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23/10/2009 - 13:21

Descendo o rio Tietê com o Teatro da Vertigem

Mostra SeloConhecido por suas montagens ousadas e originais, longe dos palcos tradicionais, o Teatro da Vertigem, dirigido por Antonio Araujo, já apresentou espetáculos em uma igreja (“O Paraíso Perdido”), num hospital (“O Livro de Jô”) e numa prisão (“Apocalipse 1.11”).

Nenhuma encenação foi tão arrojada, no entanto, e exigiu tanto do grupo, quanto “BR3”, que se passa dentro do fétido rio Tietê e às suas margens, em São Paulo. A montagem consumiu um longo período de preparação, com laboratórios na favela Brasilândia, em São Paulo, e uma viagem da companhia a Brasília e Brasiléia, no Acre. Estes três locais, todos iniciados com as letras “BR”, formam o eixo central da peça, cuja dramaturgia foi desenvolvida pelo escritor Bernardo Carvalho.

BR3 vertigem“BR3” estreou em fevereiro de 2006, com a ambição de fazer uma longa temporada, mas ficou apenas dois meses e meio em cartaz, em função do rompimento do contrato com o dono do barco que conduzia o público pelo rio, e onde se passavam várias cenas da peça. O Vertigem ainda encenou “BR3” na Baia de Guanabara, no Rio de Janeiro, por um breve período.

A frustração pela acidentada trajetória do espetáculo é compensada, ao menos em parte, pelo trabalho do cineasta Evaldo Mocarzel. Jornalista e documentarista, diretor do premiado “À Margem da Imagem”, Mocarzel registrou uma das encenações de “BR3” e, de quebra, ainda realizou um documentário sobre a montagem.

Mesmo para quem assistiu a peça, no rio Tietê, o filme de Mocarzel oferece atrativos. Com várias câmeras, ele registra belíssimas imagens e ângulos que o público, no barco que corria o rio, não teve a oportunidade de ver. Já o documentário, com os depoimentos de todos os envolvidos na montagem, do diretor aos técnicos, expõe o processo de trabalho do Vertigem.

Em alguns depoimentos, especialmente os de Antonio Araujo, Bernardo Carvalho e de alguns atores, somos capazes de sentir as tensões envolvidas no corajoso percurso do Vertigem. O trabalho de Mocarzel resulta de grande importância pelo registro da montagem e pelo esforço de entender os seus meandros.

Nesta sexta-feira, será a única oportunidade de ver os dois filmes encadeados. Às 17h20, o documentário será exibido no MIS e, na sequência, às 19h, passa a montagem da peça. Também estão programadas sessões separadas dos dois filmes. No dia 31, às 14hs, no HSBC Belas Artes, será exibida a peça. E no dia 3, às 13h30, no Espaço Unibanco, o documentário.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , ,
03/07/2009 - 18:07

Um pouco de pimenta: Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho

Como outras festas literárias, a de Paraty é um local mais para divulgaçäo e promoçäo de livros e escritores do que propriamente para debates profundos e confrontos de idéias. A natureza do evento é festiva – e essa é uma das suas principais atraçöes. A outra é o cenário da festa – a encantadora Paraty.

De certa forma, a mesa que abrigou o escritor afegäo Atiq Rahimi e o brasileiro Bernardo Carvalho acrescentou uma pimenta a este clima festivo. Intitulado “O Avesso do Realismo”, e mediado pela crítica Beatriz Resende, o encontro propiciou o confronto de duas visöes muitos opostas sobre literatura.

Educado em francês e radicado na França, Rahimi defendeu a idéia de que a literatura é universal. Contou do seu encanto, na infância, no Afeganistäo, ao ler os clássicos franceses e defendeu: “O escritor está condenado a ultrapassar fronteiras, a ser errante.”

Carvalho imediatamente rebateu, falando da resistência de diferentes culturas nacionais hegemônicas em aceitarem literaturas de outros países. Também defendeu a posiçäo que a literatura que interessa näo é a universal, mas a particular, que surpreende. “Na arte tem coisas mais interessantes que os bons sentimentos”, disse, arrancando aplausos.

O afegäo sentiu o golpe e recorreu ao francês Roland Barthes, para quem “sempre há um desastre pessoal que nos leva a desastres universais”. Em seguida, disse: “Näo é uma questäo de bons sentimentos, mas projetar-se na sociedade. Falo das minhas próprias feridas.”

Beatriz Resende propôs entäo uma questäo sobre o tema da guerra, presente tanto nos romances de Rahimi quanto no mais recente de Carvalho, “O Filho da Mäe”, passado na Rússia e na Tchechênia. O brasileiro contou que sempre se impressionou com uma frase do cineasta Jean-Luc Godard, para quem “se o mundo fosse governado pelas mulheres, näo haveria guerra”. “Náo é verdade”, disse Carvalho. “O amor incondicional é a origem das guerras. Quem ama também mata. Defendendo os seus filhos”.

Rahimi contou de seu retorno ao Afeganistäo, em 2002, procurando as suas “pegadas”, sem encontrar nada. “Tudo acaba. Descobri essa energia quando voltei. É essa idéia que dá energia às pessoas para viver.”

Carvalho falou da descoberta, em suas viagens, do medo. “Descobri que o medo é um motor importante da minha literatura. O medo distorce a realidade”, explicou.

Um encontro, enfim, mais de desencontros do que encontros, mas interompido pelo tempo. A brevidade do evento näo permitiu que as divergências evoluíssem para um debate.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
26/03/2009 - 10:43

Mães, filhos e guerras: São Petersburgo é em qualquer lugar

“Não pode haver guerra sem mães”, diz Marina Bóndareva, uma das personagens-chave de “O Filho da Mãe”, o mais recente e comovente romance de Bernardo Carvalho. Marina milita no Comitê das Mães dos Soldados de São Petersburgo, uma organização humanitária, destinada a auxiliar, como diz o nome, mulheres russas em busca de seus filhos – presos, perdidos, desaparecidos ou mortos.

Um romance sobre mães e filhos na Rússia? O tema não causa espanto a quem acompanha a trajetória de Carvalho. O deslocamento territorial é um elemento essencial em sua prosa – uma espécie mesmo de bandeira, acredito, contra a literatura que se orgulha do seu caráter nacional, arraigada a brasileirismos ou regionalismos.   

Os narradores dos livros de Carvalho vêem-se, com frequência, diante de territórios desconhecidos, às vezes irreais, outras vezes fantasiados, sempre estranhos, surpreendentes, a descobrir. A novidade, em “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras, 206 págs., R$ 39), é que, diferentemente dos livros anteriores, o narrador não é um dos personagens do romance, mas uma voz em terceira pessoa.

Dois são os protagonistas desta quase ópera, ambientada numa temível São Petersburgo, no momento (2003) em que a Rússia volta a sufocar a república separatista da Tchetchênia: de um lado, o tchetcheno Ruslan, enviado pela avó à cidade com a intenção de salvá-lo da guerra; de outro, Andrei, filho de uma russa com um exilado político brasileiro, criado em Vladivostok, sete fusos horários à frente.

Não vou aqui descer a detalhes do entrecho, costurado com grande habilidade e algum suspense. Cabe dizer que Ruslan e Andrei vão protagonizar uma história de amor, subterrânea, claro, em meio às ruínas – “quando não há mais nada, há ainda o sexo e a guerra”, diz o narrador.

Ruslan e Andrei vão, também, cada um à sua maneira, acertar as contas com o passado, em particular, com suas mães. São histórias devastadoras, mas conduzidas com habilidade pelo narrador, sem cair na pieguice.

Ao mesmo tempo, Bernardo Carvalho eleva o tom ao descrever o novo estado policial russo, vigente desde o colapso do regime comunista. Ainda que sem ceder à tentação do “discurso” ou perder o domínio sobre o fluxo narrativo, essa “politização” do romance soa, para mim, como outra novidade em sua obra. 

Não deixa de ser irônico que este romance de peso tenha sido escrito a pedido de terceiros – uma encomenda, do projeto Amores Expressos, que implicava na obrigação de escrever uma história de amor ambientada em São Petersburgo. Carvalho, como tentei demonstrar, fez isso e muito mais, nesta história sobre mães, filhos e guerras. São Petersburgo é aqui, é em qualquer lugar, posso dizer, sem estragar em nada o prazer da leitura.
 
Em tempo: É sempre complicado escrever sobre o trabalho de um amigo, mas acabei de usar este blog para fazer isso. Em nome da objetividade, jornalistas devem evitar misturar razão e emoção no trabalho – motivo pelo qual não se recomenda que escrevam sobre pessoas próximas. Por outro lado, o blog é, por natureza, o espaço das manifestações subjetivas, pessoais. Um jornalista no comando de um blog, portanto, tem a faca e o queijo na mão – para o bem e para o mal. Espero ter conseguido falar, com justiça, do trabalho de Bernardo.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
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