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28/12/2008 - 14:26

Mais duas ou três coisas sobre Tintim

Escrevi na semana passada sobre o lançamento do álbum “No País dos Sovietes”, até então inédito no Brasil. Trata-se da primeira aventura de Tintim, escrita por Hergé em 1929. Somente depois de publicado o post no blog , tive a oportunidade de ler a ótima reportagem sobre Tintim na edição especial de final de ano da “Economist”.

Por conta justamente da data – os 80 anos da publicação de “No País dos Sovietes” – 2009 promete ser uma espécie de “ano Tintim”. Na Bélgica, deve ser inaugurado um museu dedicado ao trabalho de Hergé (1907-1983). Quem visitou as obras ficou impressionado com a ambição do projeto do museu. “A seriedade da arquitetura embute uma mensagem. Este não é um parque temático, mas uma galeria de arte”, escreve a “Economist”.

A revista fala também do projeto de Steven Spielberg de realizar um filme de ação baseado em Tintim. Já em pré-produção, o filme transformará o personagem, hoje mal conhecido nos Estados Unidos, numa franquia mundial. Spielberg, segundo um assessor de Hergé que negociou com ele, enxerga Tintim como “um Indiana Jones para crianças”. Em tempo: o nome verdadeiro do criador de Tintim era Georges Remi; suas iniciais, lidas ao contrário, RG, formam o som Hergé em francês.

O artigo da “Economist” lembra que, diferentemente de Tintim, um repórter que nunca escreveu uma reportagem e não tinha preocupação alguma com valores materiais, Hergé sempre cuidou muito bem de seu patrimônio, hoje administrado pela viúva Fanny e seu segundo marido. Mais de 200 milhões de álbuns já foram vendidos, e o personagem ilustra diferentes produtos licenciados – jogos, quebra-cabeças e livros para colorir, entre outros.
 
Além do racismo, da defesa da política colonial belga e do anti-comunismo tacanho, expressos em diferentes álbuns, Hergé também manifestou um claro anti-semitismo em alguns momentos de seu trabalho, em particular durante a ocupação nazista na Bélgica, lembra a “Economist”.  “Há uma relação entre Hergé, este homem decepcionante, e sua criação, Tintim, que luta contra os déspotas com tanta bravura. Está na racionalização da impotência: uma preocupação bem européia”, escreve o autor do texto.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , ,
25/12/2008 - 14:23

O valor histórico de Tintim “No País dos Sovietes”

Quando morei em Roma, entre 1991 e 1992, houve uma polêmica interessante a respeito da restauração do teto da Capela Sistina, no Vaticano. Como se sabe, antes mesmo da conclusão do trabalho, algumas das cenas pintadas por Michelangelo chocaram a Igreja, que encomendou a outro artista pintar véus e ramos de árvores sobre o sexo de figuras retratadas. A questão que surgiu durante os trabalhos de restauro é se os “tapa-sexos” acrescentados à obra-prima deveriam ser mantidos ou removidos.

Venceu a idéia de que a restauração deveria recuperar a imagem da obra tal como fora concebida. Mas me chamou a atenção, na ocasião, a tese de alguns historiadores da arte, defensores da proposta que manter os “tapa-sexos” seria importante como forma de lembrar um episódio clássico de censura.

Lembro disso a propósito do lançamento de “No País dos Sovietes”, primeira aventura que o cartunista belga Hergé (1907-1983) escreveu com o repórter Tintim e seu cãozinho Milu como protagonistas. Como é notório, o personagem nasceu, em 1929, por encomenda do abade Norbert Wallez, diretor do “Século XX”, um jornal de inspiração católica e de direita, e sofreu críticas por reproduzir uma visão de mundo colonialista e, em alguns casos, racista.

Várias das histórias escritas para o “Petit Vingtième”, o suplemento infantil do jornal, foram posteriormente adaptadas por Hergé – ganharam novas formas, cores e tons. A única aventura jamais reformulada foi justamente a primeira, “No País dos Sovietes”, que permaneceu na versão original, em preto-e-branco, e deixou de circular na década de 30. Em 1973, Hergé autorizou a reedição de “No País dos Sovietes”, tal como a concebeu em 1929. É esta a história que ganha a sua primeira edição no Brasil (Companhia das Letras, 144 págs., R$ 42).

Lendo, entende-se o constrangimento que deve ter causado a Hergé, explica-se o fato de o cartunista ter tirado a história de circulação por mais de 40 anos e jamais ter dado nova forma a elas. As aventuras de Tintim “No País dos Sovietes” expõem um preconceito primário contra o regime comunista, que vigorava na então União Soviética. Tintim é chamado de “pequeno burguês nojento” pelo policial encarregado de matá-lo. O repórter é caçado ao longo de toda a história no esforço que não revele “a verdade” sobre os “bolcheviques” para o mundo ocidental (clique na imagem acima para ampliá-la).

Mesmo para os fãs, “No País dos Sovietes” não deve entusiasmar. Mas a publicação da história, dentro das obras completas de Tintim, acrescenta algo importante à compreensão do trabalho de Hergé. É um retrato interessante não apenas da época em que ele vivia, mas também da sua trajetória como criador. É uma peça histórica, que tem muito mais interesse sendo contemplada e apreciada do que escondida num arquivo. 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , ,
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