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14/08/2008 - 12:20

O dia em que torci por Camarões

Enviado pela “Época” para acompanhar a seleção brasileira de futebol nos Jogos Olímpicos de 2000, aterrissei em Sydney no dia em que a revista chegava às bancas, no Brasil, com uma notícia exclusiva, produzida pela equipe do Rio de Janeiro: a denúncia que Wanderley Luxemburgo, então técnico da equipe, era três anos mais velho do que apregoava – fato que o beneficiou quando jogador de futebol. Na linguagem dos boleiros, Luxemburgo era “gato”.

A seleção estava hospedada em um resort de luxo na região de Gold Coast, a 800 km de Sydney. O ambiente era péssimo. Além dos problemas de Luxemburgo, acossado por diferentes denúncias no Brasil (sua ex-secretária também o havia acusado de diversos crimes), o clima entre os jogadores e o técnico também não era bom. Na estréia, a seleção de Ronaldinho e Alex penou para vencer a Eslováquia por 2 a 1 no belíssimo estádio de críquete na cidade de Brisbane. Na segunda partida, a situação desandou: a seleção tomou de 3 a 1 da África do Sul, no mesmo estádio. Uma derrota histórica, ao final da qual Luxemburgo responsabilizou dois jogadores (o zagueiro Bilica e o lateral Baiano) pelo segundo gol africano. O terceiro jogo, magra e sonolenta vitória sobre o Japão por 1 a 0, habilitou a seleção a disputar as oitavas de final, contra Camarões.

Enquanto acompanhava a monótona rotina de treinos e jogos de baixa qualidade da seleção, além do mau humor permanente de Luxemburgo, acontecia, em Sydney, a mais espetacular olimpíada dos tempos modernos. Acompanhava o noticiário e pensava: “O que eu estou fazendo aqui, em Gold Coast?”

A partida contra Camarões foi inesquecível, por diversos motivos.

A seleção entrou em campo, em 23 de setembro de 2000, com Helton, Baiano, Fábio Bilica, Álvaro e Athirson; Fábio Aurélio, Marcos Paulo, Fabiano e Alex; Lucas e Ronaldinho. Lúcio, Roger e Geovanni também participaram da partida. O Brasil havia levado apenas jogadores com idade inferior a 23 anos, embora tivesse o direito, como hoje, de selecionar até três atletas mais velhos. Camarões, por exemplo, contava em seu elenco com o veterano Mboma, então com 29 anos, jogador do Parma, da Itália.

O estádio de críquete de Brisbane reuniu 37.321 espectadores, o maior público até então, para assistir a um show particular de Mboma. O atacante não fez uma jogada convencional nos 63 minutos em que permaneceu em campo. Além do gol, deu mais de um drible por baixo da perna de brasileiros, passou bolas de letra, usou a canela para iludir os zagueiros, fez o diabo (como Zidane, na partida contra o Brasil na Copa de 2006, em que deu até chapéu em Ronaldo).
 
O outro inimigo do Brasil no jogo foi a torcida. Encarados como os “underdogs”, os camaroneses contaram com forte apoio da maioria do público – o que só aumentou a partir dos 30 minutos do segundo tempo, quando Njitap foi expulso por fazer cera na cobrança de um lateral. A partir deste momento, os torcedores não apenas apoiavam Camarões como começaram a vaiar os jogadores do Brasil. Nos últimos 15 minutos do tempo normal, o juiz alemão Herbert Fandel expulsou ainda um segundo jogador africano, Nguimbat, e marcou uma falta a favor do Brasil, quase dentro da área, já nos acréscimos. Antes da cobrança da falta, numa confusão nunca bem explicada, Lucio acertou uma cabeçada em Roger, que só não degenerou em pancadaria dentro do campo devido à intervenção de Alex. Ronaldinho empatou a partida aos 48 minutos do segundo tempo, levando o jogo para a prorrogação.

Enquanto aguardavam o início do tempo extra, os nove jogadores de Camarões que restaram em campo fizeram um círculo em torno de Fandel e começaram a bater palmas para o juiz. Um gesto forte, carregado de ironia, que afetou a atuação de Fandel durante a prorrogação. Aos 8 minutos, Fabiano fez o gol que classificaria o Brasil, mas o juiz o anulou alegando um impedimento que não ocorreu. Incapaz de resolver um jogo de 11 contra 9 jogadores, o Brasil foi finalmente castigado, aos 8 minutos do segundo tempo, com um contra-ataque de Camarões, concluído para o gol por Mbami.

E aqui preciso confessar algo. No momento do gol de ouro de Camarões, que assisti ao lado do meu amigo José Geraldo Couto, levantei os braços, sorri e pensei: “Finalmente, vou para Sydney”. Ainda faltava uma semana para o fim dos Jogos Olímpicos. Mas é isso é outra história.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Memória Tags:
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