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30/09/2008 - 16:21

Adam Sun e a arte da checagem

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Acabo de saber da morte de Adam Sun. Tinha 55 anos. Foi um jornalista especial, dedicado a um ofício sobre o qual ninguém ouve falar e, menos ainda, almeja realizar. Aliás, a palavra que designa a função que realizava com inigualável talento, a de checador, nem está dicionarizada.

 “Aurélio” e “Houaiss” registram o verbo checar como sinônimo de conferir, e o trabalho de checagem como o ato de checar, mas ignoram a nobre função que Adam ocupou nas revistas “Veja” (1992-1998), “Época” (1998-2002) e “Piauí” (desde o lançamento, há dois anos).

Conheci-o bem na “Época”, onde montou a equipe de checagem da revista. Toda reportagem era enviada aos checadores antes de ser publicada. Adam e sua equipe passavam a madrugada conferindo grafias de nomes, datas, informações, tudo que pudesse ser alvo de erros. Para facilitar o trabalho, deveríamos deixar com eles todo o material que havíamos utilizado ao longo da apuração da matéria. No início, muitos jornalistas faziam isso a contragosto, mas com o tempo não houve quem não percebesse que o trabalho de Adam e sua equipe só melhorava os textos.

Mais que isso, fui percebendo que Adam era o co-autor invisível de muitas matérias. E não apenas daquelas que ele salvou do ridículo, apontando erros grosseiros antes da publicação. Quando um texto que eu escrevia passava incólume pelo seu crivo (coisa rara de acontecer, aliás, pois ele sempre achava alguma coisa errada), eu podia dormir tranqüilo, certo que aquela reportagem estava “redonda”. 

Se o ceticismo já é uma qualidade importante a qualquer jornalista, a um checador é objeto de primeira necessidade. Adam era um cético radical. Não acreditava em nada que lesse até checar com os próprios olhos se a informação estava correta. No ano passado, na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fez uma ótima palestra cujo teor está disponível na Internet. Ensina ele:

Por que erros desse tipo ocorrem? Além da ignorância, desinformação e incompetência, contribuem também a desatenção e a ausência de releitura para conferir os dados, em função do prazo apertado de fechamento. Outro agravante para a ocorrência de erros é a falta de certo ceticismo do jornalista em relação à informação dada pelo entrevistado

Nascido em Taiwan, Adam fez uma nova tradução, diretamente do chinês, do clássico “A Arte da Guerra”, do general chinês Sun Tzu, publicado em 2006 pela Conrad.

 

Atualizado em 11 de novembro de 2008, depois da leitura do obituário de Adam na revista “Piauí”.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: , ,
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