De pai para filho: o delicado papel do crítico de cinema
Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977), talvez o mais importante crítico e historiador do cinema brasileiro, disse certa vez, a título de provocação, que o pior filme nacional é melhor que qualquer filme estrangeiro.
Com esta frase famosa, Salles Gomes procurou estimular o exercício crítico de olhar para o cinema brasileiro como uma forma de expressão capaz de nos ensinar sobre a nossa própria cultura, independente da qualidade do filme. Por esse raciocínio, um mau filme pode nos ajudar a entender, por exemplo, o nosso lugar periférico no mundo, a nossa ignorância em relação a uma série de questões e, também, nos obrigar a pensar sobre o próprio cinema.
Desde a década de 60, as idéias de Salles Gomes influenciam, em diferentes graus e medidas, a crítica cinematográfica brasileira. E há razões objetivas, de natureza política e econômica, que fogem a uma discussão puramente estética, para explicar porque o cuidado ao julgar um filme brasileiro costuma ser diferente do dedicado aos filmes estrangeiros.
O Brasil não tem, como os Estados Unidos, uma indústria poderosa, capaz de produzir milhares de filmes por ano. O apoio do Estado ao cinema ainda é relativamente pequeno, comparado ao que outros países, como a França, oferecem. Cada filme que chega às telas costuma ser fruto de um esforço enorme, de muito sacrifício e dedicação, ao longo de dois ou três anos.
Também afeta, de alguma forma, e isso é um problema geral que envolve a atividade do jornalismo cultural, a proximidade do jornalista com a fonte. O mesmo crítico que jamais conhecerá o diretor estrangeiro sobre o qual escreve, é obrigado a conviver com cineastas brasileiros em festivais e eventos sociais, quando não é, por acaso, amigo do sujeito.
Para piorar, há cineastas brasileiros que, sem atentar para o constrangimento, colocam-se de pé, bem visíveis, à porta das salas de cinema, nas sessões especiais em que seus filmes são exibidos para a imprensa.
Por tudo isso, de uma maneira geral, há um cuidado maior no momento de avaliar um filme brasileiro. Entendo e respeito. Mas me preocupo quando percebo que esse cuidado deságua numa condescendência paternal. Crítico de cinema não deveria ser paternal nunca.
Mas, sendo inevitável tratar do filme brasileiro como uma criança que precisa de cuidados, que o crítico seja, ao menos, um pai severo. Nada pior para um filho que o pai que não sublinha as diferenças entre o certo e o errado.
Passar a mão na cabeça de um diretor pelas poucas qualidades de seu filme e fingir indiferença em relação aos seus defeitos é um desserviço que os críticos, às vezes, prestam ao cinema brasileiro.




Caro Stycer,
Concordo plenamente com as suas observações, pois o pai conivente educa mal o seu filho. Talvez, a crítica devesse dialogar mais incisamente com o cinema brasileiro, contirbuindo para um repensar cinematográfico.
Parabéns pelo blog
abraços
Bruno
Concordo.
Acho que a crítica em cima dos filmes nacionais poucas vezes consegue ser isenta. Muitas vezes existe muito mais rigor na avaliação do produto nacional que no do estrangeiro.
O problema é que o cinema nacional ainda tem poucas produções e qualidade baixa. Precisa existir mais filmes voltados para o entretenimento, ainda estamos apostando muito em películas drmáticas, com histórias de miséria, que querem mostra a “realidade” do país para ganhar prêmios no exterior.
Ora, ninguém quer pagar 15 reais pra ver uma hora e meia de gente pobre e feia comendo lixo.
http://www.blogdotitan.wordpress.com
Parabéns, ótima crítica. Sempre achei os melhores filmes brasileiros similares aos piores do mundo.
Por isso não confio na crítica ao cinema nacional, sobretudo as positivas. Cansei de ir ao cinema e lamentar na saída o dinheiro gasto. Os fimes nacionais, na maioria das vezes, são novelas das 8 melhoradas ou pioradas, mas tem uma minoria de filmes de muita qualidade, felizmente.
Eu acho que critico deveria fazer filme pra depois criticar.
pois tem muito critico que não manja nada e só fala o que não deve.
Há tempos cultuamos ‘vacas sagradas’ que são mais conhecidas do que seus próprios filmes. Aqui aprendeu-se a tal ‘cartilha do cinema de arte’ que embevece críticos platônicos e meia duzia de ‘entendidos’ que tem uma visão deturpada da função do cinema. Aqui, abaixo do equador, cinema bom é o que dá prejuízo,o que mostra as mazelas sociais com uma condescendência estóica e cínica, (leia-se Sales), além é claro de ser um excelente meio para desvio de dinheiro (leia-se ‘Chatô’, que até hoje não foi ‘parido’ e com certeza não o será mais…)
http://notasdemidia.blogspot.com
Maurício,
Li seu artigo, mas confesso que não entendi aonde você quer chegar. A que críticos e a quais cineastas você está se referindo exatamente? A crítica “genérica” costuma caminhar entre a ingenuidade e a leviandade. Apontar a falha sem mencionar quem a comete (voluntária ou involuntariamente) é uma atitude tão ou até mais paternalista do que a atitude que você devidamente critica, até porque não acho que todos os críticos nem todos os cineastas se comportem dessa forma. “Dar nome aos bois”, nesse caso, muito embora cause um certo constrangimento, daria uma chance aos citados de se defenderem ou de repensar a sua postura.
Filme nacional é tudo de bom…….Deveríamos abrir o coração para essa arte tão pouco defendida no Brasil e ver com bom olhos os filmes brasileiros, enquanto houver essa política de que especialmente o estrangeiro é o bom os nossos nunca serão bons o suficiente…..sou paternalista sim, inclusive com filmes B, C, se o filme for bom, porque não elogiá-lo., alguém se recorda do brilhantismo nordestino de Abril Despedaçado? Como não elogiá-lo???
Os cineatas brasileiros só produzem essas porcarias pq a grana não sai do bolso deles, então eles ficam livres para botar nas telas qualquer porcaria, longe daquilo q o público realmente gostaria de assistir.
Acho que o cinema brasileiro ’so começou a ter alguma qualidade quando começou a fazer flmes para serem vistos. Me irrita estes cineastas que querem fazer filmes autoriais com dinheiro publico, e ficam reclamando da falta de apoio oficial. Na maioria das vezes os filmes são ruins mesmo, embora tecnicamente, principalmente o som, houve melhora significativa, Tem que detonar mesmo estas porcarias intelectualoides que de vez em quando tentam nos impor como pequenas obras primas.
Sou escritor e já escrevi tres scripts enviados a Industria americana. estou revisando um deles que despertou algum interesse.
O grande problema do cinema brasileiro é que os diretores prestigiam muito pouco os roteiristas. Por economia, os diretores, na maioria das vezes é o próprio autor do enredo.
Não temos também bons atores. Só temos figuras carimbadas de novelas e quem já está enjoado de ver atores globais acaba desistindo de ver nossos filmes. Temos no Brasil mulheres lindissimas desconhecidas, que poderiam, como no cinema americano, motivarem aqueles que gostam de curtir um bom visual, uma das razões porque se vai a cinema, aumentar a frequencia das salas. Ao invés disso, entramos no cinema para ver raramente uma Paula Oliveira, muito mal dirigida, e exaustivamente a Gloria Pires, a Luana Piovani e outras que nos obrigam a tomar um engov antes e depois de assistir a seus filmes.
Abraço,
ah tem dó fala bem dessas tranqueiras paga c o dinheiro publico só pq é nacional é de matar,n leva a lugar nenhum, a nenhuma evolução…essa idéia é de uma tacanhiçe sem tamanho…se for ruim pau,se for bom cmo cidade de deus ,por exemplo ,elogios..pensamento terceiro mundista desse critico citado
Concordo, Stycer. Mas, em algumas oportunidades, acredito que os críticos brasileiros acabem sendo mais severos com o cinema nacional que com o internacional, principalmente no que se refere ao cinema europeu.
Com relação à temática, discordo do leitor Peru, que postou acima. Os melhores filmes brasileiros (como “Deus E O Diabo Na Terra do Sol” e “Cidade de Deus”) são justamente os que falam da nossa realidade. Eu é que não quero pagar 15 reais paras ver novelas da Globo na tela de cinema.
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É Maurício, o crítico brasileiro é passional. Não tem jeito. Mas o público em sua maioria, também é !! Imagina que tem gente que só vê filme se aquele bonequinho tá aplaudindo de pé !!! Quantos filmes já adorei ao contrário do tal bonequinho… de qualquer maneira seu texto ajuda a lançarmos um olhar além da crítica. Abraços, Viviane.