimento de Victor Ramos também dá a dimensão do horror. Ele optou por um estacionamento “não oficial” e se deu tão mal quanto:
Show dos extremos: extrema qualidade musical, extrema ridicularização e humilhação dos que foram agraciados com a boa música. A saída foi um dos piores momentos que já vivenciei numa multidão: 30 mil pessoas afuniladas, ao mesmo tempo, numa única e pequena saída!!! Por que não abriram as saídas de emergência no fim do show? Pra dar risada daquele monte de formiga se espremendo e passando mal? Tive que pagar 50 reais num estacionamento com chão de barro/lama pra não ter que ficar preso 1h30 no “estacionamento oficial”. Um falta de respeito que só se vê no Brasil.
Mais de um leitor falou de carros arrombados e furtados nas imediações da Chácara do Jockey. Thiago Pellegrini escreveu:
Passei mais de uma hora e meia para ir do Eldorado até o show e perdi o Los Hermanos. Total falta de apoio dos organizadores e da CET. E ainda teve muitas pessoas no estacionamento em que parei que tiveram seus carros arrombados pelos flanelinhas. É duro, mas 200 paus vale pelo show, que foi ótimo, mas o preço da desordem é muito maior.
Ricardo descreveu situação semelhante:
Acho que você teve sorte de não ir de carro. Mas tem uma coisa que precisa ser apurada corretamente. Cerca de 50 carros foram arrombados no estacionamento do show. Levaram de estepes a gasolina. Nem precisa falar que quebraram vidros e tal. A polícia foi chamada, inclusive, mas pouco fez e o roubo continuou noite adentro.
A saída, para quem foi de táxi e ficou até o último bis, foi igualmente complicada. Conta Eduardo Nasi, que também reclama da péssima qualidade do serviço de bar do evento:
De táxi também não foi fácil. Na saída, levamos duas horas e meia para conseguir um. E a “praça de alimentação”. Depois de pagar oito reais por um XIS e esperar por mais de meia hora, minha namorada recebeu um CACHORRO-QUENTE. Porque o XIS, vejam só, tinha acabado.A pizza, outra opção, estava com a massa crua e era montada porcamente.
Daniela aponta um outro problema de logística, não pensado pela organização:
Não havia banheiros químicos do lado de fora do lugar, quem se aventurou a ir em um banheiro teve que recorrer aos postos de gasolina que ficavam perto, no fim do show apenas UMA saída para 30 mil pessoas, um absurdo!!
Nara Alves relata que sofreu um desmaio e foi acudida pelos amigos. Não viu nenhuma equipe de socorro por perto:
Antes do início do show do Radiohead eu tentei chegar mais perto do palco. Não consegui ficar mais de 20 minutos porque estava tão abafado que eu desmaiei no meio da multidão. Apaguei (e não estava bêbada e tinha almoçado super bem!) pela primeira vez na vida. A sorte é que caí em cima do meu amigo, que me segurou. As pessoas em volta deram algum espaço para jogarem água no meu pulso e darem uns tapas no meu rosto. Fiquei um minuto desacordada, sem socorro médico, contando só com a galera em volta. Depois, acordei e fui curtir o show lá de trás… Adorei! Radiohead é demais! Mas fica o registro sobre a falta de atendimento por parte da organização…
.
Por fim, uma moradora da região onde ocorreu o show, também se manifestou sobre o caos e o barulho nas imediações. Eis o que escreveu Rosa:
Pena tanto sofrimento para ver um show. Moro perto do local, nosso bairro é bastante populoso e não sei como eles obtém licença para esses tipos de evento num lugar como este, tivemos que ficar ouvindo música altíssima o dia inteiro, terminou perto de meia noite e os apitos de pessoas que tentavam ajudar na saída do evento só terminaram perto de duas horas da madrugada. Depois de tudo isso saber que pessoas gastaram tanto para poder ver seus grupos de música e não ficarem felizes é muito triste
O blog, evidentemente, está aberto às explicações dos produtores do show e das autoridades municipais (Contru, CET) e estaduais (polícia) que poderiam acrescentar algo sobre esse caos, que manchou um dos grandes eventos musicais ocorridos em São Paulo nos últimos tempos.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, São Paulo
Tags: caos, desorganização, Radiohead, São Paulo, show
23/03/2009 - 09:50
Não vou escrever aqui sobre o ótimo show do Radiohead em São Paulo – o que o meu colega Carlos Augusto Gomes já fez, com a precisão de sempre. Vou escrever sobre os inúmeros problemas de infra-estrutura e organização que vi – deficiências graves, a meu ver, para um espetáculo deste porte, com ingressos a R$ 200.
Sempre haverá quem diga que show de rock bom é assim mesmo – desorganizado, com lama e caos. Não concordo. Acho que não é necessário sofrer para se divertir num bom show – ainda mais com os preços cobrados no Brasil.
Em primeiro lugar, o local do evento. A Chácara do Jockey fica na zona sul de São Paulo, numa área não servida por metrô e cujo acesso se dá por uma única avenida – em obras. Não há estacionamentos decentes no local – os carros iam parando pelo caminho, sob assédio de flanelinhas, tumultuando o acesso (dezenas foram multados depois que o show começou).
Peguei um táxi, na região central da cidade, às 18h30 e cheguei ao local do show, 12 quilômetros depois, às 19h40. Havia placas, pelo caminho, indicando a Chácara do Jockey, mas não vi nenhuma sinalização decente para a entrada no espaço do show.
Na entrada, nenhum controle de carteirinhas de estudantes. Quem adquiriu os ingressos pela internet não precisou comprovar os dados que forneceu. Quem pagou inteira, sentiu-se lesado. Apesar de proibido para menores de 16 anos, vi algumas crianças no local.
A Chácara do Jockey é um enorme descampado, de terra e grama. Vários trechos estavam encharcados por causa das chuvas dos últimos dias. No escuro, não poucos espectadores enfiaram o pé na lama. Dependendo da direção do vento, um cheirinho de coco de cavalo ocupava o ambiente.
Para comprar uma cerveja era preciso permanecer 20 minutos numa fila longa. Para chegar no balcão do bar, imundo e encharcado, era necessário superar um mar de lama. Na saída do show, outro caos – filas, congestionamento, confusão geral. Houve gente (leia nos comentários abaixo) que esperou uma hora e meia para conseguir sair com o carro do estacionamento “oficial” (tarifa: R$ 35).
Do ponto de vista da organização, é preciso reconhecer um ponto altamente elogiável: todos os shows começaram no horário previsto. A pontualidade amenizou a falta de estrutura. E todo mundo foi dormir feliz com a qualidade dos espetáculos: Los Hermanos, que não consegui ver, Kraftwerk e Radiohead.
Atualizado às 11h35 com informações fornecidas pelos leitores na área de comentários.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura
Tags: Chácara do Jockey, desorganização, Kraftwerk, Los Hermanos, Radiohead, São Paulo
15/01/2009 - 08:40
A notícia que o Los Hermanos vai voltar a se reunir para tocar antes dos shows do Radiohead no Brasil pode ter animado os fãs, mas passa uma imagem ruim do grupo – especialmente se o retorno for exclusivamente para esta apresentação.
Ao longo de sua carreira, a banda conquistou muita admiração justamente por nadar na contracorrente, sem se curvar ao mercado e adular a mídia. Com essa volta, o Los Hermanos passa a impressão que a decisão anterior, que implicou na separação, não foi tão séria e refletida assim.
Todo mundo tem o direito de voltar atrás em suas decisões, mas é ruim que seja o “mercado” a dar o tom. Especialmente no caso de um grupo que sempre cultivou a sua independência em relação a essas coisas.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura
Tags: Los Hermanos, Radiohead, shows Brasil