Entrevista é arte? Ou técnica? Ou sorte?
Essa é para os jornalistas, profissionais e estudantes, que eventualmente passam por aqui. A entrevista é uma arte? Ou uma técnica? Ou uma combinação dos dois? Há vários aspectos em jogo numa entrevista e não será aqui que você ouvirá uma aula sobre o assunto. Mas, ao comentar duas entrevistas que fiz esta semana, gostaria de refletir um pouco sobre questões ligadas a este ofício.
Primeiro, quero fazer uma defesa da entrevista por e-mail. Técnica relativamente nova, usada há não mais que 15 anos, a entrevista por e-mail não substitui, evidentemente, a entrevista cara a cara, mas pode ser muito útil. Primeiro, em situações nas quais o entrevistado mostra-se reticente em conversar com o jornalista. Para quebrar o gelo, eventualmente, aceito enviar as minhas perguntas por e-mail, desde que eu tenha o direito de fazer novas perguntas depois que as respostas forem enviadas.
Também recorro a entrevistas por e-mail quando o tema central é uma discussão de ideias, o que ocorre, com frequência, na área cultural. A entrevista por e-mail deixa o entrevistado à vontade para pensar com calma antes de responder e, normalmente, produz reflexões ricas – eventualmente mais ricas do que na situação cara a cara. Perde-se o contato com a fonte, importante fonte de informações, mas ganha-se em densidade.
É o que eu acho que ocorreu na entrevista com o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, a propósito de seu novo livro, o romance “Elza, a Garota”, no qual ele relata a história da jovem militante do PCB, na década de 30, morta a mando do partido por suspeita de traição.
Qualquer estudante de primeiro ano sabe que, independente do formato da entrevista (pessoal, por telefone, por e-mail), é obrigatório ter uma espécie de roteiro em mãos, com as perguntas (ou temas, ao menos) a serem colocadas. Mas, tão importante quanto, é estar preparado para as situações que fogem ao previsto. E aí, não há muito o que ensinar – é preciso jogo de cintura, sagacidade, conhecimento e sorte.
Na última terça-feira entrevistei o cineasta Eduardo Coutinho. O tema da entrevista era o seu mais recente filme, “Moscou”, no qual ele documenta o trabalho do grupo Galpão, durante três semanas, ensaiando a peça “As Três Irmãs”, de Tchecov, sob a direção de Enrique Diaz. O meu dever de casa consistiu em assistir o filme três dias antes, reler a peça e pesquisar informações sobre o trabalho do Galpão e de Diaz.
Diante de Coutinho, antes de fazer a primeira pergunta que preparei, observei em voz alta, logo depois de anotar no meu caderninho, que estávamos no dia 31 de março, 45º aniversário do golpe militar de 1964. Coutinho olhou para mim e disse: “E também 25 anos da primeira sessão de ‘Cabra Marcado para Morrer’”. Eu reagi com um “ah, é?”, dando início a uma longa conversa sobre a história de seu filme mais importante, ao longo da qual Coutinho me contou alguns episódios inéditos e também bastidores do programa “Globo Repórter”, onde ele trabalhava na ocasião.
Para minha sorte, eu havia assistido à primeira sessão oficial de “Cabra”, em novembro de 1984, no FestRio. Também conhecia, por acompanhar a área, a maioria dos personagens e eventos citados por Coutinho, de maneira que consegui acompanhar o seu relato e, eventualmente, interrompê-lo com perguntas e pedidos de esclarecimento. Enfim, resultou, na minha opinião, numa entrevista que guardarei com orgulho.
Depois de quase meia hora (eu tinha direito a 40 minutos), interrompi Coutinho e disse que devíamos falar sobre “Moscou”. Começamos então o que poderia chamar de uma nova entrevista, sobre o seu mais recente filme. Ao cabo de 50 minutos de conversa, eu tinha duas entrevistas no meu gravador – motivo pelo qual optei em simplesmente editá-las assim, em duas partes.
O resultado da entrevista sobre “Moscou” pode ser lido aqui e a conversa sobre “Cabra Marcado para Morrer” está aqui.



