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10/09/2009 - 11:21

Quando Shakespeare invade o automobilismo

De todos os esportes, o automobilismo talvez seja aquele em que é maior a necessidade de controlar a paixão e demonstrar frieza. Um piloto que se deixa levar pela emoção não coloca apenas uma corrida em jogo, mas a própria vida – o que o diferencia tanto de um tenista quanto de um jogador de futebol, por exemplo, cuja perda de controle pode ocasionar, no máximo, uma derrota.

Hans Ulrich Gumbrecht, em “Elogio da Beleza Atlética” (Companhia das Letras, 2007), observa que os grandes pilotos se diferenciam dos demais por dois aspectos. O primeiro é a capacidade de compreenderem a máquina que os leva pelas pistas. Esse talento é fruto de conhecimento mecânico e intuição. Em uma palavra, a capacidade especial de fazer o “acerto” do carro.

O outro indicador fundamental de desempenho que o automobilismo exige dos pilotos, lembra Gumbrecht, é a frieza. “Eles precisam ser capazes de ficar perdidos, por horas, na intensidade da concentração. Precisam manter a tranqüilidade apesar da constante ameaça de morte – uma tensão que só se dissipa quando cruzam a linha de chegada”.

Com Gumbrecht em mente, é possível entender um detalhe tão fascinante quanto mórbido da saga envolvendo o piloto Nelsinho Piquet, seu pai, o tricampeão mundial Nelson Piquet, e o empresário Flavio Briatore. Em qual outro esporte um atleta teria a frieza de colocar em risco a própria vida para obter benefícios? Muitos atletas já se acidentaram e mesmo morreram praticando esportes, mas não conheço nenhum caso em que um esportista, friamente, provocou uma situação que colocava a sua integridade física em risco.

O que Gumbrecht não analisa em seu livro é a dimensão shakespeariana deste episódio. A julgar pelo que o Grande Prêmio relatou ontem e hoje sobre o caso, estamos diante de uma história não apenas de dolo, mas de vingança. Diferentemente de Hamlet, que quer vingar a morte do pai, aqui vemos um pai em busca da vingança que fará justiça ao filho, supostamente lesado depois de colocar a própria vida em risco em nome de um empresário – aparentemente – ingrato.

Trata-se, enfim, de uma história que nem o mais apaixonado fã do automobilismo poderia um dia ter pensado. Mas Shakespeare imaginou.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , ,

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37 comentários para “Quando Shakespeare invade o automobilismo”

  1. Karina disse:

    Esse episódio não me espanta vindo da família Piquet. Você escreve bem, parabéns!!!

  2. Roberto disse:

    A ideia central do texto é totalmente equivocada, uma vez que a célula de sobrevivência de “fibra de carbono” e kevlar resiste impactos provocados a 400km/h, o acidente de “Nelsinho”, não passou de uma manobra típica de mais um Dick vigarista, em momento algum houve risco, apenas mais uma manobra de um esporte típico de uma “Nobreza Medieval” onde não existe o mínimo princípio ético… apenas vigaristas em busca de fama, poder e dinheiro, inclusive o “ousado Airton Sena”.

  3. Roberto disse:

    Com toda admiração e respeito é claro!!!

  4. Dorita Grinsburg disse:

    Prezado, Li seu texto axatamente pela menção a Shakespeare na chamada, mas, me perdoe, não vejo como se comparar a complexidade dos dilemas de Hamlet, “…sofrer pedras e setas com que a fortuna enfurecida nos alveje, ou insurgirnos contra um mar de provações e em luta por-lhes fim?”
    Até fui ler a história, realmente lamentável do Nelsinho, mas deixe o Bardo de fora disso, pois ele é infinitamente superiora esta trata idiota.
    Boa sorte!
    Dorita

  5. Paulo Paranaguá disse:

    Sr. Mauricio Stycer :
    Vou fazer a mesma pergunta para outros responsáveis por blogs.O senhor acredita que num país como o nosso, já com tantos problemas culturais, a dominação dos comentários contidos nos blogs por pessoas semi-alfabetizadas em sua grande maioria compromete o futuro da internet ? Isso porque a divulgação da palavra escrita hoje acessível ao grande público é por aí que se faz. Esse fenômeno não levaria a uma degradação cada vez maior da comunicação verbal ou da comunicação de um modo geral ? E da cultura consequentemente ?

  6. Carlos Alberto da Silva Dias disse:

    Eu acho estranho certos comentários sobre certas pessoas, todo mundo sabe que o Piquet pai nunca gozou de bom trânsito na midia brasileira, estão fazendo um sensacionalismo com este assunto e esquecem outros muito, muito menos éticos, que, pelos envolvidos, não mereceram repercussão, vamos a eles:
    Senna e Prost > Claramente, todos viram que o Senna provocou a colisão para ganhar o campeonato, na época, culparam até o Prost, lembrem-se que o Senna sempre foi o queridinho da Globo, aquela que manipula, encabresta e encaminha opiniões e conclusões.
    Barrichelo, ao vivo, diante de milhões de telespectadores no mundo, freia a carro na reta de chegada, deixa o Schumi passar e assegurar o titulo, qual a diferença entre sua atitude e a do Nelsinho, para mim a do Barrica foi muito mais desonrosa, pois foi na cara dura e ao vivo para quem quizesse ver.
    GP Brasil, Felipe Massa lidera a prova desde o inicio, na parte final, deixa Kimi passar e garantir o titulo, qual a diferença entre sua atitude e a do Nelsinho ?
    O problema ou a solução é saber se voce é queridinho ou odiadinho pela midia, dependendo deste sentimento, voce vira bandido herói ou bandido vilão.
    Eu não sou a favor de atitudes que sujem qualquer tipo de esporte, doping, manipulação de resultados etc, porém, defendo a punição de todos e não apenas de alguns.

  7. [...] Quando Shakespeare invade o automobilismo | Mauricio Stycer colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/09/ – view page – cached De todos os esportes, o automobilismo talvez seja aquele em que é maior a necessidade de controlar a paixão e demonstrar frieza. Um piloto que se deixa levar — From the page [...]

  8. Guilherme disse:

    Você realmente acha que o Nelsinho colocou a integridade física dele em risco? Nada disso. O que ele fez foi friamente calculado e planejado. Um vídeo mostra inclusive ele treinando a batida girando no mesmo local antes da prova. A segurança que a F1 proporciona ao piloto hoje é muito grande e ele sabia que ao provocar aquele tipo de batida não estaria correndo risco algum. Não seja ingênuo.

  9. Ricardo disse:

    Desculpe-me, mas o automobilismo é, de longe, o esporte mais hipócrita que existe! Prost bateu em Senna propositalmente para conquistar um título. Senna também já bateu em Prost propositalmente para ganhar um título. Schumacher fez isso 3 vezes! Mas só levou o título dessa forma 2 vezes. Na terceira, se deu mal e quase foi punido duramente. Em todos esses casos há risco de morte. Não há arrependimentos nem reflexões de consciência na F1. Só a busca fria pelo lucro.

  10. Delei Duarte disse:

    Esse Briatore nunca me enganou. Na epoca em que o Schumacher, entao um iniciante, ganhava todas na Beneton um dos cabecas da escuderia era justamente o Briatore. Naquela epoca alguns cogitaram que um dos componentes do carro (acho que o fundo do mesmo, ou alguma parte chassi) era ilegal. Aquelas cogitacoes depois foram abafadas e nao se falou mais no assunto, sendo que eu pessoalmente nunca considerei como reais os dois primeiros titulos do Schumacher, por causa daquelas especulacoes de ilegalidade. O Briatore sempre foi um “espertinho” que tira “coelhos da cartola” muitos dos quais sao falsificados ou ilegais. Acho que se ele for punido, ta muito justo. O Nelsinho tambem tinha que ser punido para aprender a respeitar o esporte. Onde ja se viu um piloto perder porque quer, no intuito de fazer o que o chefinho mandou a fim de “ajudar o companheiro”. Foi por causa de coisas como estas que o Rubinho (um grande piloto) virou quase vilao. Por mim o Briatore tinha que ser BANIDO da F1. Corrida carro e’ corrida de carro. Depois que a Formula 1 se transformou em corrida de fabricantes virou uma chatice so. Hoje o piloto ja nao e’ tao importante e ao inves de correr, apenas faz o que o chefinho mandou. Faz tempo que nao me emociono com a F1.

  11. Delei Duarte disse:

    Cun relassao au qui o PAULO PARANAGUA falou, achu qui BLOGI e’ um ispasso democraticu e e’ por issu qui fas tamtu sussesso. Nao inporta si u cumentarista iscreve sertu ou errado. O ki vale e’ se aideia ki ele ixpressou tem relassao com o que o culunista iscreveu e nistu o Sr PAULO PARANAGUA errou e errou feiu. O ki importa tanbem e’ a ideia que si quer ixpressa’. Nun adianta di nada u sugeito iscrever ortograficamenti curreto si as suas ideia nun quere dize nada nem correspondi aus fatu.

    • Paulo Paranaguá disse:

      Seu Delei : Seu comentário (se é que se pode chamar essa coisa de comentário..vá lá…) apenas justifica minha pergunta. São manifestações típicas de adolescentes revoltados. Deleitei-me com sua resposta. Agora vou deletá-lo, bonequinho…

  12. Marcos Negrão disse:

    Sempre que havia um brasileiro na disputa de uma boa colocação, o “glorioso” Galvão Bueno dava uma pequena mostra da frieza que acometeu Piquezinho. Foram inumeras vezes que vi ele torcendo para que os pilotos da frente se tocassem a 300km por hora, sabendo que esse toque poderia ser desastroso e causar uma tragedia. Galvão é um profissional experiente e maduro o suficiente para entender o quanto o seu desejo era nefasto. Piquet, ainda é um garoto e vai errar muito mais. Outrora eu não me lembro de ter lido tantas idiotices sobre Alonso, quando o mesmo participou do roubo de segredos tecnicos da Ferrari ou mesmo quando Lewis inventou uma situação mentirosa para obter uma melhor colocação. Fiquem com a vossa hipocrisia, porque eu prefiro a verdade dos fatos.

  13. Corvo disse:

    Que espanto é esse ai?, para que tanto bate boca, quarquer individuo mais ou menos informado sabe que na formula 1 rola de tudo, se de repente todo mundo que sabe de alguma mutreta – atual ou passada colocar a boca no trombone, haja blog para comentar, não estou defendendo ninguem mais é dever da imprensa investigativa ir mais a fundo e rever alguns acidentes suspeitos e não são poucos, como afirmou um dos comenteristas, se apertar nem o Sena escapa.

    Agora não vamos confundir jogo de equipe com acidentes deliberados, os jogos de equipes podem aque seream questionados, mais equipe é para isso ajudar que tem mais chance – isso acontece no atletismo e em várias outras modalidades e não coloca em risco a vida de ninguem, agora provocar acidentes mesmo com toda tecnologia de segurança pode matar.

    O mundo do automobilismo em geral é bem mais calhorda do que muitos fãs da modalidade imaginam – ACORDA GENTE TEM MUITO BANDIDO NO AUTOMOBILISMO.

  14. Paulo Paranaguá disse:

    Seu Delei : Seu comentário (se é que se pode chamar essa coisa de comentário..vá lá…) apenas justifica minha pergunta. Deleitei-me com sua resposta. Agoravou deletá-lo, bonequinho…

  15. [...] plagiados ou tem seus direitos violados, ninguém costuma ligar. Este blog relata casos desse tipo.Quando Shakespeare invade o automobilismo – Em qual outro esporte um atleta teria a frieza de colocar em risco a própria vida para [...]

  16. Wilson Moraes disse:

    No automobilismo semore aconteceu dessas coisas. Mais recente que esse incidente, na última corrida do ano passado, o Timo Glock deu passagem descaradamente na última curva da corrida para o Lewis Hamilton de forma que este pudesse ganhar o campeonato e, mesmo todo mundo sabendo que poderia ter havido uma atitude desonesta, ninguém pediu para investigar os dados da telemetria para saber se houve uma desaceleração provocada para propiciar a ultrapassagem ou as fitas de voz para saber se houve uma ordem, ainda que disfarçada, para que o piloto permitisse a ultrapassagem. E aqui estava em jogo um campeonato e não apenas uma corrida. Tava na hora de eliminar os mau caráter desse esporte.

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