Sexo e política: as mulheres no governo Berlusconi
Como recebo a revista sempre com atraso, só faço agora este comentário sobre o artigo “Girls! Girls! Girls!”, de Alexander Stille, publicado na “New Yorker” com data de capa de 3 de novembro. Trata-se de um texto muito bem-humorado, mas devastador, sobre o que aconteceu com a Itália desde que o primeiro-ministro Silvio Berlusconi assumiu o poder pela primeira vez, há quase 15 anos (apenas um resumo está aberto no site da revista).
Stille descreve como Berlusconi cultiva, a seu favor, a imagem de bon-vivant, conquistador e cafajeste. Com piadas, gestos ambíguos e aquele famoso sorriso de estátua, fala abertamente sobre sexo e não esconde que já fez cirurgia plástica e implante de cabelos.
No artigo, Stille mostra como Berlusconi vem se cercando, no Parlamento e no governo, de mulheres que trabalharam em suas emissoras de tevê – algumas como garotas de palco. A mais famosa é Mara Carfagna (à esquerda), candidata derrotada a Miss Itália e ex-showgirl num programa de tevê, nomeada ministra da Igualdade das Oportunidades no novo governo. A humorista Sabina Guzzanti está sendo processada pela “mais bonita ministra do mundo”, nas palavras de um correligionário de Carfagna, depois de ter dito: “Não me importa a vida sexual do Berlusconi. Mas você não pode fazer alguém ministro da Igualdade das Oportunidades só porque ela chupou o seu pau”.
Outra beldade que passou pelos programas de tevê de Berlusconi e hoje está no governo é a ruiva Michela Vittoria Brambilla (acima). Também ex-candidata a Miss Itália, Michela apresentava um programa chamado “Mistérios da Noite”, focado na vida noturna de cidades ao redor do mundo. Hoje ela é vice-ministra do Turismo. Segundo Stille, este cargo era o segundo na sua preferência. Como gosta de animais, ela sonhava ter sido nomeada ministra do Meio Ambiente.
Stille livra a cara de uma única mulher que faz parte do governo Berlusconi. Mariastella Gelmini (à esquerda) não apenas nunca trabalhou nas emissoras do primeiro-ministro, como ainda tem alguma experiência política. Ela é a atual ministra da Educação.
Diferente é a situação de Deborah Bergamini. Assistente pessoal de Berlusconi no seu conglomerado de mídia, Bergamini (abaixo) foi nomeada diretora de marketing da RAI. O conflito de interesses nesse caso é óbvio, já que as emissoras de tevê estatais também são controladas por Berlusconi, enquanto primeiro-ministro. Gravações feitas há alguns anos mostraram que Bergamini, trabalhando na RAI, defendia os interesses da Mediaset, do patrão. Afastada da RAI, com uma gorda indenização, hoje ela é deputada da coalizão governamental.
Por fim, Stille conta a história de Virginia Sanjust di Teulada (abaixo), jornalista do grupo de mídia de Berlusconi. Há cinco anos, depois de assistir uma reportagem da moça, o patrão, encantado, mandou um buque de flores. Agradecida, ela respondeu com um cartão, no qual registrou o número de seu telefone. Convidada a almoçar com o primeiro-ministro, foi chamada a prestar uma consultoria, regiamente paga, ao governo.
O escândalo se tornou público graças às revelações do então marido, logo ex, de Sanjust di Teulada, Federico Armati. A jovem jornalista também ganhou um programa na RAI e Armati, que trabalhava para serviços de inteligência do governo, foi transferido e, posteriormente, demitido.
Stille encerra sua crônica sexual sobre a Itália de Berlusconi lembrando que, no início dos anos 90, o PIB da Itália era 15% superior ao da Grã-Bretanha. O fato era motivo de orgulho no país. Hoje, a economia italiana é 23% menor que a britânica.



