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29/06/2009 - 11:47

Quando o Itamaraty perseguia alcoólatras e homossexuais

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Além das restrições à liberdade e da perseguição feroz a opositores políticos, a ditadura brasileira mais recente (1964-1985) serviu para diferentes acertos de contas e caças às bruxas. Um dos episódios mais chocantes, muito conhecido, mas pouco documentado, ganhou luz extraordinária neste domingo, graças a uma reportagem de Bernardo Mello Franco, publicada no jornal “O Globo” (infelizmente, não disponível para leitura na Internet).

Com base em documentos do Arquivo Nacional, o repórter descreve as atividades de uma Comissão de Investigação Sumária, instalada dentro do Ministério das Relações Exteriores, que deu origem a 44 cassações em abril de 1969, no maior expurgo da história da diplomacia brasileira. Perderam o cargo 13 diplomatas, oito oficiais de chancelaria e 23 servidores administrativos.

Em vez de perseguir comunistas ou simpatizantes da esquerda, como fizeram diferentes órgãos públicos na época, incluindo várias universidades, o Itamaraty foi atrás de funcionários por conta de seus comportamentos na vida privada.

As principais vítimas da comissão foram os homossexuais. Também foram perseguidos diplomatas com vida “desregrada” ou pouco convencional – caso de Vinicius de Moraes, cassado por ser boêmio.

Criada pelo então ministro José de Magalhães Pinto (1909-1996) e chefiada por Antonio Cândido da Câmara Canto, a comissão manifestou publicamente sua homofobia na justificativa da demissão de 7 dos 15 pedidos de demissão de diplomatas: “Pela prática de homossexualismo, incontinência pública escandalosa”. Em três casos, relata Mello Franco, a justificativa da demissão foi “incontinência pública escandalosa, decorrente do vício de embriaguez”.

Outros dez diplomatas, “suspeitos de homossexualismo”, deveriam ser submetidos a “cuidadoso exame médico e psiquiátrico” – sugestão acatada também por Magalhães Pinto.

A reportagem descreve com mais detalhes o caso de Vinicius de Moraes – o mais famoso personagem da degola. O poeta conseguiu manter o bom humor mesmo neste momento negro. Ao saber que as demissões atingiram homossexuais e boêmios, apressou-se em dizer: “Eu sou alcoólatra!” 

Por coincidência, a mesma edição de “O Globo” que traz esta importante reportagem publica, oito páginas adiante, um anúncio da família Magalhães Pinto, convidando para missa pelo centenário do nascimento do político mineiro, a ser realizada nesta segunda-feira, no Rio de Janeiro.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Brasil Tags: , , , ,
05/05/2009 - 20:07

Botafoguense se desespera sempre, mas não desiste nunca

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Não pretendia escrever sobre o desempenho do Botafogo nas finais do Carioca, mas duas manifestações de botafoguenses, que só tive a oportunidade de ler na noite desta terça-feira, me obrigam a ocupar o espaço deste blog para tratar do meu time.

Na coluna “Gente Boa”, assinada por Joaquim Ferreira dos Santos, em “O Globo”, leio que Carlos Leal, dono da editora Francisco Alves, desistiu de editar um livro de arte sobre o Botafogo. Ele ia fazer 27 livros – agora só vai fazer 26. Fala Leal: “Dizem que tem coisas que só acontecem ao Botafogo. A covardia e a incompetência nunca estiveram entre essas coisas. Esse time e essas diretorias não merecem um livro de arte. Como falar do passado sem falar do presente? Ser tri-vice é demais.”

Na coluna “Painel do Leitor”, na “Folha de S.Paulo”, leio a carta de Fernando Cezar: “Joguei a toalha. Chutei o balde. Peguei o meu boné e fui embora. Chega de ir aos jogos do Botafogo. Agora faço parte da maior torcida do Brasil, a Sofá-fogo. Só vou assistir às partidas do alvinegro com amigos botafoguenses, também desiludidos, todos sentadinhos em um confortável sofá. Perder uma classificação nos pênaltis na Copa do Brasil, em pleno Engenhão, para o Americano, não foi o suficiente para que o nosso Botafogo aprendesse. Logo em seguida deixa de conquistar um título estadual, também nas penalidades máximas (…). Assim não dá! Para mim chega. Só volto a frequentar estádios depois que o Botafogo for campeão.”

Sou obrigado a confessar a minha perplexidade com os dois desabafos. Minha língua coça de vontade de dizer: não são botafoguenses de verdade.

O botafoguense se desespera, sim, com o time, mas a história o ensinou a ser um cético, não se iludir. O botafoguense sabe, sempre, que as chances de ganhar são infinitamente menores que as de perder.

O botafoguense sonhava com uma goleada sobre o Americano no Engenhão, mas tinha certeza, no íntimo, que aquela era mais uma das tragédias anunciadas na história do time.

O botafoguense tinha esperanças, em sua relação de amor e ódio com Cuca, que o pé frio na história fosse o técnico. Mas, a maior concentração de torcedores supersticiosos do planeta, no fundo, desconfiava que, talvez, quem sabe, o supersticioso Cuca seria a pessoa ideal para seguir à frente da equipe.

Quando, na Tribuna da Imprensa do Pacaembu, soube que o primeiro tempo da final terminara com derrota de 2 a 0, juro que vi o filme. Sabia que o Botafogo empataria a partida e perderia o título nos pênaltis. Por força do hábito, penso sempre o pior, quando imagino o que pode acontecer com o Botafogo em campo.

Fiquei triste, tristíssimo, mal-humorado na noite de domingo. Dormi mal, não quis ler o jornal na segunda-feira, mas ontem mesmo, na internet, já procurava saber sobre a lista de reforços que Ney Franco apresentou à diretoria. Do que li, nada me deu muitas esperanças. Como sempre, estou pronto para continuar a sofrer.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , , , ,
28/04/2009 - 13:41

Woody Allen: A insegurança do artista aos 74 anos

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Em excelente entrevista a Marília Martins, nesta terça-feira, em “O Globo”, Woody Allen fala de seu novo filme, “Whatever Works”, que marca a volta do cineasta à Nova York, depois de quatro produções na Europa. Allen diz que evitou os cartões postais de Manhattan e filmou “uma Nova York da crise econômica”.

Em outra passagem da entrevista, ele fala da dificuldade de conseguir filmar hoje nos Estados Unidos. É muito caro, diz, “até mesmo para mim, que tenho filmes de orçamento barato”. Por esse motivo, o cineasta volta em breve à Londres, para filmar uma comédia romântica com Nicole Kidman, Anthony Hopkins e Antonio Banderas, e cogita, no futuro, filmar no Brasil:

“São conversas ainda preliminares. É claro que precisaria estudar um pouco sobre o país para ver um roteiro que se adapte bem por lá. Mas estou interessado em fazer este filme no Brasil, se a oferta da produção seguir adiante”, diz (um resumo da entrevista pode ser lido aqui).

Mas a parte que eu mais gostei foi o seguinte diálogo. Pergunta: “E como foi a reação da platéia na estréia de ‘Whatever Works’?” Resposta: “Bem, não vi. Eu subi ao palco, tirei umas fotos e saí dali correndo para jantar com minha mulher, enquanto as pessoas viam o filme. Depois, veio um monte de gente até o restaurante apertar a minha mão. Eles disseram que gostaram, mas eu nunca sei.”

Woody Allen tem 74 anos e já fez 45 filmes. Ainda fica nervoso quando estréia um filme e inseguro em relação ao que pensam da sua obra. Eis um artista, ainda inquieto, preocupado em criar e eternamente insatisfeito. De tirar o chapéu!

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
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