Quando o Itamaraty perseguia alcoólatras e homossexuais
Além das restrições à liberdade e da perseguição feroz a opositores políticos, a ditadura brasileira mais recente (1964-1985) serviu para diferentes acertos de contas e caças às bruxas. Um dos episódios mais chocantes, muito conhecido, mas pouco documentado, ganhou luz extraordinária neste domingo, graças a uma reportagem de Bernardo Mello Franco, publicada no jornal “O Globo” (infelizmente, não disponível para leitura na Internet).
Com base em documentos do Arquivo Nacional, o repórter descreve as atividades de uma Comissão de Investigação Sumária, instalada dentro do Ministério das Relações Exteriores, que deu origem a 44 cassações em abril de 1969, no maior expurgo da história da diplomacia brasileira. Perderam o cargo 13 diplomatas, oito oficiais de chancelaria e 23 servidores administrativos.
Em vez de perseguir comunistas ou simpatizantes da esquerda, como fizeram diferentes órgãos públicos na época, incluindo várias universidades, o Itamaraty foi atrás de funcionários por conta de seus comportamentos na vida privada.
As principais vítimas da comissão foram os homossexuais. Também foram perseguidos diplomatas com vida “desregrada” ou pouco convencional – caso de Vinicius de Moraes, cassado por ser boêmio.
Criada pelo então ministro José de Magalhães Pinto (1909-1996) e chefiada por Antonio Cândido da Câmara Canto, a comissão manifestou publicamente sua homofobia na justificativa da demissão de 7 dos 15 pedidos de demissão de diplomatas: “Pela prática de homossexualismo, incontinência pública escandalosa”. Em três casos, relata Mello Franco, a justificativa da demissão foi “incontinência pública escandalosa, decorrente do vício de embriaguez”.
Outros dez diplomatas, “suspeitos de homossexualismo”, deveriam ser submetidos a “cuidadoso exame médico e psiquiátrico” – sugestão acatada também por Magalhães Pinto.
A reportagem descreve com mais detalhes o caso de Vinicius de Moraes – o mais famoso personagem da degola. O poeta conseguiu manter o bom humor mesmo neste momento negro. Ao saber que as demissões atingiram homossexuais e boêmios, apressou-se em dizer: “Eu sou alcoólatra!”
Por coincidência, a mesma edição de “O Globo” que traz esta importante reportagem publica, oito páginas adiante, um anúncio da família Magalhães Pinto, convidando para missa pelo centenário do nascimento do político mineiro, a ser realizada nesta segunda-feira, no Rio de Janeiro.



