Novidade nos anos 90, a “sabotagem criativa” está de volta
Em fevereiro de 1997, o caderno “Mais!”, da “Folha”, deu capa para uma longa reportagem que escrevi sobre os chamados “novos rebeldes”. A matéria começava assim:
Em tempos de ceticismo total, fim da história, fim das ideologias e fim do milênio, muita gente pode achar que não há mais espaço para a rebeldia e a subversão. Engano. Pequenas iniciativas isoladas, a maioria nos Estados Unidos, mostram que “contestar o sistema”’ não é um termo fora de moda.
Nesta edição são apresentados alguns dos grupos ou indivíduos que acreditam, em plenos anos 90, em variadas formas de ativismo político e transgressão. (…) A rebeldia se expressa por meio de atos não-belicosos e mais discretos, de denúncia, quase imperceptíveis aos olhos do chamado grande público.
Os alvos principais dos novos rebeldes não são os Estados e nações, mas a publicidade, os meios de comunicação, as grandes corporações empresariais. A Internet, a rede mundial de computadores, por ser um meio em que as idéias e informações circulam com quase total liberdade, se tornou um dos canais preferidos dos novos rebeldes.
Eu descrevia, então, alguns atos chamados de “sabotagem criativa”, como o do programador de computador que foi demitido de uma grande empresa fabricante de jogos eletrônicos após ter alterado um joguinho que ele próprio desenvolvia. O programador introduziu uma cena homossexual no jogo, para criticar a falta de personagens gays no universo dos videogames.
A sabotagem atingiu menos de 80 mil jogos, logo recolhidos pelo fabricante, mas o efeito obtido pela sabotagem foi infinitamente maior: o caso foi noticiado pelos principais meios de comunicação do planeta, entre os quais o jornal ”The New York Times”.
Escrevo essa longa introdução para comentar um ato de “sabotagem criativa” que o músico Tico Santa Cruz está tentando promover. Como relatei há duas semanas (Músico revela pressão e ingerência de gravadora para música tocar na rádio ) Santa Cruz está em conflito aberto com a rádio Mix FM, que não toca músicas do novo disco de seu grupo, o Detonautas.
Esta semana, o músico publicou dois textos em seu blog, convocando seus fãs a falarem, ao vivo, na rádio, uma frase de protesto, contra a Mix. O fã que conseguir ludibriar a emissora e falar a frase solicitada pelo músico será presenteado com um iPhone, prometeu Santa Cruz.
Não apoio a iniciativa do músico. Ao contrário. Acredito que a solução de conflitos deve ser resolvida de acordo com as regras estabelecidas. Nesse caso, se Santa Cruz considera-se lesado pela rádio, e não dispõe mais de canais de comunicação com a sua direção, deveria buscar os seus direitos na Justiça.
Mas achei curioso, nostálgico até, ele adotar publicamente uma tática de sabotagem criativa. Em 1997, poderíamos chamar Tico Santa Cruz de um “novo rebelde”. Hoje, talvez, deveríamos chamá-lo de um “velho novo rebelde”.




Uma espécie de “sabotagem criativa” que dá certo no Brasil é a feita pelas torcidas nos estádios contra o Galvão Bueno, e que a Globo tenta encobrir ao máximo, mas sempre deixa escapar um pouco de áudio. Os microfones que a emissora usa pra dar mais vida às transmissões acabam servido para o protesto mais do que justo.
E eu apoio essa iniciativa do Santa Cruz. Tática de guerrilha neles!
Isso me lembra o impagável Ari Almeida e sua trupe de terroristas poéticos:
http://www.delinquente.blogger.com.br/
Não acho que a “rebeldia” de Tico Santa-Cruz seja relevante como sinal de qualquer movimento social da juventude. A causa é completamente individual – ele quer que a rádio toque a banda dele.
Não que eu discorde da tese, mas Tico como exemplo não cola pra mim.
Não seja conservador, Mauricio. A sabotagem criativa, assim como a desobediência civil, é uma das armas do indivídou para dar uma sacaneada nas grandes corporações e suas big estruturas. Ademais, com a lentidão da nossa justiça, seria cômico o cara do Detonautas recorrer ao Judiciário para reclamar do suposto jabá e seus frutos.
O Tico é um palhaço
O pá, tu sabes como funciona a maioria das rádiolas aqui nu Brazil?
Então mande um beijo para o teu amigo tikU SeU tÁ cRUz.
Acho engraçado o seu tom de reprovação para com a atitude do músico, mas ao mesmo tempo sem uma linha criticando um ponto fundamental desse debate: a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos. Independente da qualidade da música (eu mesmo não gosto do músico nem da banda referida), o acesso aos meios de comunicação no Brasil é uma questão que renderia muitas ações na Justiça e, se esta fosse de fato eficiente, poderia gerar uma pressão para que isso chegasse ao Legislativo.
Realmente, não sou inocente a ponto de achar que a “sabotagem criativa” seja a solução para o problema, mas ao menos é melhor do que a sua sabotagem para com esse debate, mascarando-o como se fosse uma questão jurídica banal.
[...] Tico Santa Cruz Colunista Mauricio Stycer Livro: Stupid White Men – Uma Nação de Idiotas, de Michael Moore. Ed. [...]