



Alguma coisa acontece no jornalismo esportivo brasileiro – e, tudo indica, parece coisa boa! No período de um mês, duas novas revistas dedicadas ao universo do futebol chegaram às bancas. Isso significa dizer que, da noite para o dia, houve um aumento de 100% na oferta. Para quem sempre ouviu dizer que futebol não vende revista no Brasil, trata-se de uma onda impressionante.
No final de agosto estreou o que podemos chamar de uma revista de futebol “popular”. “Gol F.C.” apresenta o Corinthians na capa, com um título bem apelativo (“Não pára! Não pára! Não pára!”). Também tem uma coluna chamada “Maria Chuteira”, com notícias sobre mulheres do universo futebolístico, uma coluna assinada por Ana Paula Oliveira (“Boa assistente ou assistente boa?”) e reportagens tão variadas quanto leves sobre diferentes times brasileiros. A revista estreou destacando o seu preço no alto da capa (“só R$ 5,90″), com 60 páginas (15% de publicidade).
Esta semana chegou às bancas “Fut!”, um ambicioso projeto da empresa que edita o diário “Lance!”. A matéria de capa, um perfil do craque argentino Messi, com a pergunta “Por que o Brasil ama esse cara”, já diz muito das intenções de “Fut!”. A revista tem um olho no futebol internacional, com várias matérias e seções dedicadas a este universo, mas também busca complementar a cobertura oferecida pelo jornal diário em outras áreas, como consumo, moda e beleza (!!!). Parecem iscas dedicadas a conquistar, também, um leitor de cabeça mais aberta que o boleiro tradicional e, quem sabe (sonhar não custa) o universo feminino. Com projeto gráfico de Antoni Cases, o mesmo designer catalão que criou o jornal em 1997, “Fut!” é vendida por R$ 8,90 e tem 100 páginas (14% de publicidade).
Essas duas novas revistas chegam dispostas a enfrentar uma verdadeira instituição (“Placar”) e uma aposta atrevida (“Trivela”) do jornalismo esportivo.
Nascida no final de março de 1970, pouco antes da Copa do Mundo no México, “Placar” reinou soberana por três décadas. Várias gerações de jornalistas esportivos se formaram nas páginas da revista, para não falar dos inúmeros prêmios que ela conquistou por conta de históricas reportagens investigativas, da famosa máfia da loteria ao doping de Mazolinha. Na Europa, Placar seria uma lenda jornalística; aqui, enfrenta os altos e baixos de um mercado instável. Começou como revista semanal, virou mensal, voltou a ser semanal e hoje, mais uma vez, sai a cada 30 dias. Com 108 páginas (20% de publicidade), a revista custa R$ 9,99 e traz em sua mais recente edição uma capa com Rogerio Ceni e Marcos, indagando qual é o melhor goleiro do Brasil, e uma capa alternativa, dedicada ao Grêmio, o líder do Brasileiro.
Em setembro de 2006, chegou “Trivela”. A edição de estréia tinha na capa o número 7; as seis primeiras edições se chamaram “Copa 06”. Com ênfase em futebol internacional e um olhar crítico sobre as mazelas nacionais, a revista comemora dois anos com uma reforma no projeto gráfico e uma capa sobre Vanderlei Luxemburgo: “Empresas e relacionamentos – como funciona a vida do treinador do Palmeiras fora do campo”. Esta edição, que custa R$ 8,90, tem 68 páginas (7% de publicidade).
Aguardemos os próximos meses para ver como esse mercado, agora altamente competitivo, vai se comportar. Não dá para dizer se estamos vivendo uma espécie de “bolha” do jornalismo esportivo, que vai estourar em breve, ou se este é um fenômeno que veio para ficar. Torço que seja algo mais do que passageiro.