A foto de Obama é uma obra de arte? Ou um mero registro?
Duzentas cópias de uma fotografia de Barack Obama, feita por Mannie Garcia, estão à venda em uma galeria no Chelsea, em Nova York. Cada cópia desta edição limitada custa R$ 1.200. Trata-se da imagem que serviu de base para o famoso trabalho do artista Shepard Fairey, usado como símbolo da campanha de Obama à Presidência dos Estados Unidos.
Garcia conta, em reportagem publicada nesta terça-feira no “New York Times” (“Viewing Journalism as a Work of Art”), que a fotografia foi feita no dia 27 de abril de 2006. Fotógrafo free-lancer, a serviço da Associated Press, ele estava encarregado naquele dia de fotografar o ator George Clooney, que havia regressado de uma visita ao campo de refugiados de Darfur, no Sudão. Obama, na qualidade de senador por Illinois, acompanhou Clooney na entrevista concedida à imprensa no National Press Club, em Washington. Durante a entrevista, Garcia fez uma ou outra foto de Obama.
Mais de um ano depois, procurando uma imagem de Obama no Google, Fairey encontrou a foto de Garcia e a transformou. Segundo o jornal americano, o artista dizia que não fazia idéia de qual foto usou – a identificação da foto de Garcia ocorreu graças ao interesse de curiosos, que perceberam a semelhança entre as duas imagens pesquisando na internet.
O próprio Garcia conta que, ao ver o cartaz da campanha de Obama, não se deu conta que fora realizado tendo como base uma fotografia sua. Disse ele: “Como fotógrafo free-lancer, naquele dia eu devo ter feito umas mil imagens. Nesse tipo de trabalho, normalmente, nós fazemos muitas fotografias ao longo de um ano. Eu não lembro de cada foto que eu fiz.”
O “New York Times” recorre então ao crítico Luc Sante para explicar como uma fotografia tão trivial se transformou num ícone do início do século XXI. Sua declaração pode causar algum incômodo aos fotógrafos: Na sua visão, neste caso, há um fator “sorte” envolvido, entre a intenção da foto e o seu resultado final. “É inteiramente concebível que aquela foto tenha sido tirada por uma criança, um robô ou um macaco”.
Apesar de sua foto estar agora numa galeria de arte – e uma das cópias já ter sido adquirida por um museu –, Garcia não se vê como um artista, mas como um repórter-fotográfico. “Digo há anos: ‘Eu não tiro fotos; eu faço fotos’, usando as ferramentas necessárias. Eu tenho câmaras bem caras. Eu poderia programar o equipamento no automático – isso seria ‘tirar uma foto’. Eu controlo tudo”, explica.
O jornal americano cita ainda Anne Wilkes Tucker, curadora de fotografia do Museu de Arte de Houston, que adquiriu uma cópia da foto de Garcia. Ela se pergunta: “Nós teríamos comprado a foto de Mannie sozinha, sem o pôster de Fairey? Eu não sei.” Ao mesmo tempo ela não concorda que se diga que o sucesso da foto de Garcia possa ser atribuído à sorte. Ele estava no lugar certo, na hora certa, diz a curadora. “Repórteres-fotográficos são como atletas, neste sentido”, diz ela.
Com a palavra os repórteres-fotográficos.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: Barack Obama, Mannie Garcia, Shepard Fairey



