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04/07/2009 - 08:50

Chico Buarque, o Google, a fofoca e Joäo Gilberto

À vontade, bem diferente da sua primeira participaçäo na Flip, em 2004, quando apenas leu trechos de um livro de Paul Auster, Chico Buarque deixou a famosa timidez de lado e deu um show na festa literária de Paraty de 2009. Falou sobre os mais variados assuntos, com humor e ironia, como se estivesse entre amigos, e näo diante de centenas de fäs. Ao lado de Milton Hatoum, autor de “Órfäos do Eldorado”, e do crítico Samuel Titan Jr., o autor de “Leite Derramado” se divertiu e nos divertiu. As melhores da noite:

Hatoum falou a primeira frase de efeito do encontro ao contar que escreveu a novela “Órfäos do Eldorado” por encomenda de uma editora inglesa. A primeira versäo do texto tinha mais do que o dobro do tamanho pedido. Recomeçou do zero. “Escrever de encomenda é horrível. Nunca mais farei nada de encomenda. Nem um bilhete”, disse, rindo.

O show de Chico começou com a explicaçäo sobre como foi escrever um livro, “Leite Derramado”, que lida com as memórias de um homem de 100 anos de idade. “Assim como nunca estive em Budapeste, antes de escrever o outro romance, nunca estive em 1928, onde passa ‘Leite Derramado’.”

Na sequência, falou sobre o prazer de ler e do trabalho cansativo de escrever. “Eu escrevo para ler. Escrever é uma chatice”, disse, com um sorrriso nos lábios.

As semelhanças entre “Órfáos do Eldorado” e “Leite Derramado” deram pano para manga e muitas brincadeiras. “Depois de ler o livro dele, pensei: Esse cara copiou meu livro”, brincou Chico. E Hatoum, depois de ler Chico: “Essa história eu contei para o Chico!”

Foi entáo que Chico revelou-se um mortal, como nós todos, e contou que, durante a leitura de “Órfáos do Eldorado”, foi várias vezes ao Google esclarecer dúvidas e entender detalhes. E ainda disse: “Tudo já estava no Google, do meu e do seu livro”, disse, para Hatoum. 

À vontade, Chico falou do pai, o historiador Sergio Buarque de Hollanda, autor de “Raízes do Brasil”. Contou que ele näo dava muita atençäo aos filhos e que gostava de uma boa fofoca. Ouvia o pai conversar com os amigos, em casa, e se divertia ouvindo-os contar casos saborosos ou picantes sobre os figuröes da época.

Por fim, Chico fez uma defesa apaixonada da música popular brasileira. Disse näo entender porque ela é vista como uma arte menor. “Sinceramente, näo sei se Guimaräes Rosa é mais importante que Joäo Gilberto”, provocou.

Também contou que, quando escreve, näo faz música, mas busca em cada frase a sonoridade correta. “Preciso sentir musicalmente cada frase”.

Encerrada a conversa, Samuel Titan Jr. avisou que Chico só poderia dar autógrafos por um tempo limitado. E o músico e escritor, muito à vontade, replicou: “Quem disse isso?” Foi a senha para o começo de uma tietagem explícita, que fez a alegria das fäs. 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
17/06/2009 - 10:38

Chico substitui Caetano em filme sobre os Mutantes

  

 

 

 

 

Há seis meses, quando “Loki” foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, escrevi no Último Segundo  
que aquela seria, possivelmente, a última oportunidade de assistir na tela grande o documentário sobre Arnaldo Baptista, o cérebro dos Mutantes.

“Primeiro longa-metragem produzido pelo Canal Brasil, ‘Loki’ caminha para se tornar um produto de exibição exclusiva na tevê fechada e em DVD”, escrevi em outubro de 2008. Os custos envolvidos no pagamento de direitos de exibição das quase 50 músicas, além dos respectivos direitos autorais, inviabilizariam a sua exibição em cinemas, disse então Paulo Henrique Fontenelle, diretor do filme.

Outro empecilho, observou o diretor na ocasião, seria a distribuição do filmes nos cinemas. “É complicado. No máximo, a gente consegue exibir duas cópias nos cinemas, uma no Rio e outra em São Paulo. O filme poderia fazer 100 mil espectadores. Na tevê, você faz isso numa única exibição”, disse Fontenelle.

Tudo mudou em pouco tempo. “Loki” foi escolhido pelo público tanto do Festival do Rio quanto da Mostra de São Paulo como o melhor filme de 2008. Mais que isso, as sessões do filme em diferentes festivais, sempre acompanhadas por muitas lágrimas e aplausos (tanto de contemporâneos dos Mutantes quanto de adolescentes), sinalizaram que o filme tinha um potencial a ser explorado. Uma campanha articulada por fãs lotou a caixa postal do Canal Brasil, com pedidos para a exibição do filme e ofensas à decisão de não mostrá-lo nos cinemas.

“A repercussão foi tão grande que a gente começou a ver como levar o filme para os cinemas”, conta agora Fontenelle. A primeira providência foi a negociação para pagamento dos direitos autorais das músicas ouvidas no filme. “Para regularizar tudo, gastamos mais R$ 80 mil”, conta o diretor. O valor quase duplica o investimento inicial na produção do documentário, que foi de cerca de R$ 110 mil.

Apenas uma cena musical foi excluída da versão que será exibida nos cinemas, a partir desta sexta-feira, 19 de junho. Ao longo da negociação, os produtores do filme não chegaram a um acordo com os detentores dos direitos de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Um clipe de dez segundos, com cenas da apresentação do músico no Festival da Record de 1967, foi cortado do filme. “Era impossível pagar o que eles estavam pedindo”, diz Fontenelle.
 
No lugar dele, o diretor inclui dez segundos de Nara Leão cantando “A Banda”, de Chico Buarque, no mesmo festival, um ano antes. Trata-se de uma troca repleta de ironia.

Como se sabe, a cordial rivalidade entre Chico e Caetano tem origem justamente nesses dois festivais. O sucesso da inocente marcha de Chico, vencedora do festival de 1966, tornou o compositor uma celebridade. No ano seguinte, o tropicalismo explodiria com as apresentações de Caetano (“Alegria, Alegria”) e Gilberto Gil (“Domingo no Parque”).

Para “Loki”, o filme, o Festival da Record de 1967 seria muito mais importante do que o de 1966, já que Arnaldo, Rita Lee e Os Mutantes, no papel da banda que acompanhou Gil, ganharam inédita projeção justamente a partir daquela apresentação.

“Graças a Deus, essa foi a única cena que o filme perdeu”, diz Paulo Fontenelle. “Estou muito feliz de colocar ‘Loki’ nos cinemas. A minha idéia, desde o início, era essa. Todas as decisões que tomei durante as filmagens foram pensando em exibi-lo na tela grande”, diz.

A distribuição de “Loki” ficou a cargo do próprio Canal Brasil, que fez um acordo com a rede Unibanco Artplex. Dessa forma, o filme estreia nesta sexta-feira em 17 salas de 14 cidades. No dia 18 de setembro, quando o Canal Brasil comemora 11 anos, o filme será exibido na tevê. E, possivelmente, no final do ano, ganhará as lojas no formato de DVD.

Veja o trailer do filme aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , , , , , , , , ,
24/05/2009 - 11:35

Três acréscimos visíveis e uma revisão sutil em ‘Budapeste’

Adaptar um romance para o cinema implica, sempre, em reescrever, reinterpretar, reinventar, acrescentar e suprimir partes em relação ao original. Mesmo quando a intenção é de reverência à obra, mudanças são inevitáveis.

É o caso do recém-lançado “Budapeste”, de Walter Carvalho, cuja matriz é o romance de Chico Buarque, que chega às telas com três acréscimos notáveis e uma alteração sutil em relação ao original.

A primeira novidade é a aparição da estátua dedicada ao “Escritor Desconhecido”, uma atração turística de Budapeste. Era como se o bronze tivesse pedido para entrar no filme – que conta a história, como se sabe, de um “ghost writer”, ou seja, um escritor que escreve livros para outras pessoas.

A estátua vai surgir em dois momentos. Numa cena, um grupo de turistas visita o bronze, tendo o ghost writer José Costa (vivido por Leonardo Medeiros) ao fundo. Em outra cena, a estátua aparecerá como um fantasma, a atormentar o protagonista do filme.

A segunda novidade, como contou Walter Carvalho a Luiz Zanin Oricchio, no Estadão de sexta-feira, foi a decisão de filmar o transporte de uma estátua de Lênin, desmontada, em pedaços, ao longo do rio Danúbio. Foi a maneira encontrada pelo diretor de localizar, no tempo, a Budapeste do romance – uma cidade “libertada” do regime comunista. “Com a estátua deu para filmar o rio sem recorrer a clichês visuais”, disse Carvalho.

As duas inclusões (por coincidência, duas estátuas) chamam a atenção pelo esforço em traduzir, explicar, imagens apenas sugeridas pelo livro. Tiram as sombras e lançam luz sobre o que talvez fosse somente sugestão do autor. No seu didatismo, eu acho, esvaziam as possibilidades de interpretação.

Um terceiro acréscimo em relação ao romance é uma espécie de piada-homenagem ao autor do livro. Chico Buarque faz uma ponta no filme, no papel de uma pessoa que pede autógrafo a José Costa, que acabara de lançar um livro chamado “Budapeste”. Nesse caso, é uma brincadeira que funciona bem, ao adicionar mais confusão ao universo de duplos e espelhos da história.

Deixei para o final, a mudança que o filme propõe ao romance. Ocorre logo na primeira cena – e é bem mais sutil que a inclusão das duas estátuas e a aparição de Chico. “Budapeste”, o filme, dá nova redação à mais famosa frase de “Budapeste”, o livro – destacada, inclusive, na capa: “Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio”, lê-se no romance. No filme, o narrador diz: “Fui parar em Budapeste…”

O duplo sentido da frase serviu de justificativa, à época do lançamento do livro, para muita crítica e mesmo chacota. Ao eliminá-la no filme, Carvalho parece ter agido com a mesma intenção que presidiu a inclusão das outras cenas: tornar “Budapeste” mais fácil, didático, sem ruídos.

Como quase sempre acontece, esta adaptação cinematográfica desidrata o romance. Talvez seja a única forma de levar um público maior aos cinemas. E sempre resta a esperança que o filme tenha o efeito de estimular a leitura.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
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