Memórias de um torcedor bipolar
Minhas primeiras lembranças de futebol datam de 1966. Tinha 5 anos. Escolhi meu time em algum momento entre 1967 e 1968 – anos em que o Botafogo reinou, conquistando o bicampeonato da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca (eram disputados separadamente). Só passei a ir ao estádio, levado por meu pai, em 1971 – quando fiz 10 anos. Não vi, portanto, meu time ser campeão ao longo de toda infância, adolescência e início da fase adulta. Uma tragédia que, para o bem e para o mal, ajudou a me moldar.
Só em 21 de junho de 1989, quando já tinha 28 anos, tive a chance de ver meu time ser campeão. No próximo domingo, comemoramos os 20 anos da conquista do Campeonato Carioca de 1989, que encerrou um inédito jejum de 21 anos sem título. A propósito da data, desenterro dois textos escritos sobre esta saga. O primeiro foi publicado em 1988, na “festa” pelas duas décadas de jejum, e o segundo saiu dois dias depois da vitória de 1989.
1. Apaixonado, mas desesperado
Em 1988, quando o Botafogo completou 20 anos sem títulos, escrevi na “Folha de S.Paulo” um texto bem-humorado, no qual fazia um paralelo do fracasso do time com os sonhos perdidos pela geração que viveu as agitações de Maio de 1968. No artigo, eu aproveitava para cutucar a própria “Folha”, que, em nome do didatismo, teimava em chamar o time de “Botafogo (RJ)” ou “Botafogo do Rio”, para não confundi-lo com cópias e similares. E dizia que as esperanças do torcedor estavam, infelizmente, depositadas nas mãos de um banqueiro do jogo do bicho. Acho que é um texto que reflete bem o ânimo de um torcedor apaixonado, mas desesperado. Reproduzo-o abaixo:
O “Botafogo do Rio” espera desde 1968
Não é apenas uma coincidência: no ano em que se comemoram os 20 anos de maio de 1968 – o apogeu e a queda das utopias concentradas numa só data –, o Botafogo cruza a segunda década sem conquistar um título. Em maio de 68, ainda se acreditava na invencibilidade e no talento individual dos jogadores botafoguenses, os que deram dois títulos – e viriam a dar, em 1970 – a possa da taça Jules Rimet ao Brasil. A utopia, hoje, é acreditar que um benfeitor egresso do jogo do bicho seja capaz de tirar o time da lama e dar o esperado título a uma torcida que não pára de crescer.
A efeméride passou em brancas nuvens aqui em São Paulo, Estado que teima em chamar o Glorioso de “Botafogo do Rio”, na ilusão de que o Botafogo possa ser confundido com o Botafogo de Ribeirão Preto. A maneira torta com que a bola tem rolado alimenta a confusão.
A mediocridade triunfou no futebol brasileiro pós-maio de 68, isto é, depois do último título do Botafogo (naturalmente que a vitória num vagabundo “Torneio Início” no final dos anos 70 não conta). O Botafogo corre o risco de ser lembrado no futuro pela comédia que embalou a sua decadência (lembra-se de Puruca?), quando grandes talentos surgidos nestas últimas duas décadas, como os goleiros Wendel e Zé Carlos, os laterais Marinho e Josimar, o meia Mendonça , o centroavante Nilson Dias, entre outros, apenas fracassaram na trágica missão de vencer.
(Publicado na “Folha” em 12 de junho de 1988)
2. Pessimista, mas esperançoso
Um ano depois, voltei às páginas de Esportes da “Folha” para celebrar o fim do jejum. Acompanhei o campeonato à distância, morando em São Paulo. E, confesso, tive muito poucas alegrias com aquele time, que não venceu nenhum clássico até o jogo final, e cuja escalação naquele 21 de junho (foto) foi: Ricardo Cruz, Josimar, Wilson Gotardo, Mauro Galvão e Marquinhos. Vítor, Carlos Alberto Santos e Luisinho; Maurício, Paulinho Criciúma e Gustavo (Mazolinha). O texto que publiquei talvez seja injusto com um ou outro jogador daquela equipe, mas reflete o meu permanente pessimismo com o Botafogo, ao mesmo tempo que deixa transparecer a permanente esperança de dias melhores:
A saga da equipe “gauche”
A saga botafoguense terminou da forma mais “gauche” possível: um cruzamento da esquerda, saído do pé esquerdo de um jogador chamado Mazolinha, que caiu no pé direito de Mauricio, o novo anjo torto do time, antes de se dirigir com extrema cautela para o fundo da rede do Flamengo.
Dirão os mais apressados que foi uma campanha brilhante, magnífica, à base de muito esforço e dedicação. A definição é correta, mas esconde o principal: os heróis botafoguenses nunca demonstraram aquilo que no meio futebolístico é conhecido como “intimidade com a bola”. Eles chegaram ao título depois de 21 anos graças justamente a esta estranha conjunção de garra com falta de talento.
Pergunte ao Sobrenatural de Almeida, o mais tricolor dos personagens de Nelson Rodrigues. Ele certamente dirá que o resultado era previsível. O Botafogo precisou arrumar um dos piores times da sua história para ser campeão.
A lógica, como escrevi neste caderno há um ano, é a seguinte: o Botafogo encarnou nas últimas duas décadas, de forma radical, a situação do futebol brasileiro e, em última instância, do próprio país. Em 1989, o time finalmente chegou ao fundo do poço. O que, em outras palavras, significa dizer que o Botafogo está dando inicio – provavelmente – a um período de renascimento.
(Publicado na “Folha” em 23 de junho de 1989)
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte, Memória Tags: 1989, 20 anos do título, bicheiro, Botafo, Folha, jejum, Mauricio



Bem, Maurício, o seu texto de 1989 reflete uma única coisa: falta total de intimidade com a conquista e a comemoração de títulos!! Pobre infância…
Mas, veja como a vida é: se as coisas continuarem como estão em São Januário, eu vou acabar chegando a esse nível de pessimismo que você possuía há vinte anos. Bom, pelo menos nós passamos a coroa de “tri-vice” pra vocês esse ano, hehehe!
Abraço!
NÃO ENTENDI O TITULO DE SUA MATERIA , TORCEDOR BIPOLAR ….. SE VC É UMA PESSOA PORTADORA DE UMA DOENÇA QUE TEM O NOME , TRANSTORNO BIPOLAR , QUE POR SINAL NÃO É UMA DOENÇA DE BRINCADEIRA , E SIM UMA DOENÇA MUITO SERIA E TRAZ MUITO SOFRIMENTO PARA QUEM É PORTADOR E SEUS FAMILIARES …. OU SE VC ESTA APENAS USANDO O NOME DA DEFICIENCIA COMO ILUSTRAÇÃO …. SE FOR O CASO SUGIRO APROVEITAR O NOME DE OUTRAS DOENÇAS TB PARA ILUSTRAR SUAS MATERIAS .. COMO A ADIS , O CANCÊR , A LEPRA ..ETC…. POIS COM CERTEZA VC DEVE SER UM DOS MILHÕES OU BILHÕES DE PESSOAS QUE ACHA QUE DOENÇA SÓ EXISTE NO VIZINHO ….. UM ABRAÇO DE UM PORTADOR DE TRANSTORNO BIPOLAR , QUE NÃO PRETENDI MUDAR O MUNDO, E USAR E FAZER GOZAÇÃO DE PESSOAS COM ALGUM DISTURBIO MENTAL, É IMPOSSIVEL , DE ACABAR NA HUMANIDADE , ENTÃO SÓ MANDEI UM RECADO ……… FIQUE COM DEUS….
Meu caro Maurício, ser botafoguense é isso. Meu avô era vascaíno, mas confessava um estranho fascínio pelo Botafogo. Ele dizia que gostar do Botofogo era ter um certo gosto pelo exótico. Dizia que nenhum clube era tão singular, e reunia em sua história personagens tão pitorescos, incluidos aí jogadores, dirigentes, e torcedores ilustres. Impossível contar a história do futebol brasileiro sem o Botafogo. De 1909 com o drama de Dinorah, ao fair-play de Mimi Sodré, às loucuras de Heleno, ao folclórico Carlito Rocha e seu mascote Biriba, passando pelo eterno “Enciclopédia”, pelo “Anjo das pernas tortas” Garrincha (mais exótico impossível!), ou quem sabe pelo mítico João Saldanha, no Botafogo vc encontra o DNA do futebol brasileiro. Talento e desvario. Um clube que pelos craques e times que teve, poderia ter sido muito mais vezes campeão do que foi, já que seus dirigentes preferiam explorá-los em seguidas excursões ao exterior do que se preparar a sério para os campeonatos domésticos. Quantos campeonatos fáceis foram perdidos para times apenas esforçados e disciplinados.E o pior é que nem rico o deixaram, muito pelo contrário. 1989, foi o troco. A piada do destino, gargalhando diante da visão de Zico, Bebeto, e outros craques, caídos ante os pés de Mazolinha. Um abraço.
Maurício:
Rafael Casé e Paulo Marcelo Sampaio lançam neste domingo a contagem regressiva para o livro que vai contar a saga de 1989: “21 depois dos 21″. Está tudo no blog http://www.21depois21.blogspot.com. E no Twitter: http://www.twitter.com/21depois21.
Eles publicaram no blog uma foto do time de 1989, no domingo anterior ao título, com 15 crianças como mascotes. Querem localizar essas 15 crianças – hoje, homens e mulheres feitos – para entrevistá-los para o livro.
E pedem aos torcedores que tenham histórias interessantes do jogo – antes, durante e depois – que escrevam para eles em 21depois21@gmail.com
Abração,
Cesar
bi polar e coisa de bambi cuidado em vei kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk falndo nisso parabens pela participaçao honrosa duas derrotas pro cruzeiro kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk time lindo kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Adorei o título do texto. E espero que você esteja certo sobre o renascimento do Botafogo. Nós, fiéis torcedores, merecemos.
meu fogão é foda demais,amo demais esse time namoral
THEO EU ESTOU TORCENDO POR VC, E NÃO QUERO QUE VC SAIA DA FAZENDA, QUEM DEVERIA SAIR ERA A BARANGA DA MIRELLA. “BOA SORTE” UM ABRAÇO…………….
Ahhh fiii…..vai falar de timecos do RJ lá no Extra, O GLOBO e por vai….
Me poupe amigo….aqui não temos tempo pra ficar lamentando e ouvindo choro de campeonatinho de GOITACAZES, OLARIAS e CABO FRIENSES da vida……
No hard feelings ok?
[...] muito otimista é também a visão de Mauricio Stycer. Em seu blog, o “torcedor bipolar” desenterra dois textos seus publicados na Folha de S. Paulo, em 88 e 89. Mauricio fala sobre o contexto em que estavam inseridos e não deixa barato: “tive [...]
Bons textos, Mauricio. Sintetizam bem o ar de “nostalgia do fracasso” de tempos que, paradoxalmente, não vivi, mas guardo na memória. Abraços.
nada se iguala a torcer pelo Glorioso. isso sim é uma vida bem vivida.
abraços