Falando abertamente de “jabá”
Escrevi na última sexta-feira que a prática do jabá nas rádios brasileiras “é uma espécie de caixa-preta, muito bem protegida e imune, inclusive, à investigação jornalística”. Comentava um texto do músico Tico Santa Cruz, publicado em seu blog, no qual ele afirma que o seu grupo, o Detonautas, está sendo boicotado pela rádio Mix FM. O músico contou que, certa vez, a rádio exigiu dos Detonautas que alterassem uma música já gravada para se adequar aos padrões da emissora.
O jornalista Rodney Brocanelli, que mantém o blog Rádio Base, escreveu para me alertar que a “caixa preta” do jabá não é tão fechada assim. Ele me enviou trechos de uma entrevista de Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, à revista Playboy, em 2006, na qual o empresário fala abertamente do assunto. Eis o trecho:
PLAYBOY: Muita gente diz que você é jabazeiro [que cobra jabá].
TUTINHA: Me chamem do que quiser. Na minha rádio tem nota fiscal, tô pouco me danando. O cara para entrar no Fantástico também paga. Jabá é quando você faz ilegalmente na empresa. O que eu faço são acordos comerciais.
PLAYBOY: Que tipo de acordo?
TUTINHA: Por exemplo: hoje chegam 30 artistas novos por dia na rádio. Por que eu vou tocar? Eu seleciono dez, mas não tenho espaço para tocar os dez. Aí eu vou nas gravadoras e para aquela que me dá alguma vantagem eu dou preferência.
PLAYBOY: Que vantagem?
TUTINHA: Se você tem um produto novo, você paga pra lançar. Era isso o que eu fazia. Eu tocava, mas queria alguma coisa. Promoção, dinheiro. Ah, bota aí 100 mil reais de anúncio na rádio. Me dá um carro pra sortear para o ouvinte. Mas hoje não tem mais isso. As gravadoras não têm mais dinheiro. O que pode existir é o empresário fazer acordo. Ah, toca aí meu artista e eu te dou três shows. Ou uma porcentagem da venda dos discos.
Brocanelli também publica em seu blog trechos de uma entrevista que fez com Roberto Miller Maia, ex-diretor da rádio Brasil 2000, na qual ele também fala abertamente do assunto. Eis o trecho selecionado:
Não existe o estar pagando para tocar, mas existe um acordo de cavalheiros. Como o U2 está dando ao ouvinte da rádio uma oportunidade de uma promoção que leva o sujeito para Miami, em contrapartida tem que se mostrar o trabalho dos caras. Por que uma banda fica famosa? Tem sempre aquele trabalho de marketing. Por mais que uma banda seja brilhante ou excelente alguém precisou falar sobre ela, instigar as pessoas a gostarem daquilo. E também existem as armações, que não duram nada. Se a banda for ruim, não vai adiantar. Tem que existir um mínimo de talento, de empatia com aquele grupo de pessoas a quem você vai oferecer esse produto. Isso tudo deveria ser uma coisa mais clara, ficou uma coisa obscura durante todos esses anos. Se tudo fosse às claras, não existiria corrupção.
Eis, portanto, duas manifestações que mostram que o jabá não é, como eu disse, uma caixa-preta sem chave.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, jornalismo Tags: Brasil 2000, entrevista Playboy, Jabá, Jovem Pan, Mix Fm, Roberto Miller Maia, Tico Santa Cruz, Tutinha



[...] os olhos pra alguma coisa que ela aparece na sua frente. Como me aconteceu com esta matéria do Maurício Stycer. O cara cita o Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas em seu bolg. Na discussão o [...]
Aí é crime o uso da imagem alheia sem a sua autorização
Admiro mais bandas que têm orgulho de dizer que nunca dependeram de jabá para fazerem sucesso, do que outras que reclamam que não tocam em rádio.
Conheço cada vez menos gente que depende das rádios FM para ouvir música e conhecer bandas. Eu mesmo, uso rádio apenas para notícias, faz muitos anos que não sintonizo para ouvir música. Hoje quem está no carro escuta direto do CD ou MP3. A divulgação pesada mesmo se dá é na internet, via downloads, orkut, myspace, etc.
A falência do modelo antigo de negócios diminuiu muito a importância da veiculação em rádio. Esquema de divulgação que se basear em jabá radiofônico corre o risco de ficar conhecida apenas por um público curiosamente mais restrito.
Muita gente ainda ouve rádio, principalmente aquele que está lá no meio do mato, sem luz, telefone etc e tal. Ali sim, com apenas duas pilhas e um radinho meia boca, ouve-se a narração de uma partida de futebol. Se liga picaretas de plantão.