02/09/2009 - 11:14
Não acompanho o Twitter em outros países, mas no Brasil noto uma tendência interessante: os melhores assuntos do dia sempre viram piada. Não que assuntos sérios não prosperem e rendam boas discussões, mas quanto maior o potencial humorístico do tema em pauta, mais ele gera comentários.
Talvez seja coincidência, mas o ranking de popularidade do Twitter mostra, entre os 100 perfis com mais seguidores, muita gente que ganha a vida fazendo humor na tevê, como o pessoal do CQC, do Pânico e do Casseta & Planeta. Também são muito populares os perfis de humoristas consagrados em outras mídias, como Millôr Fernandes (imprensa), KibeLoco (blog) e Pretinho Básico (rádio). E estão igualmente no top 100 do Twitter brasileiro perfis protegidos por pseudônimos, como Christian Pior e O Criador, que fazem piada de tudo.
Influenciados por esses humoristas, ou não, há toda uma turma no Twitter (impossível citar todos) que prefere perder o seguidor a perder a piada. Politicamente incorretos, não deixam pedra sobre pedra. Às vezes, tenho a sensação que os usuários disputam uma competição pela melhor piada. Nos últimos dias, quem anda pelo Twitter riu muito da Xuxa, do Belchior, da Vanuza, do Fluminense…
Nem todo mundo gosta, é verdade. As piadas sobre Rubinho Barrichello, já reparei, fazem muito sucesso, mas sempre geram protestos. No dia em que escrevi uma gracinha sobre Belchior, em pouco mais de 15 minutos perdi seis seguidores, possivelmente ofendidos – ou irritados com a falta de graça do meu comentário.
Na terça-feira, 1º de setembro, o assunto que mais gerou piadas no Twitter foi a pane no Gmail. Problema grave para milhares de usuários do serviço, o e-mail do Google foi tema de muitas piadas – algumas ótimas, outras nem tanto. A melhor de todas, enviada por @danilocorci, era uma que dizia: “Google avisa que, como era versão beta, o gmail foi descontinuado” e deixava um link para ser clicado. Quem se arriscava topava com uma foto de Sergio Malandro e a legenda: “Hahahaha. Pegadinha do Malandro”. Também ri com a piada enviada pelo perfil da @revistamad: “Maldito gmail! Se fosse bom, não era de graça!” E com a piada de @ivanadriel, inspirada na frase que Xuxa tornou famosa: “google says: vocês não merecem falar com meu anjo”.
Se o Twitter, de fato, expressa uma espécie de sistema nervoso, capaz de medir o pulso dos interesses dos seus seguidores, tenho a impressão que essa predileção pelo humor seja mais do que falta do que fazer, como criticam algumas pessoas. Gostaria, realmente, de saber como é em outros países, mas arrisco dizer que essa mania de fazer piada de qualquer assunto seja um traço distintivo do Twitter brasileiro.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Internet
Tags: Casseta & Planeta, CQC, humor, KibeLoco, Millôr, Pânico, Pretinho Básico, Twitter
30/07/2009 - 12:12
A recente discussão pública entre Danilo Gentili e Rafinha Bastos, do CQC, com Helio de la Peña, do “Casseta & Planeta” chama a atenção para um fato raro, mas não inédito: discussões sérias entre pessoas especializadas em fazer o público rir.
A última grande polêmica entre humoristas brasileiros tem origem no final dos anos 80, do século passado, quando a turma do “Casseta & Planeta” começou a atuar na Rede Globo. Depois de participarem como redatores do “TV Pirata”, os humoristas fizeram uma primeira tentativa de programa próprio com “Dóris para Maiores”, que não deu muito certo, e em 1992 começaram o humorístico que até hoje é exibido na emissora.
Em resposta ao impacto inicial do programa, muito bem recebido por público e crítica, Chico Anysio fez críticas pesadas à turma do “Casseta & Planeta”. Para o veterano humorista, Bussunda & Cia faziam um tipo de humor elitista, “só para a zona Sul” do Rio, em contraposição ao seu humor, de caráter popular.
O sucesso de Ibope do programa dos Cassetas mostra que a crítica de Chico Anysio era injusta. O veterano humorista, inclusive, fez uma participação especial no programa dos rivais em 2002, mas até hoje os trata com ironia e afirma que só fazem sucesso porque estão na Globo.
Em dezembro de 2008, à revista “Rolling Stone”, Chico, “encostado” pela emissora desde 2001, disse: “Preciso me desabituar a ver TV aberta, não gosto de humor na TV aberta. Na Globo, o que tem é o ‘Zorra Total’, que é um projeto meu, e o ‘Casseta e Planeta’. O programa deles não mudou muito, mudou?”
Em maio deste ano, extensa reportagem de Patrícia Kogut em “O Globo” procurou mostrar que a turma do “Casseta & Planeta” havia, finalmente, superado o luto pela traumática morte de Bussunda, ocorrida em plena Copa do Mundo de 2006, e dado início a uma nova fase. Um dos depoimentos colhidos pela repórter é de Marcelo Tas.
O capitão do “CQC” é apresentado como contemporâneo dos “cassetas”, mas de “outra turma”. Reproduzo o trecho da reportagem que cita Tas e as suas observações sobre os humoristas:
- Quando o “Casseta” estourou no horário nobre da Globo, me senti vitorioso como parte daquela geração. Eles concluíram a subida da montanha e cravaram a bandeirinha lá no topo. Nós temos histórias separadas, embora o Ernesto Varella (personagem de Tas na TV nos anos 80) tenha feito aparições no “Dóris para maiores”. Enquanto eles criavam o “Casseta” numa sala, eu trabalhava ao lado, no “Programa legal”, da Regina Casé e do Luiz Fernando (Guimarães). O Guel (Arraes) era o comandante dos dois times – lembra Tas.
Ele se diz amigo dos “cassetas”, embora já tenham sido apontados como rivais, e cita ainda uma identificação de geração. Mas acha que seu caminho é diferente:
- Eles misturam ficção com vida real, usam fantasias e maquiagem, têm personagens. Nós, no “CQC”, fazemos um humor de outra natureza, mais documental, vamos na realidade. Os jovens humoristas do “CQC” são herdeiros de Varella.
Sem querer chegar a uma conclusão, deixo apenas duas observações. É possível pensar que as duas polêmicas expressam choques de geração e visões diferentes sobre humor na televisão. Nada muito grave, mas surpreendente, porque não temos o hábito de ver humoristas discutindo publicamente, como pessoas normais, sem humor.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão
Tags: Casseta & Planeta, Chico Anysio, CQC, Danilo Gentili, Helio de la Peña, Marcelo Tas, Rafinha Bastos
14/10/2008 - 15:57
Ainda é cedo para balanços, mas é possível dizer, sem medo de errar, que o “CQC” foi a grande novidade na tevê brasileira em 2008. Isso não quer dizer muita coisa, diante do nível médio da produção nacional, mas o programa, indiscutivelmente, trouxe bom humor, inteligência e irreverência a um gênero, do qual o “Pânico” é seu mais famoso representante, caracterizado pela baixaria e o mau gosto.
Neste domingo, tive a oportunidade de ver dois repórteres do “CQC” em ação, Felipe Andreoli e Rafael Cortez, nos estúdios da Band, antes, durante e depois do debate que opôs Marta Suplicy a Gilberto Kassab. Talvez porque estivessem “em casa”, na emissora que exibe o seu programa, a turma do CQC estava mais contida do que costumamos ver na tevê. Mas o que realmente me surpreendeu foi constatar que parte da irreverência e da audácia dos repórteres da turma não é tão espontânea quanto sugere a edição final. Quem estava no estúdio da Band teve a oportunidade de ver a dupla Andreoli e Cortez ensaiar, gravar e regravar uma cena, antes de uma entrevista com o deputado Rui Falcão. A cena mostrava os dois repórteres conversando e, de repente, ambos tinham a mesma idéia: entrevistar Rui Falcão – que, “por acaso”, estava atrás deles. Na edição final, que foi ao ar nesta segunda-feira, a cena nem foi incluída – possivelmente porque ficou sem graça. Apenas a entrevista com Falcão foi exibida.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão
Tags: Band, CQC, Felipe Andreoli, Rafael Cortez