26/10/2009 - 10:54
Conhecido como Choque, o fotógrafo Adriano dedica-se a registrar o universo da pichação em São Paulo. É um dos maiores especialistas no assunto e, não por acaso, são seus os melhores depoimentos ao longo de “Pixo”, o documentário dos irmãos João Wainer e Roberto T. Oliveira, exibido pela primeira vez neste domingo, na Mostra de Cinema de São Paulo, com a presença de vários protagonistas do filme.
Choque explica que são três as motivações dos pichadores que escalam prédios e arriscam a vida para deixar suas assinaturas em locais de visibilidade na cidade: o prazer da aventura, o reconhecimento social e o protesto.
O primeiro ponto iguala pichação a esporte radical – a aventura de fazer algo proibido, escalar um prédio pelo lado de fora, como documenta “Pixo”, aterrorizante para quem olha do chão, seria equivalente, em termos de adrenalina liberada, a saltar de asa delta do alto de um morro, ou surfar uma onde gigantesca.
Em segundo lugar, quanto mais difícil o lugar pichado – o último andar de um prédio no centro de São Paulo, um trem em movimento ou a parede da Bienal de São Paulo –, maior o reconhecimento e valor do pichador entre os seus pares. Como mostra claramente “Pixo”, eles formam uma comunidade nada invisível, que se reúne em locais conhecidos para troca de experiências e informações.
Por último, a questão mais importante: a pichação é uma forma de expressão dessa comunidade, formada basicamente por jovens de baixa renda da periferia de São Paulo. Colocar o seu nome de guerra, a sua marca, nos muros do centro da cidade, é a maneira de dizer que existem. Para nós, eles apenas sujam a cidade; para eles, a pichação é a forma de se fazer ouvir.
Mal vistos e isolados, os pichadores paulistanos conseguiram atrair ainda mais antipatia para a causa em 2008, ao atacarem, em três momentos diferentes, a galeria Choque Cultural, o prédio da Bienal e o Centro Universitário Belas Artes. Nas três ocasiões, grupos de pichadores invadiram os espaços e aplicaram tinta sobre trabalhos alheios e danificaram o ambiente.
Indefensáveis, porque afetaram realizações artísticas alheias, além de violarem a legislação, tais ataques são mal explicados por “Pixo”. O ataque à galeria Choque Cultural, por exemplo, explicita uma questão que aparece em diferentes momentos do documentário, mas nunca é esclarecida – a rivalidade entre pichadores e grafiteiros.
Reconhecido socialmente como uma forma de arte, o grafite tem alguma semelhança com a pichação. Grafiteiros são, em sua maioria, pessoas de origem social mais humilde, da periferia, que escolheram pintar em espaços públicos. O que era uma violação legal – desenhar num muro – passou, com o tempo, a ser entendido como uma forma de arte, e muitos grafiteiros hoje são reconhecidos como artistas talentosos.
Diferentes grafiteiros – brasileiros e estrangeiros – hoje expõem seus desenhos em galerias de arte e museus. Os irmãos Gustavo e Otavio Pandolfo, OsGemeos, são apenas os mais conhecidos brasileiros num time que tem vários representantes. Alvo dos ataques dos pichadores, a galeria Choque Cultural, não por acaso, é um espaço que exibe trabalhos de grafiteiros.
Diferentemente do trabalho dos “rivais”, as expressões dos pichadores não são reconhecidas como forma de arte – o que pode ajudar a explicar os ataques de 2008 e também as referências irônicas feitas ao longo de “Pixo” à turma do grafite. O filme, porém, evita afrontar abertamente esta questão.
O documentário de Wainer e Oliveira dá vida aos pichadores, humaniza-os, expõe as suas motivações. Apenas por isso, já é um filme de referência para qualquer discussão mais aprofundada que se pretenda sobre o assunto. “Pixo” também evita qualquer julgamento moral sobre os seus personagens – outra qualidade, na minha opinião, já que não precisamos ir ao cinema para ouvir uma condenação aos pichadores.
Ainda há três sessões programadas de “Pixo. Sábado (31), às 20h50, na Matilha Cultural; terça-feira (3/11), às 18h40, no Unibanco Artplex; e quarta-feira (4), àsd 21h15, no Cine Bombril. Mais informações, no site da Mostra.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, São Paulo
Tags: Bienal, Choque Cultural, grafite, João Wainer, OsGemeos, pichação, Pixo, Roberto T. Oliveira
12/07/2009 - 12:31
Um belo dia a francesa Sophie Calle abriu o computador e, entre os novos e-mails, havia uma mensagem de um namorado comunicando o fim da relação. Confuso, ambíguo, mal escrito, o texto segue a clássica cartilha do rompimento amoroso: “a culpa não é sua, é minha”, insiste o autor do e-mail.
“Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos”, escreve o cara. “Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável”, prossegue. “Cuide de você”, encerra.
Sem saber como responder. Sophie Calle resolveu fazer algo a que tem se dedicado com sucesso já há 30 anos: transformar a vida cotidiana, inclusive a sua, em objeto da arte. Ela convidou 107 mulheres, das mais diferentes profissões, a interpretarem a carta.
Uma juíza viu no texto uma honesta “rescisão de contrato”. Uma revisora apontou erros, redundâncias e construções mal feitas. A criminologista concluiu que o autor da carta é “elegante, charmoso e sedutor”, mas também “orgulhoso, narcisista e egoísta”. Uma adolescente foi sucinta em sua interpretação: “Ele se acha!”. A delegada de polícia não viu qualquer crime na carta: “Afinal, não nos apaixonamos por nossa própria conta e risco?”
Sophie Calle fotografou as diferentes mulheres que interpretaram a carta e fez vídeos, nos quais outras pessoas, como as atrizes Maria de Medeiros e Victoria Abril, apresentam diferentes leituras do documento.
Tudo isso reunido integra a exposição “Cuide de Você”, exibida em 2007 na Bienal de Veneza, e depois na França, Canadá e Estados Unidos. Desde sábado, 11 de julho, e até 7 de setembro, está em exibição em São Paulo, no Sesc Pompéia. Entre 22 de setembro e 22 de novembro, a exposição poderá ser vista no MAM da Bahia, em Salvador.
Artista performática, Sophie Calle tem se dedicado a diferentes experiências, mais ou menos controladas, ao estilo de “Cuide de Você”, desde o início de sua carreira. Em 1979, seguiu um desconhecido pelas ruas de Paris, conheceu-o, depois continuou seguindo-o numa viagem a Veneza, enquanto documentava todo o processo com fotos. No mesmo ano, escolheu ao acaso 28 pessoas para dormir na sua cama, em turnos consecutivos de oito horas, por uma semana, fotografando-os.
Em duas ocasiões diferentes pediu à mãe que contratasse um detetive particular para segui-la, sem que ela soubesse, e criou exposições com as fotos e relatórios do investigador. Uma versão desse trabalho foi exibida na 28ª Bienal de São Paulo, em 2008.
Antes de inaugurar a exposição no Sesc, na sexta-feira, 10, Sophie Calle participou da 7ª Festa Literária de Paraty, numa mesa intitulada “Entre quatro paredes”. Adivinhe quem dividiu a mesa com ela? O escritor Grégoire Bouiller, autor de “O Convidado Surpresa” (CosacNaify), recém-lançado, ex-namorado de Calle e, “por acaso”, autor da carta de rompimento que deu origem à exposição “Cuide de Você”.
Na véspera do debate, que seria o primeiro encontro entre os dois desde o e-mail de rompimento, Bouiller e Calle foram vistos dividindo uma mesa, animadíssimos, num restaurante em Paraty. Durante o debate literário, o escritor defendeu o direito de dar um pé na bunda na namorada. “Não é proibido dar um fora em alguém”, disse. “Sei que isso provoca dor, mas todo mundo tem o direito de amar alguém e deixar de amar”.
Irônica, Sophie Calle respondeu: “Mas o e-mail terminava com a frase ‘cuide de você’. E você sabe que eu sei me cuidar”. A exposição em cartaz em São Paulo mostra que a artista tem razão.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura
Tags: Bienal, Cuide de Você, exposição, Flip, Paraty, Sesc Pompeia, Sophie Calle
04/11/2008 - 14:30
Diálogo surreal na manhã desta terça-feira na Bienal de São Paulo. Eu havia acabado de entrevistar uma “educadora”, nome dado aos monitores que dão informações aos visitantes, quando perguntei seu nome. Ela disse que não tinha autorização para dar entrevista. “É melhor você ver com a Jussara se pode sair meu nome”, ela pediu.
Ela estava se referindo a Jussara Fonseca, coordenadora de Ação Educativa, mas quem apareceu em seu socorro foi Cristiane Alves, supervisora dos educadores no período da manhã. Expliquei a Cristiane que eu havia entrevistado uma educadora e gostaria de citá-la na reportagem que iria escrever.
- Ela não está autorizada a dar entrevistas. Você a entrevistou?
- Eu perguntei a ela sobre a performance do Maurício Ianês e ela me deu explicações.
- Então não foi uma entrevista. Foi um atendimento.
- Tudo bem. Mas preciso saber o nome dela para publicar na reportagem.
- Mas ela não está autorizada a dar entrevistas. Para entrevistas, você deve procurar a assessoria de imprensa.
- Mas eu já a entrevistei. Ela me explicou que “essa Bienal tem uma proposta: fazer pensar”.
- Então vamos considerar que foi um atendimento, não uma entrevista. Aí, tudo bem. Pode anotar o nome dela.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura
Tags: Bienal, Mauricio Ianês, nu, performance