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21/02/2009 - 12:46

Senn Penn ou Mickey Rourke: quem leva o Oscar?

Com a estréia, finalmente, de “Milk – A Voz da Igualdade”, já podemos ter uma idéia mais clara das dificuldades envolvidas na atribuição ao Oscar de melhor ator do ano. São cinco os candidatos, a saber: Brad Pitt (“O Curioso Caso de Benjamin Button”), Frank Langella (“Frost/Nixon”), Mickey Rourke (“O Lutador”), Richard Jenkins (“The Visitor”) e Senn Penn (“Milk”).

Mesmo não tendo visto ainda dois filmes, “Frost/Nixon” e “The Visitor”, cujos atores estão indicados, tudo indica que a parada está entre Mickey Rourke e Senn Penn. Meu colega Ricardo Calil, que mantém um blog aqui no iG, acha que Senn Penn deve ganhar, mas que Rourke é que deveria ser o vencedor.

Assisti “Milk” nesta sexta-feira. É um ótimo filme, ainda que pouco surpreendente – especialmente por ser dirigido por Gus Van Sant. Senn Penn está realmente impressionante no papel de um militante gay, em São Francisco. Ao final, quando são exibidas algumas imagens do verdadeiro Harvey Milk, o espectador valoriza ainda mais o trabalho de composição de Penn. É uma imitação perfeita – o mesmo sorriso, os mesmos trejeitos, o mesmo corte de cabelo: Senn Penn “é” Harvey Milk.

Também conta pontos a favor de Penn o fato de se envolver em um projeto politicamente importante – o da defesa dos direitos dos homossexuais – e, ainda, o fato de ser um ator heterossexual sem medo de se expor em cenas “quentes” de amor e sexo com outros homens (A propósito deste ponto, que lembra a escalação dos atores principais de “O Segredo de Brokeback Mountain”, recomendo o artigo de João Moreira Salles na mais recente edição da revista “Piauí”, “Assim é se não lhes parece”).  

A relação de Mickey Rourke com Randy “The Ram” Robinson, seu personagem em “O Lutador”, se dá em outra dimensão. Rourke não imita alguém em especial, mas encarna, de alguma forma, a sua própria história ao viver um lutador decadente. Incapaz de prosseguir nos ringues, por conta das limitações físicas, mas inábil no esforço de reinventar a vida após a aposentadoria, a história de Randy “The Ram”, como já notaram vários críticos, pode ser vista como uma metáfora da própria trajetória de Rourke.

Ex-lutador de boxe e ator com pouco prestígio, Rourke não parece precisar imitar ninguém para viver o seu personagem. Randy está encarnado em Rourke. O impacto de sua atuação acaba sendo tremendo – muito mais forte, na minha visão, que a interpretação tecnicamente perfeita de Sean Penn. Para mim, portanto, o Oscar de melhor ator vai para Mickey Rourke.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
19/02/2009 - 11:18

O que “O Lutador” tem a ver com Axl Rose e Kurt Cobain?

Um dos raros momentos bem-humorados em “O Lutador” ocorre num diálogo entre Randy “The Ram” Robinson, o personagem magnificamente encarnado por Mickey Rourke, e a prostituta Cassidy, vivida por Marisa Tomei. Randy consegue convencer Cassidy a tomarem uma cerveja fora do expediente da garota e, de repente, eles se vêem conversando sobre as suas afinidades musicais.

O lutador decadente começa dizendo que não se faz mais música como antigamente. Cassidy diz: “Os anos 80 foram foda, cara, a melhor coisa que já teve!”. Randy concorda e fala de seu ídolo: Guns N´Roses! “Eles são os melhores!” Cassidy concorda, mas acrescenta: “Def Leppard”. Randy, então, fala a melhor frase: “Aí veio aquela bicha do Cobain e estragou tudo”. Cassidy está de acordo: “Como se houvesse alguma coisa errada em apenas se divertir”. E Randy encerra: “Vou te dizer uma coisa: eu odeio a bosta dos anos 90!” (O diálogo pode ser lido aqui, em inglês)

Além de achar graça na piada, fiquei intrigado com essa referência a Kurt Cobain (1967-1994), criador e alma do Nirvana. Por que ele “estragou tudo”, na visão de um fã do Guns N´Roses. Telefonei então para André Barcinski, o primeiro jornalista brasileiro a perceber a importância do movimento grunge, nascido ao redor de bandas como o Nirvana, nos Estados Unidos, no início da década de 90.

Barcinski conheceu a cena de Seatlle em uma viagem em 1991, que resultou no livro “Barulho – Uma viagem pelo underground do rock americano”, e credita a Cobain o papel de principal influência da geração grunge. “O Nirvana acabou com todas as bandas de rock dos anos 80”, diz Barcinski, hoje um dos sócios da casa noturna Clash, em São Paulo. “A banda fazia um som meio punk, músicas curtas, sem aqueles longos refrãos e sem os longos solos de guitarra das bandas dos 80”.

Não bastasse, conta Barcinski, em 1992, Cobain e Axl Rose tiveram um desentendimento famoso, durante a festa de entrega do prêmio VMA, promovido pela MTV americana. A confusão começou nos camarins, antes do início da festa. Cobain estava com sua mulher, Courtney Love, e a filha recém-nascida, Frances. Axl chegou com sua namorada, a modelo Stephanie Seymour.

Ao ver Axl, Courtney gritou: “Ei, Axl, você não quer ser o padrinho da menina?” Irritado, o líder do Guns ignorou Courtney e dirigiu-se diretamente a Cobain, que estava com Frances no colo: “Você cala a boca dessa piranha ou então a gente vai brigar”. Cobain, irônico, virou-se para Courtney e disse: “Piranha, cale a boca”. Stephanie Seymour entrou na conversa e perguntou a Courtney se ela era modelo. Mãe recente, a mulher de Cobain não gostou e devolveu: “Não. E você, faz cirurgia cerebral?”

Posteriormente, no palco, durante o VMA, a confusão teve um segundo capítulo. O Nirvana cantou “Lithium” no palco. É uma apresentação histórica. Quase ao final, o baixista Krist Novoselic joga o seu baixo para o alto e não consegue pegá-lo na volta. O baixo acerta a cabeça do músico, que vai ao chão, nocauteado. Cobain começa a destruir sua guitarra numa caixa de som, enquanto alguém, possivelmente  Dave Grohl, fica repetindo, no microfone, com voz afetada: “Hi, Axl”, “Hi, Axl”, “Where is Axl?”.

A história da confusão no camarim é relatada em vários sites, em inglês. Aqui, neste forum, está a reprodução de um trecho da biografia de Cobain, que conta o episódio. Neste outro link, lê-se a versão do episódio segundo Novoselic. E neste aqui, pode-se ler a versão tal como é relatada em um livro sobre o Guns N´Roses.

Há inúmeras versões no You Tube da histórica apresentação do Nirvana no VMA. Esta aqui está com ótima qualidade. “Barulho”, de Andre Barcisnki, está esgotado, mas pode ser encontrado em sebos, via Estante Virtual.

Atualização, às 16h15: Como bem lembraram os leitores Felipe Elizeu e Ana Claudia, a quem agradeço, faltou dizer que Mickey Rourke e Axl Rose são amigos. O músico cedeu os direitos da canção “Sweet Child o´Mine”, utilizada no filme, por um preço mais do que camarada, segundo revelou o diretor de “O Lutador”, Darren Aronofsky. Por esse motivo, há um “agradecimento especial” a Axl nos créditos finais do filme e Rourke reverenciou o músico, publicamente, quando recebeu o Globo de Ouro de melhor ator, em janeiro.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura Tags: , , , , ,
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