15/05/2009 - 07:57
Há alguns mitos consolidados a respeito de Wilson Simonal (1938-2000). “Inventado” por Carlos Imperial, dividiu com Roberto Carlos, na década de 60, o lugar de cantor mais popular do Brasil. Fez 30 mil pessoas cantarem “Meu limão, meu limoeiro” e “Cidade Maravilhosa” no Maracanãzinho.
Filho da empregada doméstica da crítica Barbara Heliodora, deslumbrou-se com o sucesso. Era “alienado”, apolítico. Inventou de cantar a ufanista “País Tropical” com mais gosto e originalidade (suprimindo a última sílaba de cada palavra) que o próprio Jorge Benjor.
Era o “rei da pilantragem” – tanto no palco quanto fora. Dirigia carros esporte importados e namorava loiras – um negro arrogante, metido a besta. “Ou você vai ser alguém na vida ou vai morrer crioulo mesmo”, ele disse, uma vez.
Em conflito com o seu contador, mandou policiais do Dops darem uma dura no sujeito. O contador diz que foi torturado e apanhou. O “Pasquim” decretou: “dedo-duro”. Foi submetido, nas palavras de sua segunda mulher, a uma “overdose de ostracismo” – passou 30 anos na Sibéria, como observou Arthur da Távola. Quando os filhos começaram a carreira artística, assistia aos shows escondido, com medo de prejudicá-los.
Morreu aos 62 anos, em conseqüência de complicações geradas pelo alcoolismo.
O que há de verdade e mentira nessa história tão fascinante quanto terrível? Difícil saber. “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, documentário que estreia nesta sexta-feira, pode até ter a pretensão de esclarecer alguns desses mitos, mas o seu maior atrativo é deixar tudo sem um ponto final.
Dirigido por Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o filme resgata imagens sensacionais de Simonal, a lembrar do seu talento e carisma. Recolhe ótimos depoimentos (até Pelé e Nelson Motta falam coisas interessantes!), ouve a versão do contador Raphael Viviani e leva o espectador a se emocionar com a tragédia que embalou as últimas três décadas do cantor – a tal “overdose de ostracismo” a que foi submetido.
Passada a emoção, restam várias dúvidas. Ainda que jornalístico e, naturalmente, superficial, o documentário poderia ter investigado um pouco mais. Foi, ou não dedo-duro? Mandou, ou não, bater no contador? Não consegue, porém, avançar no esclarecimento da questão que transformou Simonal num pária.
De um lado, os amigos conservadores (Mieli, Chico Anysio, Boni) repetem o discurso que o cantor foi vítima de um tempo de intolerância e radicalismo. O ex-todo poderoso da Globo chega a dizer que Simonal era boicotado pelos diretores e roteiristas de programas da emissora – ele nada podia fazer. De outro lado, apenas Jaguar e Ziraldo mostram a cara, como que conformados com o “inevitável” papel do “Pasquim” no episódio, mas lembrando que a condenação a Simonal começou na grande imprensa.
Apesar da forte, comovente e dominante presença dos filhos Max de Castro e Simoninha, “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei” consegue ser um filme aberto, sujeito às mais variadas interpretações. É simpático a Simonal? É generoso com a memória artística de um cantor genial. Deixa claro que o músico cometeu um erro grave. E obriga o espectador a pensar sobre o tamanho desse erro e os seus efeitos. É bastante coisa para um filme.
Em tempo: o trailer do filme pode ser visto aqui.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura
Tags: Boni, Claudio Manoel, Jaguar, Mieli, Nelson Motta, Pasquim, Pelé, Wilson Simonal, Ziraldo, “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”
27/03/2009 - 15:35
Nas minhas lembranças futebolísticas da infância, o primeiro dos muitos dramas que me recordo diz respeito a Rogério. O ponta-direita integrou uma linha de frente dos sonhos, certamente responsável por toda uma geração escolher o Botafogo como time do coração. Era formada (na ordem em que aparecem na foto) por Rogério, Gerson, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar. Com esses cinco, o Botafogo foi bi-bi, ou seja, bi-campeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca, que eram disputados separadamente, em 1967 e 1968.
Em 1970, o camisa 8 (Gerson) já estava no São Paulo, mas os camisas 7 (Rogério), 9 (Roberto), 10 (Jairzinho) e 11 (Paulo Cesar) continuavam no Botafogo e eram presença constante nas convocações da seleção brasileira. Um pouco antes da Copa, porém, Rogério se machucou. Eu tinha 9 anos, recém-completados, mas me lembro bem de acompanhar a dramática novela sobre a capacidade, ou não, do ponta se recuperar a tempo de ir para o México.
Não deu, mas Rogério era tão próximo do grupo, que foi levado à Copa na condição de “espião” de Zagallo. Acompanhou vários jogos e transmitiu informações importantes sobre o desempenho dos adversários do Brasil ao técnico da seleção.
Com Rogério cortado, Zagallo fixou Jairzinho na ponta-direita. E, bem, o resto vocês já sabem. O camisa 10 do Botafogo transformou-se no Furacão da Copa, marcando gols em todos os seis jogos do torneio.
Sempre me perguntei: e se Rogério tivesse ido à Copa de 70? Esta semana tive uma oportunidade de ouro para fazer esta pergunta a quem entende do assunto. Convidado do programa “Loucos por Futebol”, exibido quinzenalmente na ESPN Brasil, tive a chance de conversar sobre este assunto com Marcelo Duarte, Paulo Vinicius Coelho e Celso Unzelte.
Um dos temas do programa foi justamente uma reportagem com Rogério – onde anda o ex-jogador? Ele é hoje pastor de uma igreja messiânica em São Paulo e guarda, com o maior carinho, as planilhas que preencheu com observações sobre os adversários do Brasil na Copa.
Perguntei a PVC, meu colega na primeira redação do “Lance!”, o que ele achava: e se Rogério tivesse ido à Copa? Paulo Vinicius me chamou a atenção para o fato de que, no primeiro semestre de 1970, a seleção brasileira disputou cinco amistosos – em três, Jairzinho foi escalado na ponta-direita e Rogério ocupou a posição em dois. Ou seja, Zagallo já tinha em mente esta opção tática – colocar o camisa 10 do Botafogo com a 7. Afinal, Jair jogava muito, mas a camisa 10 da seleção tinha dono, né?
Em tempo: o Loucos por Futebol será exibido na ESPN Brasil à 0h30 deste domingo. Vi no quadro de programação que estão previstas algumas reprises: segunda-feira, dia 30, às 9h e às 16h, terça, 31, às 20h, e quinta, 2 de abril, às 20h45.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte
Tags: Botafogo, Celso Unzelte, Copa de 70, ESPN Brasil, Gerson, Jairzinho, Loucos por Futebol, Marcelo Duarte, Paulo Cesar, Paulo Vinicius Coelho, Pelé, Roberto, Rogerio, Zagallo
03/03/2009 - 13:33
Quem acompanha as entrevistas de Pelé está acostumado com um de seus famosos cacoetes: falar de si mesmo na terceira pessoa. Exemplos frescos pululam na entrevista que deu à revista “Veja” esta semana: “Todo mundo acha que o Pelé poderia ser um grande presidente, mas essa possibilidade está descartada”, disse Pelé.
Ao falar sobre a agitada vida de Robinho, o Rei disse: “Pelé nunca esteve envolvido em escândalos”. O craque também adora brincar com as suas duas imagens públicas, como ao falar sobre as razões que o levaram a rejeitar o convite para ser técnico de futebol um dia: “O Edson não faria isso com o Pelé. Além disso, nem sempre o grande jogador é bom técnico”.
Outros atletas, na impossibilidade de incorporarem o talento, adquiriram este bizarro cacoete do maior jogador de futebol de todos os tempos. Lembro que Viola tem essa mania, Túlio Maravilha também adora falar de si na terceira pessoa, Robson Caetano idem…
A novidade, para meu espanto, foi assistir Alexandre Pato falando de si como se fosse uma entidade à parte. Ocorreu nesta segunda-feira, no programa “Bem Amigos”, no SporTV. Galvão Bueno entrevistou Pato e Thiago Silva em Milão. A conversa corria sem grandes emoções, até que Galvão lembrou muito bem que nem só de glórias é feita a carreira de um jogador e perguntou: “O que não deu certo nas Olimpíadas?”
Ouça a resposta de Alexandre Pato: “O Pato, ele fez o melhor. Infelizmente, as coisas não deram certo. Os companheiros que estavam atrás do Pato estavam melhores e as escolhas do treinador de colocar o Rafael Sobis e o Jô foram melhores para o grupo”.
E disse ainda: “Não me iludo com as coisas que falam do Pato. Podem falar mal, podem falar bem…”
Alexandre Pato tem apenas 19 anos e uma longa carreira pela frente. É um garoto instruído, além de bom jogador. Convém conversar com as pessoas que o assessoram sobre o efeito que causa falar dessa maneira.
Em tempo: Agradeço ao jornalista Claudio Henrique, querido amigo e atento leitor deste blog, pela sugestão do tema deste post.
Crédito da foto: AP
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Esporte
Tags: Alexandre Pato, Bem Amigos, Galvão Bueno, Pelé, Túlio, Viola
15/12/2008 - 10:57
Num domingo chuvoso, sem graça e sem futebol no Brasil, eis que a TV Gazeta marca um golaço. Sem muito alarde, a emissora paulista reuniu, para uma conversa, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Esses cinco, nesta ordem, estão agachados na foto que reúne o time brasileiro mais vencedor da história, formado também (em pé, da esquerda para direita) por Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro.
Reunidos na casa de Pelé, no Guarujá, e entrevistados por Flavio Prado, o quinteto relembrou histórias, cantou músicas e contou piadas. Ouvi pela primeira vez uma história famosa, sobre Tite, ex-ponta-esquerda, antecessor de Pepe. Num amistoso no México, já com 32 anos, Tite pediu para jogar, vislumbrando a possibilidade de ser contratado por um time local. Colocado para jogar apenas aos 40 minutos do segundo tempo, Tite viu Pelé driblar meio time adversário, inclusive o goleiro e recebeu a bola diante do gol vazio. Irritado, deu um bico para fora e disse a frase que virou lenda: “Gol de esmola eu não faço”.
Com esses cinco em campo, entre 1960 e 1965, o Santos ganhou 70% de seus jogos, informou Flavio Prado. “Devemos muito ao Santos, mas o Santos deve muito a nós”, observou Pepe.
Como sempre lamenta Pelé, é uma lástima que existam tão poucas imagens das proezas desses jogadores. Pelé também reclamou, com o endosso de seus companheiros do “maior ataque do mundo”, que até hoje a CBF não tenha reconhecido como títulos brasileiros, equivalentes aos atuais, as conquistas do Santos – e de outros times – da década de 60.
Uma reportagem com bastidores desse encontro está publicada no site da Gazeta Esportiva.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte
Tags: Coutinho, Dorval, maior ataque do mundo, Mengálvio, Pelé, Pepe, Santos
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