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06/11/2009 - 11:38

Prêmios e crítico sublinham prestígio da Mostra

Mostra SeloNem a chuva, que prejudicou a cerimônia de entrega dos prêmios, afetou o ótimo humor de Leon Cakoff. Em conversa com o blog, o criador da Mostra de Cinema de São Paulo festejou o final da 33ª edição com duas boas notícias. A primeira, o fato de os dois filmes premiados pelo júri, “Voluntária Sexual”, do sul-coreano Kyong-duk Cho, e “Os Dispensáveis”, do alemão Andreas Arnstedt, terem estreado mundialmente na Mostra – um sinal do grande prestígio do evento.

Cakoff também ficou muito feliz com um artigo escrito pelo crítico Jean-Michel Frodon, integrante do júri da 33ª edição. Em texto publicado em seu blog na véspera da cerimônia de encerramento, Frodon falou do seu encanto pelo festival organizado por Leon Cakoff e Renata Almeida. E foi além.

Segundo Frodon, assim como foi uma voz de resistência ao regime militar, ao ser criada em 1977, a Mostra de Cinema de São Paulo hoje é vista por cineastas em todo o mundo como um espaço alternativo aos grandes estúdios de Hollywood e à Rede Globo – “os poderes que se pretendem hegemônicos no imaginário deste imenso país”.

Fazendo a ressalva que não está comparando a ditadura militar com as potências da mídia, Frodon observa: “Isso não exclui observar como, em situações diferentes, respostas variadas, mas motivadas pelo mesmo espírito, são possíveis e necessárias”.

Ex-diretor da mítica revista “Cahiers du Cinema”, Frodon lembra que, ao introduzir o voto popular na Mostra de Cinema durante o regime militar, “Cakoff reinventou algo que não existia mais em lugar algum no país: um espaço democrático”. Hoje, lembra ele, o desafio de um festival – e dos críticos de cinema – é outro:

“O papel (dos festivais e dos críticos) não é mais o de tornar acessível o que é raro ou inacessível, mas trabalhar no sentido de abrir os espíritos a outras formas, outros ritmos, outras histórias que os espectadores saturados de mensagens promocionais seguramente não vão procurar por conta própria, mesmo que estas obras estejam à distância de um clique.”

Para Frodon, a Mostra de São Paulo tem um papel fundamental “e mais necessário do que nunca” de preparar o terreno “para o reencontro entre o público e os filmes”.

Em sua passagem por São Paulo, o crítico causou polêmica ao afirmar, em entrevista à “Folha”, que o cinema brasileiro, de uma maneira geral, sucumbiu ao modelo comercial dominante. “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”, disse Frodon.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
03/11/2009 - 12:07

Salve! Dois filmes brasileiros muito acima da média

Mostra SeloA indústria cinematográfica nacional comemora 2009 como o ano em que o mercado dará um salto próximo a 20%. Devemos este crescimento às comédias (comédias?) “Se Eu Fosse Você 2”, “O Divã”, “A Mulher Invisível” e “Os Normais”, que arrebentaram nas bilheterias.

Não foi um ano, porém, de emoções fortes para quem aprecia cinema de qualidade. Cada vez mais formatado de acordo com as exigências do mercado, o cinema brasileiro tem surpreendido pouco o público mais exigente.

Integrante do júri da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, o crítico francês Jean-Michel Frodon expressou esta decepção com uma frase de impacto: “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”.

A declaração de Frodon, em entrevista à “Folha”, causou um certo mal-estar, por dois motivos: 1) partiu de um estrangeiro, e não de um brasileiro; 2) e é possível que ele não conheça tão bem a produção nacional para fazer um julgamento deste quilate. Na minha opinião, o ex-diretor da revista “Cahiers du Cinema” pode ter cometido injustiças, mas acertou o tiro no alvo.

É evidente que há exceções, e a própria Mostra de São Paulo está aí para ajudar Frodon a matizar as suas críticas. Dois filmes, em particular, merecem ser vistos com atenção por quem espera mais do que comédias com jeitão de novela das 7 no cinema.

os famosos e os duendes“Os Famosos e os Duendes da Morte” é o primeiro longa-metragem de Esmir Filho. O cineasta tem 27 anos e ficou muito famoso ao dirigir “Tapa na Pantera”, um pequeno filme com a atriz Maria Alice Vergueiro no papel de garota-propaganda das qualidades da canabis.

Ganhador do principal prêmio no Festival do Rio, há menos de um mês, “Os Famosos e os Duendes da Morte” se passa numa cidadezinha de colonização alemã, no interior do Rio Grande do Sul, e descreve o sofrido rito de passagem de um adolescente inquieto e angustiado. Neste “cu do mundo”, como diz um dos protagonistas, não há nada para fazer, mas o menino encontra, pelo MSN e pela Web, canais de comunicação e expressão.

Fotografia, roteiro, direção de atores, tudo contribui para que o espectador embarque na viagem do protagonista de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, no ritmo dele. Com sensibilidade, Esmir Filho realizou um filme intimista, poético, misterioso, na contracorrente dos filmes sobre adolescentes, que os tratam ou como espertinhos demais ou retardados.

Com distribuição já assegurada, o filme deve chegar ao mercado em 2010. Nesta terça-feira, há uma última sessão programada na Mostra, às 19h40, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações no site da Mostra.

viajo porque precisoO outro ótimo filme brasileiro exibido na Mostra é “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”. Neste caso, a surpresa é menor porque os seus diretores, Marcelo Gomes e Karin Ainouz, já vem mostrando, há alguns anos, trabalho de qualidade e inventividade. Gomes é diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) e Ainouz já fez “Madame Satã” (2002) e “O Céu de Suely” (2006).

Neste novo filme, com título atraente, um geólogo percorre o sertão do Ceará e de Pernambuco fazendo pesquisa para uma futura obra de transposição de águas. No ritmo da paisagem árida que encontra, do olhar das famílias miseráveis que perderão suas casas e do sorriso desdentado das prostitutas que vivem à beira da estrada, o geólogo vai narrando as suas impressões e, aos poucos, as suas dores.

Com trilha sonora que reúne o melhor da música popular brega brasileira, fotografia magnífica e uma estrutura narrativa surpreendente, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” confirma, mais uma vez, que a nova geração de cineastas do Nordeste (da qual faz parte, também, Sergio Machado, diretor de “Cidade Baixa”) encontrou o seu lugar no cinema brasileiro atual – bem longe da mesmice e da obviedade.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , , , ,
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