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13/08/2009 - 17:53

O estranho encanto dos destroços

De passagem pelo Rio, no último final de semana, fui ao Instituto Moreira Salles visitar uma exposição de fotos do francês Marcel Gautherot (1910-1996) dedicada a Roberto Burle Marx (1909-1994), seu amigo, cujo centenário de nascimento se comemorou no dia 4 de agosto. São belas fotos de jardins projetados por Burle Marx, em locais públicos e residências privadas, além de imagens de plantas e retratos do próprio artista e paisagista.

Escrevo, porém, para contar que fui ao IMS para ver uma coisa, mas acabei arrebatado por outra: uma grande retrospectiva, a primeira na América Latina, dedicada à obra do fotógrafo canadense Robert Polidori. Aberta já desde 17 de julho,  a exposição fica no Rio de Janeiro até 27 de setembro e reabre no dia 7 de outubro no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

Polidori fotografa os destroços que resultaram de acidentes, tragédias e guerras. Suas fotos não mostram pessoas, mas os ambientes danificados pela ação do homem, da tecnologia ou da natureza. Em grandes dimensões, as fotos exibidas no IMS retratam apartamentos no Bronx, em Nova York, destruídos por vândalos, casas danificadas pelo furacão Katrina, em Nova Orleans (foto abaixo), escritórios devastados pela guerra em Beirute, prédios corroídos por falta de conservação em Havana, escolas abandonadas numa cidade vizinha a Chernobil (foto acima) etc.

O impacto dessas imagens é potencializado pela qualidade excepcional dos registros, sempre em cores, e pelo tamanho das ampliações. Vistas na sequência, acabam provocando um efeito curioso, como se fossem todas de em mesmo lugar, uma mesma denúncia.

Uma série especial de fotos, numa sala à parte, mostra o Palácio de Versalhes em reformas. O efeito, neste caso, é mais bem-humorado, ao expor os contrastes daqueles ambientes luxuosos, freqüentados pela Corte, hoje desgastados pelo tempo e necessitados de reparos.

Mais para frente, quando a exposição chegar a São Paulo, volto ao assunto. Mas não queria deixar de fazer esse registro, caso algum leitor deste blog no Rio, ou em visita à cidade, ainda não tenha sido apresentado ao trabalho de Robert Polidori.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , ,
30/03/2009 - 11:07

Sobre títulos de revista: “Serrote” ou “Maranhão”?

Revista nova na praça, “Serrote” tem nome inspirado na obra do poeta Murilo Mendes, autor de um livro de memórias intitulado “A Idade do Serrote” e de um divertido poema chamado “Serrote” (incluído em “Poliedro”), no qual a ferramenta é descrita de forma terrível – só menos ameaçadora que a bomba atômica.

A escolha de “Serrote” foi meio aleatória, orientada mais pelo estranhamento que causa o título do que por algum sentido que possa sugerir. Antes de se decidir por “Serrote”, conta Matinas Suzuki Jr., os editores da revista se divertiam dizendo que ela se chamaria “Maranhão”. Uma brincadeira do jornalista Marcos Augusto Gonçalves com o título (tão aleatório quanto) da revista “Piauí”, cujo editor, João Moreira Salles, é um dos diretores do Instituto Moreira Salles, onde “Serrote” nasceu.

Abaixo, reproduzo o poema “Serrote”, de Murilo Mendes (1901-1975). Uma reportagem sobre a revista “Serrote” foi publicada nesta segunda-feira no Último Segundo, o jornal do iG, e pode ser lida aqui  .

Serrote
Tremo quando examino o serrote.
Acho angustiante a música dentada do serrote, rangendo, pai de Antonin Artaud, cuja mãe é
uma das Górgones.
Para libertar-me do serrote compus um drama mínimo sobre.
DRAMATIS PERSONAE:
O SERROTE;
EU PRÓPRIO, DE BINÓCULO E LUVAS PRETAS.
CENÁRIO: UM QUALQUER.
TEMPO DE AÇÃO: 1910 – 1965
ESPAÇO DA AÇÃO: JUIZ DE FORA – RIO – ROMA.
Aproximo-me bastante do serrote, calço as luvas, entrego-lhe o texto menor do mundo:
AI!
Fora o serrote. Ainda assim prefiro-o à bomba atômica. Se bem que terrível não ameaça nem
troveja. Além disto não há serrotes “limpos” ou “sujos”, americanos, russos ou chineses.
Todos são internacionais.
(Acabarei elogiando o serrote)
Serrote, caixinha de música dos nazistas.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: , , , , ,
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