Os ídolos do futebol na sala de aula – na França e no Brasil
Com alguns dias de atraso, ai vai um comentário sobre “Entre os Muros da Escola”, o impressionante filme de Laurent Cantet, em cartaz no Brasil desde a última sexta-feira. Palma de Ouro em Cannes, em 2008, o filme retrata um semestre dentro de uma sala de aula de uma turma formada por jovens entre 13 e 15 anos em uma escola pública, em Paris.
“Entre os Muros da Escola” é baseado num romance do escritor François Bégaudeau, que é também corroteirista e ator principal do filme. Ele interpreta o papel do professor de francês, colocado na linha de frente, numa batalha com os alunos – grande parte formada por filhos de imigrantes árabes e africanos.
Embora Bégaudeau assegure que livro e filme tenham a intenção, apenas, de discutir “os mal entendidos entre um adulto e um adolescente em um ambiente escolar” (veja entrevista concedida à “Folha”), há claramente outras questões em jogo.
Um dos temas mais visíveis é o da adaptação dos imigrantes à cultura francesa. E aqui entra um aspecto muito interessante de “Entre os Muros da Escola”: o papel dos jogadores de futebol na formação da identidade dos jovens filhos de africanos. O filme deixa claro, pela repetição com que são citados, que esses craques são uma referência fundamental no imaginário dos jovens.
Numa das cenas de maior impacto, os filhos de imigrantes discutem sobre os seus ídolos. O primeiro, filho de um antilhano, fala de Thierry Henry, cujo pai nasceu em Guadalupe e a mãe, na Martinica – duas ilhas nas Antilhas, colonizadas pela França. Outro fala de Zinedine Zidane, cujos pais nasceram na Argélia. Tanto o árabe Zidane quanto o negro Henri são franceses e responsáveis, em boa parte, pelo sucesso do futebol da França no cenário mundial nos últimos anos.
Até que um terceiro estudante fala de Didier Drogba. Apesar de sua família ter imigrado da Costa do Marfim para a França, onde iniciou a sua carreira, Drogba sempre defendeu a seleção de seu país de origem – da mesma forma, aliás, que outros africanos, como George Weah e Samuel Eto´o, para citar apenas mais dois. A discussão no filme não se prolonga. Mas o menino que evoca Drogba parece sugerir que, na sua visão, o fato de o jogador atuar por uma seleção africana dá um valor especial ao seu ídolo na comparação com os craques, filhos de imigrantes, que atuam pela França.
Em todo o caso, “Entre os Muros da Escola” faz pensar sobre o papel que todos esses jogadores representam para uma geração de jovens de origem humilde. Descontadas as diferenças, sobretudo a questão da imigração, é um quadro que tem muito a ver com o Brasil. Mesmo que não queiram, jogadores como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e tantos outros são vistos como heróis pelas crianças e, de alguma forma, como modelos a serem seguidos. É uma grande responsabilidade.



