Eduardo Coutinho, “Moscou” e o cinema como aventura
É uma estreia modesta, a sinalizar que se trata de um biscoito fino. Duas salas no Rio, duas em São Paulo, duas em Belo Horizonte, uma em Santos e uma em Recife. Oito salas, no total, exibem a partir desta sexta-feira o mais recente filme de Eduardo Coutinho, “Moscou”.
Chamá-lo de maior documentarista brasileiro tornou-se um pleonasmo, uma repetição desnecessária. Com “Cabra Marcado para Morrer”, na década de 80, e a série de filmes que realizou nos últimos dez anos (“Edifício Master”, “Peões”, “Santo Forte”, “Jogo de Cena” etc), Coutinho colocou seu nome num lugar de destaque da história do cinema nacional.
Não dá sinais de acomodação, felizmente. Aos 75 anos, apresenta “Moscou” sem saber exatamente que filme realizou. Por três semanas, registrou os ensaios da peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchecov (1860-1904), pelo grupo Galpão, sob a direção de Enrique Diaz, convidado especialmente para a tarefa. O espectador é informado desde o início que o tempo seria insuficiente para montar a peça e que os atores estão ali com o objetivo de serem filmados, ensaiando cenas e fazendo exercícios teatrais.
“Moscou” não é, portanto, um filme sobre os bastidores de uma encenação. O que é, então? Na longa entrevista que concedeu ao Último Segundo, em abril, Coutinho esboça algumas respostas. Uma boa pista está, acredito, nesta resposta:
“O século XX começa com Tchecov. Parecia que ia terminar com Brecht (1898-1956) e termina com Beckett (1906-1989). Não tem mais palavras. Nos últimos 20 anos, é um teatro de diretor, não precisa nem de texto. Para o bem e para o mal. Foi então que pensei: quero fazer um filme anti-utópico, que é a visão do Tchecov.”
Convido quem não leu na ocasião a ler a entrevista, talvez antes de ir ao cinema. Na primeira parte, com o título Eduardo Coutinho lamenta o fim das utopias, o cineasta relata sobre as inquietações que teve durante e após as filmagens, quando montou uma primeira versão de “Moscou” com quatro horas e quarenta minutos, posteriormente reduzidas para 90 minutos.
A conversa com Coutinho, realizada num 1º de abril, teve uma longa introdução, sobre o contexto político da realização de seu documentário mais famoso, “Cabra Marcado para Morrer”. Para facilitar a leitura, separei essa parte num outro texto, intitulado Eduardo Coutinho revela bastidores históricos de Cabra e do Globo Repórter.
De quebra, no primeiro link, o leitor encontra também o trailer de “Moscou”.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: Cabra Marcado para Morrer, Eduardo Coutinho, entrevista, Moscou


