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18/06/2009 - 17:11

Contra a obrigatoriedade do diploma, a favor de regulamentação

Dou aulas de jornalismo, de forma não contínua, desde 1994. Já passei por cinco faculdades diferentes. Ao longo do tempo, adquiri algumas certezas e muitas dúvidas sobre a necessidade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão de jornalista.

Tento a seguir ordenar alguns argumentos e questões sobre o fato.

1. O que é preciso saber e aprender para ser jornalista? É uma questão polêmica. Há alguns consensos: é preciso ter cultura geral e domínio total da língua portuguesa. Conhecer história é fundamental. Matemática e estatística são conhecimentos necessários. Ética. Direito. É preciso ter o hábito de ler jornais e revistas, ter gosto pela informação. Ter espírito crítico, ser capaz de compreender a realidade em que vive, é outro atributo obrigatório.

2. Onde adquirir os conhecimentos citados no tópico anterior? Começa em casa, prossegue na escola básica, depois na secundária e, finalmente, na faculdade. Qual faculdade? 

3. Você não precisa cursar uma faculdade de jornalismo para aprender nada disso.

4. Quais são os conhecimentos específicos necessários para ser jornalista? Entramos aqui no terreno da técnica. Não são muitos. Desafio alguém a defender a necessidade de mais do que dois anos de estudos para adquirir conhecimentos específicos da profissão, tais como técnicas de entrevista ou técnicas de redação voltadas para diferentes mídias.

5. Pessoalmente, acredito que um ano, com uma oferta de cursos bem articulada, cumpra bem esta função de transmitir conhecimentos específicos da profissão. Mas admito pensarmos até em dois anos. Mais que isso é embromação.

6. Discordo do meu amigo Leandro Fortes, para quem o diploma de jornalismo defende “milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito”. Na minha opinião, não é o diploma que defende o público dos manipuladores de notícias, mas a concorrência. Sem concorrência, como é o caso em grande parte do país, a imprensa de má qualidade prospera – e continuará a prosperar – com ou sem diploma para jornalista.

7. Meu amigo Ricardo Kotscho preocupa-se com outra questão importante. Tudo bem, acabou a obrigatoriedade do diploma. Mas, e agora? Concordo que não podemos, de fato, ficar numa espécie de terra de ninguém, sem algum tipo de regulamentação.

8. Defendo, para início de discussão, que a prática só seja permitida a pessoas com formação universitária (em qualquer área, inclusive jornalismo), mais um curso de especialização técnico.

9. Diante da inquietação que vejo hoje, 18 de junho de 2009, em blogs e Twitter, arrisco dizer: o fim da obrigatoriedade do diploma não dificultará a inserção no mercado de trabalho dos bons candidatos, formados em faculdade de jornalismo.

10. As dificuldades de inserção do mercado decorrem de outros problemas, que não vou discutir aqui, mas são notórios: a transformação do ensino de jornalismo numa indústria, a crise da imprensa e a crise econômica.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: , ,

25 comentários para “Contra a obrigatoriedade do diploma, a favor de regulamentação”

  1. Guto disse:

    Um curso de um ano (redação, ética, legislação) pra quem já tem um curso superior me parece a melhor formação possível para um jornalista mesmo. Bobeou alguém que estude direito, economia ou letras e depois faça um curso desses sai um jornalista melhor preparado do que alguém que estudou só jornalismo

  2. Discordo quanto a redução para 2 anos do curso de jornalismo, temos que lembrar que a formação acadêmica procura-se determinar um programa pedagógico para o curso específico, onde se pincela aspectos relacionados a profissão e não apenas mera técnica, dando uma carga para o futuro profissional que será lançado no mercado de trabalho. Não somos apenas uma calculadora onde temos que aprender a dar o resultado de 1+ 1, 2 X 2, temos que saber os aspectos histórico, sociológico, filosófico, axiológico, etc da sua área profissional.

  3. Mariana Lima disse:

    MAs aí onde está: vc admite que é preciso “certa” técnica, que existem diferentes mídia, que é preciso espírito crítico. Os ministros do STF falaram: não é preciso técnica, jornalismo é literatura e arte. Sim, o jornalismo impresso pode ser, mas e a TV, o rádio, a internet? E a assessoria de imprensa (com a brigas com os relações públicas e tudo)?

    A pior parte, pra mim, não foi suspenderem a obrigatoriedade do diploma, mas minha mãe, que ainda comemora minha formatura, ligar assim que a matéria passou no Jornal Nacional e perguntar “e agora?”.

  4. Giulliana disse:

    Todos os argumentos que você elenca no tópico n° 1 são sistematizados dentro de um curso superior. O diploma tem a função de validar socialmente algumas competências específicas. Uma certificação não é garantia, mas dispnsá-la não é a solução. Acredito na necessidade de uma revisão em todos os níveis de educação (infantil, básica, fundamental, superior). Sobretudo, confio nas competências oferecidas pelos cursos superiores e penso que qualificação profissional seja indispensável para a prestação de bosn serviços.

  5. Em linhas gerais, concordo com você, meu caro alvinegro. O problema é que, agora, a tal regulamentação me parece impossível diante do argumento – um tanto quanto questionável – levantado pelo MP e acatado pelo STF: o da liberdade de expressão. Os caras bateram na tecla de um princípio constitucional, partiram do equivocado princípio de que apenas jornalistas podem manifestar suas opiniões na imprensa (na prática, jornalistas estão entre os que menos palpitam nas páginas).

    abs,
    Resposta do Mauricio: caro Molica, acho que essa é a luta que se inicia.

  6. Luis Delcides disse:

    ih!! complicado!! Tem muito jornalista diplomado que não sabe nem escrever e falar. E tem jornalista prático que escreve, fala e elabora muito bem uma pauta. Só reforço a fala do Kotscho, e defendo a criação de um Conselho Federal de Jornalismo. Já que os médicos, arquitetos, enfermeiros tem, porque não ter o nosso?
    Meu pai esbravejou aqui em casa sob a argumentação de livre exercício defendido na Constituição Federal, e daí? Quem se responsabiliza? A empresa ou o autor da matéria?
    “jornalista é uma maneira sofisticada de ser pobre” Silvia Caseiro

  7. valeska disse:

    noutra época onde os jornais eram feitos por pessoas apaixonadas, curiosas e com muito mais poesia na veia, hehe , os jornais eram muito melhores. e agora o que são os jornais e as revistas? lamentáveis.

  8. Crovis Limone disse:

    Olá caro Maurício! Sou fã do seu blog!
    Concordo com a Giulianna. A experiência acadêmica não tem preço, abrange muito mais do que um diploma.
    Também acho que dipensar uma certificação não é a solução. Para mim isso já está virando é uma bagunça, é o começo para outras decisões absurdas. Amanhã decidirão que para ser médico e advogado só bastará um curso técnico. Transcrevo uma frase que li no site JORNALISTA SÓ COM DIPLOMA que achei muito conveniente:
    ” Jornalismo pode causar mais danos que a bomba atômica e deixar cicatrizes no cérebro”… imaginem agora sem diploma o que pode fazer!
    Fonte:http://jornalista-so-com-diploma.ning.com/

    O negócio é não estudar, assim se vira Presidente:)))

    abs

  9. Renata Mielli disse:

    Não defendo o diploma, mas defendo a regulamentação da profissão. O STF erra ao assumir o papel de legislador (mais uma vez – o fez quando revogou totalmente a Lei de Imprensa). A quem interessa a falta de regulamentação para a comunicação? Me parece que aos donos dos veículos de comunicação. Concordo plenamente que uma pessoa formada num curso superior (qualquer que seja) e que queira exercer o jornalismo fazendo para isso uma especialização (de 1 a 2 anos para dominar alguns aspectos específicos dessa profissão) tem potencial para ser um jornalista bem mais preparado que alguém que cursa jornalismo. Mas se focarmos a discussão no jornalista vamos perder o foco principal do debate – que é a ausência de regras para uma atividade tão central na sociedade contemporânea.

  10. Eduardo disse:

    Eu não sou jornalista e não trabalho na área, mas tenho um blog. E penso em ser jornalista.

    Concordo com vc, para uma pessoa ser jornalista ela precisa saber muita coisa de diversas áreas e isso não é ensinado na faculdade.

    Mas acho bom que um jornalista tenha tenha essa formação para aprender algumas técnicas, para melhorar o português, etc.

    Esse curso de 1 ou 2 anos é possivel, se a faculdade se concentrar apenas no essencial. Na minha opinião, a maioria dos cursos universitarios poderiam diminuir a carga horaria se não enchessem linguiça com matérias desnecessárias. Fiz farmácia e no 1 ano tive muita quimica que eu ja tinha estudado no colegial!

    Essa decisao que eles tomaram é correta porque não tira das pessoas o direito de se expressar. Se obrigassem o diploma, para uma coluna sobre medicina, um jornalista poderia escrever, mas um médico não. E quem é melhor para falar sobre medicina?

  11. Caro Maurício,
    Eu entendo teus argumentos, mas estou ao lado de Leandro na defesa do diploma. O que mais me irritou nessa discussão toda, e não foi você que apontou isso, claro, é o argumento de que jornalismo tem a ver com liberdade de expressão. Diga-me você: na Folha, quando trabalhávamos lá, escrevíamos tudo o que queríamos? As pautas eram definidas apenas pela vontade do repórter? Sei que este argumento dos ministros do STF é o que está sendo levado à opinião. E, oras, como diz o Molica, não existe espaço menos democrático do que o de uma redação de jornal…

  12. Álvaro Burns disse:

    Concordo.
    Porém, os ministros deram a entender que o jornalista é apenas mais um que sabe ler e escrever…

  13. Cíntia Araium disse:

    Caro Maurício

    Com curso de especialização em jornalismo do Estadão/Universidad de Navarra e graduação na Cásper Líbero, onde vc foi meu orientador de TCC em 1995, sinto hoje que o vendedor de cachorro quente da esquina da Paulista com a Alameda Campinas é considerado tão apto quando nós para comunicar algo a alguém. Como assim?

    Sou a favor da liberdade, é claro. Mas acabar com a obrigatoriedade do curso sem, ao mesmo tempo, criar uma regulamentação que vise a qualidade dos profissionais e sua formação técnica é um desrespeito à inteligência dos brasileiros.

  14. Andrelli disse:

    Também senti um vazio com o fim da obrigatoriedade , pq parece q não valeu de nada os anos de faculdade de jornalismo . Sei lá, parece q foi tudo em vão .

  15. Andrelli disse:

    ou seja, qq pessoa hoje q escreve pode se sentir jornalista !!! Não valeu de nada então ? Qq um pode receber o título de jornalista ?

  16. Gabriele disse:

    E as Teorias da Comunicação? E as discussões fomentadas nas aulas teóricas?

    Tranformar o Jornalismo em um curso técnico é no mínimo desrespeitar os gdes teoricos da Comunicação.

  17. Afonso Lopes disse:

    Mas isso recriaria a condição prévia para o registro profissional, que o Supremo entendeu ser inconstitucional. Repare bem: no lugar do diploma de jornalista, você quer outro diploma e mais um curso técnico. Dá no mesmo. Não passa. Acabou. Pronto.

  18. Muito bom. Gostaria que aprofundasse mais o tema da regulamentação. Em todo caso, já programei um link em meu próximo post de notas. Deve sair hoje ou amanhã. Assinei o feed!

    Abraços do Alessandro Martins.

  19. [...] bons argumentos contrários à faculdade de jornalismo, sugiro a leitura dos posts dos jornalistas Maurício Stycer e André Rosa, o Marmota. Eles pregam um curso de especialização para qualquer pessoa com um [...]

  20. [...] a Túlio Vianna, Sérgio Murilo de Andrade, Sérgio Leo, Rodrigo Manzano, Rafael Galvão, Mauricio Stycer, muito Marcelo Träsel, Leandro Fortes, Laerte Braga, Jorge Rocha, Ivana Bentes, Hélio Paz, Flora [...]

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