Um pouco de pimenta: Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho
Como outras festas literárias, a de Paraty é um local mais para divulgaçäo e promoçäo de livros e escritores do que propriamente para debates profundos e confrontos de idéias. A natureza do evento é festiva – e essa é uma das suas principais atraçöes. A outra é o cenário da festa – a encantadora Paraty.
De certa forma, a mesa que abrigou o escritor afegäo Atiq Rahimi e o brasileiro Bernardo Carvalho acrescentou uma pimenta a este clima festivo. Intitulado “O Avesso do Realismo”, e mediado pela crítica Beatriz Resende, o encontro propiciou o confronto de duas visöes muitos opostas sobre literatura.
Educado em francês e radicado na França, Rahimi defendeu a idéia de que a literatura é universal. Contou do seu encanto, na infância, no Afeganistäo, ao ler os clássicos franceses e defendeu: “O escritor está condenado a ultrapassar fronteiras, a ser errante.”
Carvalho imediatamente rebateu, falando da resistência de diferentes culturas nacionais hegemônicas em aceitarem literaturas de outros países. Também defendeu a posiçäo que a literatura que interessa näo é a universal, mas a particular, que surpreende. “Na arte tem coisas mais interessantes que os bons sentimentos”, disse, arrancando aplausos.
O afegäo sentiu o golpe e recorreu ao francês Roland Barthes, para quem “sempre há um desastre pessoal que nos leva a desastres universais”. Em seguida, disse: “Näo é uma questäo de bons sentimentos, mas projetar-se na sociedade. Falo das minhas próprias feridas.”
Beatriz Resende propôs entäo uma questäo sobre o tema da guerra, presente tanto nos romances de Rahimi quanto no mais recente de Carvalho, “O Filho da Mäe”, passado na Rússia e na Tchechênia. O brasileiro contou que sempre se impressionou com uma frase do cineasta Jean-Luc Godard, para quem “se o mundo fosse governado pelas mulheres, näo haveria guerra”. “Náo é verdade”, disse Carvalho. “O amor incondicional é a origem das guerras. Quem ama também mata. Defendendo os seus filhos”.
Rahimi contou de seu retorno ao Afeganistäo, em 2002, procurando as suas “pegadas”, sem encontrar nada. “Tudo acaba. Descobri essa energia quando voltei. É essa idéia que dá energia às pessoas para viver.”
Carvalho falou da descoberta, em suas viagens, do medo. “Descobri que o medo é um motor importante da minha literatura. O medo distorce a realidade”, explicou.
Um encontro, enfim, mais de desencontros do que encontros, mas interompido pelo tempo. A brevidade do evento näo permitiu que as divergências evoluíssem para um debate.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: Atiq Rahimi, Bernardo Carvalho, Flip, Paraty


