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26/03/2009 - 10:43

Mães, filhos e guerras: São Petersburgo é em qualquer lugar

“Não pode haver guerra sem mães”, diz Marina Bóndareva, uma das personagens-chave de “O Filho da Mãe”, o mais recente e comovente romance de Bernardo Carvalho. Marina milita no Comitê das Mães dos Soldados de São Petersburgo, uma organização humanitária, destinada a auxiliar, como diz o nome, mulheres russas em busca de seus filhos – presos, perdidos, desaparecidos ou mortos.

Um romance sobre mães e filhos na Rússia? O tema não causa espanto a quem acompanha a trajetória de Carvalho. O deslocamento territorial é um elemento essencial em sua prosa – uma espécie mesmo de bandeira, acredito, contra a literatura que se orgulha do seu caráter nacional, arraigada a brasileirismos ou regionalismos.   

Os narradores dos livros de Carvalho vêem-se, com frequência, diante de territórios desconhecidos, às vezes irreais, outras vezes fantasiados, sempre estranhos, surpreendentes, a descobrir. A novidade, em “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras, 206 págs., R$ 39), é que, diferentemente dos livros anteriores, o narrador não é um dos personagens do romance, mas uma voz em terceira pessoa.

Dois são os protagonistas desta quase ópera, ambientada numa temível São Petersburgo, no momento (2003) em que a Rússia volta a sufocar a república separatista da Tchetchênia: de um lado, o tchetcheno Ruslan, enviado pela avó à cidade com a intenção de salvá-lo da guerra; de outro, Andrei, filho de uma russa com um exilado político brasileiro, criado em Vladivostok, sete fusos horários à frente.

Não vou aqui descer a detalhes do entrecho, costurado com grande habilidade e algum suspense. Cabe dizer que Ruslan e Andrei vão protagonizar uma história de amor, subterrânea, claro, em meio às ruínas – “quando não há mais nada, há ainda o sexo e a guerra”, diz o narrador.

Ruslan e Andrei vão, também, cada um à sua maneira, acertar as contas com o passado, em particular, com suas mães. São histórias devastadoras, mas conduzidas com habilidade pelo narrador, sem cair na pieguice.

Ao mesmo tempo, Bernardo Carvalho eleva o tom ao descrever o novo estado policial russo, vigente desde o colapso do regime comunista. Ainda que sem ceder à tentação do “discurso” ou perder o domínio sobre o fluxo narrativo, essa “politização” do romance soa, para mim, como outra novidade em sua obra. 

Não deixa de ser irônico que este romance de peso tenha sido escrito a pedido de terceiros – uma encomenda, do projeto Amores Expressos, que implicava na obrigação de escrever uma história de amor ambientada em São Petersburgo. Carvalho, como tentei demonstrar, fez isso e muito mais, nesta história sobre mães, filhos e guerras. São Petersburgo é aqui, é em qualquer lugar, posso dizer, sem estragar em nada o prazer da leitura.
 
Em tempo: É sempre complicado escrever sobre o trabalho de um amigo, mas acabei de usar este blog para fazer isso. Em nome da objetividade, jornalistas devem evitar misturar razão e emoção no trabalho – motivo pelo qual não se recomenda que escrevam sobre pessoas próximas. Por outro lado, o blog é, por natureza, o espaço das manifestações subjetivas, pessoais. Um jornalista no comando de um blog, portanto, tem a faca e o queijo na mão – para o bem e para o mal. Espero ter conseguido falar, com justiça, do trabalho de Bernardo.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
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