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17/02/2009 - 16:21

Diálogo com um leitor sobre comentários no blog

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Estou fazendo esse blog há pouco mais de seis meses. Tenho por hábito não responder diretamente aos leitores. Acho que eles têm o direito de manifestar a opinião deles livremente, sem qualquer tipo de contestação minha. Evito, por isso, entrar na área de comentários – esse é o espaço deles, o fórum deles.

Em alguns poucos casos, porém, respondo dentro da área de comentários. Normalmente isso ocorre quando um conhecido meu envia um recado ou quando um leitor me chama a atenção para um erro que cometi, ou apresenta alguma dúvida que merece um esclarecimento.

Em 24 de janeiro, escrevi no blog sobre a canção “Mr. do Pandeiro”, versão de “Mr. Tambourine Man”, de Bob Dylan, gravada por Zé Ramalho. O post, “Mr. do Pandeiro”: Zé Ramalho reiventa Bob Dylan, provocou pouco mais de duas dezenas de comentários – tanto de gente que, como eu, gostou da versão, quanto de quem a odiou. Como o escritor Bráulio Tavares, responsável pela adaptação da música, também se manifestou a respeito, cinco dias depois escrevi um segundo post sobre o assunto, Autor da versão comenta polêmica sobre “Mr. do Pandeiro”, que rendeu outra dezena de comentários.

Entre os comentaristas dos dois posts, um se destacou. Assinando seus comentários como Beto, ele manifestou contrariedade com a adaptação de Zé Ramalho. Informou que era grande fã de Bob Dylan e, em vários comentários, tentou argumentar e convencer os demais comentaristas sobre a impropriedade da adaptação. Na sua visão, se entendi corretamente, Bob Dylan é único, inimitável e inadaptável. Cheguei a citar um dos argumentos de Beto no meu segundo post, o que provocou outros comentários dele.

Hoje, passados 24 dias do segundo post, Beto voltou a entrar no blog para tratar do assunto. Fez um comentário muito interessante, que acabou por merecer uma resposta minha, na área de comentários. Mas como o post sobre Zé Ramalho nem está mais na página principal do blog, decidi reproduzir abaixo o que Beto escreveu e a resposta que postei para ele.

Olá, Maurício, boa tarde.
Eu não sabia que esse negócio de blog existia, pois não tenho computador e nem mesmo gosto, acho. Mas é assim mesmo? Quer dizer, você lança a notícia, o pessoal entra, opina e depois nunca mais volta? Esquisito, não? E quem ficou com a razão nesse caso específico? Ou não é pra se ter razão? Estranho isso, essa avalanche de informações que, praticamente, as pessoas são obrigadas a acompanhar, ou quase. No meu caso, não. Seja lá como for, eu gostaria de dizer algo mais sobre o assunto. Li uma entrevista na internet com o sr. Zé Ramalho, se não me engano para O Globo. Ele se dizia magoado com a crítica, inclusive em relação ao último disco. Ele disse que sempre foi assim, que “os cães ladram, mas a caravana passa”. Não sei, não. Não se trata, aqui, de ofensas pessoais, mas o criticado sempre acaba levando para o lado pessoal.Muito difícil não ser assim. Nos meus comentários, não o ofendi como pessoa, e nem ofendi. Mas não sou jornalista, não tenho autoridade nenhuma, ninguém vai reparar no que eu escrevi, é muito diferente. Aliás, domingo eu também li que o compositor Luiz Tatit, em parceria com um outro, escreveu um livro no qual analisa canções, 6 ao todo. São analisados Caetano, Chico e Gilberto Gil, além de Tom Jobim. Vale a pena ler a reportagem do Caderno 2 do Estadão. Nessa reportagem o Tatit diz que nem o Bob Dylan conseguiu analisar a realidade como o Caetano, o Chico e o Gil. Ele também cita John Lennon, que também, na opinião dele, não conseguiu. Discordo do Tatit em gênero, número e grau. Bob Dylan é, em comparação com o trio brasileiro, o compositor mais versátil e plurarista. Maurício, não volto mais aqui, e um grande abraço.

Resposta do Mauricio:
Caro Beto,
Acabo de ver a mensagem que vc postou hoje. Queria, em primeiro lugar, te agradecer pelo interesse e pelos ótimos comentários sobre o assunto que vc colocou. Depois, gostaria de esclarecer que minha proposta, neste blog, é de promover discussões sobre temas que considero importantes. Muitas vezes dou a minha opinião, outras vezes nem isso, apenas apresento o assunto. De qualquer forma, não pretendo ter a palavra final sobre nenhum assunto. Neste caso do Zé Ramalho, ocorreu um debate muito saudável de idéias. Visões diferentes e divergentes sobre um mesmo assunto. Vc disse que não visita muito blogs. Pois é. Nem toda discussão em blog ocorre dessa forma educada e interessante, como foi no caso do meu post sobre o Zé Ramalho. Não acho que alguém tenha que ter a razão. Mais de uma pessoa pode ter a razão – e com opiniões muito diversas. Isso é saudável e democrático. Por isso tudo, escrevo para dizer que vc é muito bem-vindo e que ficarei feliz de te ver em outras discussões aqui no blog. Não cumpra a promessa de não voltar mais aqui.
muito obrigado
um abraço
Mauricio

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog Tags: , , , ,
29/01/2009 - 15:44

Autor da versão comenta polêmica sobre “Mr. do Pandeiro”

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Um post sobre o novo disco de Zé Ramalho, no qual ele canta versões de músicas de Bob Dylan, provocou uma interessante discussão aqui no blog. Escrevi especificamente sobre como me agradou a versão de “Mr. Tambourine Man”, realizada pelo poeta e escritor Bráulio Tavares, que transformou o personagem-título da canção em “Mr. do Pandeiro” e, num segundo verso, em “Jackson do Pandeiro”.

Rodolfo Tornesi, em seu comentário, realçou algo que também me chamou a atenção – que o esforço de tradução das músicas de Dylan resulta igualmente numa adaptação à cultura brasileira e ao universo de Zé Ramalho. Tornesi cita a menção ao filme “Tropa de Elite” na adaptação de “Rock Feelingood”.

Houve também, é claro, leitores que discordaram totalmente dos meus elogios. Beto, por exemplo, que se disse autoridade em matéria de Bob Dylan, escreveu: “Afirmar que o sr. Ramalho tem algo a ver com Bob é o mesmo que afirmar que Che Guevara tem algo a ver com São Francisco de Assis.”

O músico Claudio Henrique, que é autor de uma versão de Dylan (“Just Like a Woman”, que virou “Apenas Uma Mulher” no seu CD de estréia, em 2002), avaliou que a versão de Bráulio Tavares para “Mr. Tambourine Man” comprometeu a sonoridade da letra original. “Numa versão, é fundamental que a sonoridade da palavra seja respeitada, e não seu sentido literal”, escreveu. Também registrou o seu “desconforto” com o fato de a versão manter a palavra “Mr”. “Se era pra ficar regional, como se supõe, de onde vem este Mister?????”, protestou.

Jairnumo contribuiu no post com uma lista de músicos brasileiros que já gravaram versões de músicas de Dylan, lembrando da ótima versão do Skank para “I Want You”. Malaquias reconheceu que “a questão da tradução sempre é questionável, e ninguém precisa gostar da tradução, mas que as músicas tiveram novo fôlego, e dos bons isso é indiscutível.”

Por fim, para alegria deste blogueiro, o criador da versão de “Mr. Tambourine Man”, Bráulio Tavares, em pessoa, entrou no blog . Em seu comentário, Bráulio reconhece as dificuldades envolvidas na sua versão, acolhe as críticas recebidas e dá uma aula de boa educação ao dialogar com as opiniões dos leitores. Reproduzo neste post o seu comentário:

Obrigado a Maurício e a todos pelos comentários. Fazer versão é uma tarefa ingrata, e para mim toda versão é uma perda em relação ao original. Paciência. É um quebra-cabeças poético, e quando a gente encontra alguma solução que se encaixa bem o prazer supera o desânimo de todas as vezes em que só se acha uma solução insatisfatória. Manter a sonoridade é tão importante quanto acompanhar o sentido. Só que na maioria das vezes não dá. Mais até do que na poesia impressa, a sonoridade das palavras é importante numa canção, mas nem sempre dá para manter. O que a gente perde de um lado procura compensar do outro. É preciso ter humildade e tentar fazer o melhor possível. Se a gente for esperar atingir a versão ideal, não grava nunca…

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
24/01/2009 - 04:55

“Mr. do Pandeiro”: Zé Ramalho reinventa Bob Dylan

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Procuro desde dezembro do ano passado, mas só recentemente consegui comprar “Tá Tudo Mudando”, o CD em que Zé Ramalho canta versões de músicas de Bob Dylan (as informações básicas sobre o disco você encontra aqui, em reportagem publicada no Último Segundo).

O que me motiva a fazer esse comentário com atraso é a versão que Zé Ramalho canta de “Mr. Tambourine Man”, um dos clássicos de Dylan (ouça a versão original aqui, no excelente site oficial do músico americano).

Os primeiros quatro versos da canção são mais que conhecidos:

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I’m not sleepy and there is no place I’m going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

A ótima versão cantada por Zé Ramalho é de autoria do escritor Bráulio Tavares. Ele a intitulou “Mr. do Pandeiro” (aqui, uma gravação encontrada no You Tube). Veja como ele resolveu os primeiros quatro versos:

Hey! My Mister do Pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho onde ir.
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã eu poderei te seguir.

É uma tradução quase literal da música, mas com dois achados tão simples quanto geniais. O primeiro, a inclusão da contração “do” entre “mister” e “pandeiro”. Introduz uma coloquialidade muito brasileira, uma coisa meio Trapalhões (“ô, do pandeiro”) na música. O segundo achado é “Mister do Pandeiro” virar “Jackson do Pandeiro” no terceiro verso. É o toque que deixa a canção de Bob Dylan com a marca de Zé Ramalho. Xeque-mate!!!

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
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