21/08/2009 - 15:50
Não sou expert em mídias sociais, muito pelo contrário, sou um outsider da velha mídia recém-chegado a este mundo, mas fui capaz de entender que um dos maiores atrativos do Twitter é a troca de sugestões de leituras.
Por conta disso, acabei descobrindo que havia alguma coisa estranha no meio de algumas recomendações que estava recebendo. Resolvi investigar e o resultado da apuração foi publicado na quarta-feira, 19 de agosto, no Último Segundo, com o título Publicidade velada no Twitter causa polêmica.
A matéria teve enorme repercussão no próprio Twitter, provocando muitos comentários, elogios, sugestões e críticas. Alguns dos personagens citados reagiram ofendidos, sugerindo que não fui correto na apuração do texto e na abordagem. Fiquei com a impressão que muita gente não entendeu direito o ponto central que abordei. Vou tentar ser mais didático aqui.
Acompanhe meu raciocínio:
1. Ao recomendar um link aos seus seguidores, você está querendo partilhar alguma leitura, imagem, desenho ou vídeo que, do seu ponto de vista, merece ser apreciado por outras pessoas.
2. As pessoas que apreciarem a sua indicação podem reenviá-la para as suas próprias listas de seguidores, alimentando um ciclo de envio e reenvio sem fim, que é um dos fenômenos mais interessantes do Twitter.
3. Quanto mais legal for a recomendação que você faz, maior a chance de produzir esse ciclo e, em consequência, de ganhar novos seguidores.
4. Quanto maior o número de seguidores que você tem, maior a influência que você exerce na rede. Não é, portanto, um trabalho sem recompensa. Você pode até fazer tudo isso desinteressadamente, mas algo você vai ganhar em troca. Os especialistas falam em “prestígio” e “relevância” no esforço de definir o que você ganha no Twitter.
5. Visualize o gráfico: quanto mais gente vê as suas recomendações, maior a chance de ela ser difundida. É uma curva que aponta para o céu.
6. Trata-se, portanto, de uma relação que se estabelece com base na confiança, não importa o grau de notoriedade e fama de quem faz a recomendação.
7. O seu seguidor te segue porque gosta das recomendações que você faz e, mais que isso, sente-se bem podendo enviar para os seus próprios seguidores as dicas que você dá.
8. Vamos imaginar agora o seguinte exemplo fictício: você recomenda a seus seguidores que vejam um vídeo de uma briga entre dois anões. É uma “treta” divertidíssima. Você adora o vídeo e acha que seus seguidores merecem se divertir tanto quanto você.
9. Só que, além de ser divertido, você também indicou este vídeo porque viu nele uma boa oportunidade de divulgar a palavra que marca a campanha publicitária de um determinado biscoito. Não por coincidência, a fabricante deste biscoito está te pagando para fazer recomendações como essa no Twitter.
10. Imagine que, talvez, entre os seus seguidores e os seguidores dos seguidores que receberão essa indicação e a farão circular pela rede, haja alguém que não saiba que você está recebendo dinheiro para fazer isso.
11. Quando este alguém, desinformado, descobrir que a pessoa que lhe recomendeu a “treta” de anões estava ganhando dinheiro para fazer isso, o que ela pensará? Você acha exagero imaginar que este leitor desinformado se sinta enganado?
Como disse, sou um recém-chegado neste novo mundo. No velho mundo, de onde venho, isso é crime de lesa confiança. Passar a impressão de que a recomendação da “treta” de anões enquadra-se na mesma categoria que todas as outras indicações que você faz, nesse mundo, chama-se publicidade velada, tentativa de disfarçar proposta de consumo no meio de informação.
Alguns participantes da campanha, bem-intencionados, avisaram em seus blogs que estariam ganhando dinheiro para indicar links no Twitter. Outros argumentaram que a campanha é tão transparente que o nome de todos está no site do fabricante de biscoito. Não quero magoar ninguém aqui, mas isso é a mesma coisa que colocar na sala um aviso de que é proibido fumar em todo o apartamento e fumar escondido no quarto.
A questão central é que credibilidade se constrói com transparência. Não que a velha mídia esteja livre da publicidade velada. Muito pelo contrário. Há, é lógico, muitos comunicadores que ficaram famosos e ricos misturando informação com publicidade, fazendo anúncio disfarçado, até jogando dinheiro para o público. Mas, e aqui eu encerro este texto, popularidade não deve ser confundida com credibilidade. Quem quiser vender biscoito no Twitter, fingindo que está passando links legais para seus leitores, fique à vontade, mas não espere ser respeitado.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Internet, jornalismo
Tags: disfarçada, polêmica, publicidade, Twitter, velada
10/06/2009 - 08:31
O patrocínio do grupo Silvio Santos ao Corinthians está produzindo uma série de eventos anedóticos, típicos de um dramalhão mexicano, bem ao gosto da programação do SBT. O surpreendente neste caso é que um dos protagonistas dessa história vem a ser a Rede Globo, famosa pela qualidade “antimexicana” de suas novelas.
Há alguns dias, Silvio Santos fez um discurso engraçadíssimo, chamando Ronaldo de “farsante” por se recusar a gravar um comercial para o SBT. No ar, aparentemente de improviso, o dono da emissora ofereceu R$ 50 milhões para o craque protagonizar a publicidade. Está no You Tube – e é inacreditável.
A Globo, como se sabe, é detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Para a emissora, causa constrangimento exibir a marca de um patrocinador – o Baú da Felicidade – cujo proprietário é dono de um canal concorrente. Propaganda grátis e ainda mais de um rival? É duro…
A emissora nega estar promovendo qualquer tipo de boicote ao logotipo do Baú em suas transmissões esportivas, mas não é o que parece. Como mostrou o jornalista Ricardo Feltrin, uma entrevista com Ronaldo, feita pela Globo no último domingo (7), passa a nítida impressão que os câmeras estão orientados a não mostrar de jeito nenhum a marca de Silvio Santos. Como fazer isso se o Baú é visto quase na gola da camisa do Corinthians? Simples: enquadrando apenas o rosto de Ronaldo, entre o queixo e a testa.
Em 1994, a Globo produziu um enquadramento semelhante na transmissão de dois amistosos da seleção brasileira às vésperas da Copa do Mundo. Patrocinada então pela Kaiser, a emissora se recusou a mostrar placas de publicidade da Brahma espalhadas pelo estádio onde ocorreu a transmissão de partidas contra Canadá e Honduras. No esforço de não exibir a marca rival, os câmeras da Globo deixaram de mostrar a bola, jogadores cobrando lateral e lances próximos à linha de fundo. Foi um papelão que entrou para a história da televisão brasileira.
Outros veículos já tomaram atitudes radicais como essa no afã de protegerem os seus interesses comerciais. Relato no livro “História do Lance!”, recém-publicado (desculpe a propaganda), que em meados de 2000 o diário esportivo manipulou imagens para não exibir a marca de Pepsi-Cola estampada na camisa do Corinthians. Escrevo no livro:
Insatisfeito com a não inclusão do Lance! na lista de veículos que receberiam anúncios de uma campanha publicitária da Pepsi-Cola, o diário passou a manipular, no computador, as fotografias que mostravam a camisa do Corinthians, de maneira a eliminar das páginas do jornal a marca do refrigerante, que então patrocinava a equipe. Depois que o caso tornou-se público, a manipulação das imagens foi interrompida.
Todas essas histórias – e há muitas outras semelhantes – expõem a defesa atabalhoada de interesses comerciais sob ameaça em meio a conflitos pesados entre empresas. Os protagonistas destes dramalhões parecem apenas se esquecer de cuidar dos interesses dos seus espectadores e leitores.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte, jornalismo
Tags: Baú da Felicidade, Corinthians, enquadramento, Globo, História do Lance!, Lance!, Pepsi-cola, publicidade, Ronaldo, SBT, Silvio Santos
15/04/2009 - 09:24
Tem causado alguma comoção a mais recente publicidade da Brahma. Num filmete de 30 segundos, Ronaldo aparece em campo superando diferentes obstáculos. O narrador informa que são as suas contusões, os repórteres, os cartolas e os médicos. O texto, em off, ainda acrescenta: “driblou todos que não acreditaram nele”. Ronaldo, então, diz: “Mas eu sempre dei a volta por cima. É, não é fácil. Mas o que é suado tem mais sabor”.
Seria muita pretensão querer ensinar algo aos publicitários que idealizaram essa campanha. Mas devo dizer que não entendi a mensagem. Até onde sei, o principal obstáculo que Ronaldo enfrentou em sua trajetória como atleta foi de ordem física. Sofreu contusões gravíssimas, que colocaram a sua carreira em risco em três ocasiões. Todas as lesões que o tiraram de campo ocorreram em consequência do seu próprio esforço – nenhum zagueiro jamais quebrou a sua perna.
Jornalistas ou médicos que questionaram a capacidade de o jogador voltar a atuar em alto nível não fizeram mais do que a sua obrigação. Teriam sido irresponsáveis se comungassem cegamente da vontade geral, legítima mas não fundada em bases científicas, que Ronaldo iria superar as suas dificuldades. E os cartolas? Não tenho simpatia alguma pela maioria dos dirigentes esportivos, mas o que fizeram contra Ronaldo? Não conheço nenhum episódio importante em sua carreira na qual algum cartola o tenha prejudicado seriamente.
Quem o viu chegar ao Corinthians, com dez (15?) quilos em excesso, estava errado em achar que o jogador não teria mais condições de voltar a ser o Ronaldo de antes? Ronaldo é um sobrevivente por méritos dos seus médicos, dos fisioterapeutas e do seu esforço pessoal. É realmente um guerreiro, como descreveu a campanha anterior da Brahma.
Enfim, acho que esse novo anúncio “força a mão”, como se diz, no esforço de apresentar o “herói”. Ronaldo já é suficientemente admirado, por corintianos e não corintianos. O risco do exagero é causar uma deformação na imagem – o que acontece, a meu ver, nesta publicidade.
Uma última questão: não entro aqui no mérito se um atleta deveria fazer propaganda de bebida alcoólica. Apenas acho hipocrisia levantar essa discussão neste momento. Ronaldo é garoto-propaganda da Brahma desde 1994 – e nunca ninguém reclamou. Já o argumento que o próprio jogador está usando em sua defesa não é menos hipócrita: “A Champions League é patrocinada por uma marca de cerveja”. E daí? Uma coisa é um atleta emprestar a sua credibilidade para vender um produto; outra, é um evento esportivo ter o apoio de um produto.
PS. Antes que a torcida fanática envie comentários me ofendendo, sugiro a leitura do texto Por que gostamos tanto de Ronaldo?, no qual eu falo da alegria de ver o jogador novamente em campo. E também do texto Uma turma de ronaldianos vê o jogo na tevê do porteiro, no qual eu descrevo a emoção de assistir o gol que ele marcou contra o Palmeiras.
Crédito da foto: AFP
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte, publicidade, televisão
Tags: Brahma, brahmeiro, publicidade, Ronaldo
28/03/2009 - 12:44
Brasileiro, de um modo geral, tem tendência a achar que sabe falar espanhol. Inventamos até uma língua própria, o portunhol, como resultado desse nosso esforço, voluntarista, de falar um idioma aparentemente muito semelhante ao nosso. Quem conhece o espanhol de verdade ri dos erros ridículos que cometemos, nessa transposição de uma língua para a outra.
Fico feliz ao descobrir que os argentinos enfrentam esse mesmo problema. Uma campanha publicitária de uma operadora de telefones, disponível no You Tube, ri dessa mesma mania. “Por que achamos que sabemos falar português?” é o tema da campanha. Divirta-se aqui.
Agradeço ao amigo Mauricio Savarese pela indicação.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Crônica
Tags: Portunhol, publicidade