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09/06/2009 - 09:51

Crônica: o gênero literário preferido para falar de futebol

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Eis um mistério que persegue – já há meio século – críticos literários, escritores e boleiros fanáticos: por que o Brasil ainda não produziu um grande romance sobre o esporte mais popular do País?

Há algumas experiências de escritores que, tratando do futebol, se aventuraram pelo conto. “Maracanã Adeus”, de Edilberto Coutinho, talvez seja o mais famoso trabalho no gênero – 11 contos “futebolísticos”, que dão certa unidade ao projeto.

Milton Pedrosa, autor da pioneira coletânea “Gol de Letra”, lançada em 1968, foi também um dos primeiros a se render ao fato de que o esporte sempre atraiu grandes cronistas, mas despertou pouco interesse de romancistas e contistas.

Relíquia hoje encontrada apenas em sebos, “Gol de Letra” foi lançado por uma editora criada com o objetivo de publicar exclusivamente livros sobre futebol, a Livraria Editora Gol, um empreendimento que naturalmente não prosperou, reforçando o mito de que esse produto – livro sobre futebol – não vende.

Quase 20 anos depois de Pedrosa, Flavio Moreira da Costa entrou em campo com a missão de organizar um livro de contos sobre futebol. “Não existiam contos sobre futebol? Muito simples, inventa-se”, escreveu ele, anunciando que encomendou textos literários sobre o assunto a diferentes escritores brasileiros (Plínio Marcos, Rubem Fonseca, Sergio Sant´Anna, Marcos Rey, entre outros), com resultados, como sempre ocorre em coletâneas, muito variados.

O esforço de Flavio Moreira da Costa resultou num livro que, curiosamente, foi encorpando com o tempo. A primeira edição, de 1986, chamava-se “Onze em Campo” (editora Francisco Alves). Às vésperas da Copa de 1998, o livro evoluiu para “Onze em Campo e um Banco de Primeira” (editora Relume Dumará), transformando-se, pouco antes da Copa na Alemanha, em 2006, em “22 Contistas em Campo” (Ediouro).

Para conseguir montar dois times inteiros na mais recente edição, Costa foi obrigado a convocar autores estrangeiros – o recém-falecido escritor uruguaio Mario Benedetti abre a seleção, que conta também com um texto do inglês Patrick Kennedy, considerado autor do primeiro conto sobre futebol, e do pioneiro, na América Latina, uruguaio Horacio Quiroga.

Essa longa introdução vem a propósito do lançamento, quase simultâneo, de mais dois livros que tentam casar literatura e futebol. “Passe de Letra”, de Flávio Carneiro (Rocco, 172 págs., R$ 29,50), reúne textos publicados pelo autor no jornal literário “Rascunho”. O segundo esforço é “A Cabeça do Futebol” (Casa das Musas,166 págs., R$ 25), organizado por três jornalistas apaixonados por futebol – Carlos Magno Araujo, Samarone Lima e Gustavo de Castro.

Ambos os projetos reforçam uma idéia já cristalizada no mundo literário – para tratar de futebol, os escritores brasileiros se sentem mais à vontade na crônica, um gênero híbrido, que mistura escrita jornalística com ficção.

José Lins do Rego, Nelson Rodrigues, Mário Filho são os nomes sempre lembrados – e estudados – quando se fala deste casamento entre crônica e futebol. Muitos outros merecem ser citados, e os dois livros recém-lançados reforçam esta impressão.

As crônicas de “Passe de Letra”, em sua maioria, misturam lembranças da infância do autor em Goiânia com personagens do mundo do futebol. Ainda assim, Carneiro não se furta a refletir sobre o grande tema – futebol e literatura – em alguns textos. “Há algo que liga as regras do futebol às regras da literatura. São ambas da mesma natureza, digamos assim. São feitas para permitir a entrada do imponderável. Pense na regra do impedimento”, propõe, antes de concluir: “No futebol, como na literatura, tudo depende de como se lê”. Em outro texto, observa, sagaz, que, assim como o leitor diante de um livro, há três tipos de torcedor de futebol: “o que nega, o que afirma e o que desconfia”.
 
“A Cabeça do Futebol” não enfrenta abertamente a questão futebol x literatura, mas oferece a 25 autores a possibilidade de pensar livremente sobre um tema geral – a vivência de torcedor. Ao longo de diferentes reflexões sobre este tema, quase sempre em crônicas, muitos escritores chegam ao gol.

É o caso de Samarone Lima, nome de craque do Fluminense, autor de uma crônica deliciosa sobre o dia em que, hospedado num albergue em Buenos Aires, levou o filho dos donos, um menino francês de 7 anos, para assistir uma partida entre Velez Sarsfield e Racing no estádio. Ou da escritora Elianne Diz de Abreu, que arrisca-se numa raríssima ficção de conteúdo erótico tendo o futebol como pano de fundo.

Correndo o risco de cometer injustiças, destaco ainda Carlos Magno Araújo, cujo texto relembra uma partida especial, Ceub x América (RN), em que se protagonizou o histórico duelo entre Fio Maravilha, atuando pela equipe brasilense, e Hélcio Jacaré, o craque do time de Natal. Um jogo sem importância alguma, mas que, 30 anos depois, Araújo (ainda bem) não consegue esquecer.  

Chamo a atenção, por fim, para Gustavo de Castro, que conta uma bela história do fascínio de um pequeno fã por um craque em final de carreira, Klecius Henrique, relatando as aventuras de um nordestino apaixonado por futebol, rock e mulheres em São Paulo, e Rubens Leme Filho, autor de uma ode a Geovani, craque coadjuvante num Vasco que tinha Roberto e Romário.

“A Cabeça do Futebol” será lançado em São Paulo nesta quarta-feira, 10 de junho, às 19h30, na Livraria Cultura (shopping Villa-Lobos).

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, Esporte Tags: , , , , , , , , , ,
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