iG

Publicidade

Publicidade

Arquivo de maio, 2009

17/05/2009 - 18:44

Qual é o problema do gol de bico?

Compartilhe: Twitter

Final do primeiro tempo de São Paulo e Atlético (PR). O repórter de uma emissora de rádio aproxima-se de Rafael Santos, autor do único gol da partida até então, e pergunta, não sem ironia: “Gol de bico, né?” Rafael explica que pegou na bola do jeito que ela veio, de bico, sim. Se fosse um pouco abusado, teria perguntado ao repórter: E daí? Fiz alguma coisa errada?

O gol de bico é o patinho feio do futebol. Pega mal apelar para a ponta da chuteira em momento de gol. No país que cultua o futebol-arte, a pedalada, a ginga, recorrer ao bico é sinônimo de falta de habilidade – como se o craque fosse menos craque, apelasse a um golpe baixo, para fazer o que há de mais sublime no futebol.

Não entendo por que há tanto preconceito com o gol de bico. Qual é a diferença entre empurrar a bola para o fundo das redes com o peito do pé, a “chapa” ou a bicanca? Romário fez gol de bico em Copa do Mundo. Ronaldo idem. Basílio tirou o Corinthians de uma fila de 22 anos com um gol de bico. Você lembra de outros?

Lanço aqui uma campanha em defesa do gol de bico. Feio é não fazer gol.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , ,
17/05/2009 - 13:37

“Desejo e Perigo”: um pouco de sexo e muito sono

Compartilhe: Twitter

No final da década de 30, numa China sob ataque e ocupação do Japão, um grupo de estudantes de teatro decide passar à ação. No lugar de peças patrióticas, resolvem aderir à resistência armada. Os principais alvos dos revolucionários são os chineses que colaboram com os invasores japoneses. A mais jovem integrante do grupo recebe a missão mais difícil: seduzir o chefe da polícia para permitir que seus colegas o assassinem.

Eis o ponto de partida de “Desejo e Perigo”, de Ang Lee, filme de 2007, premiado em Veneza, só agora em cartaz no Brasil. Um dos muitos críticos que não gostaram do filme escreveu que deveria se chamar “Perigo: Desejo” – numa alusão às tórridas cenas de sexo entre os protagonistas.

Não vi problema nisso. Ao contrário. Mas achei o filme muito longo (160 minutos), chato e artificial. A ação se passa entre Hong Kong e Xangai, recriadas em estúdio de uma forma pouco sutil. Estimado em US$ 15 milhões, pouco para a ambição do projeto, o orçamento de “Desejo e Perigo” talvez seja responsável por deixar o filme com cara de minissérie para televisão.

Este foi o trabalho imediatamente posterior a “O Segredo de Brokeback Mountain”, o filme que consagrou Ang Lee com o Oscar, entre inúmeros outros prêmios. Toda a contenção e sugestão que são a marca registrada do western gay deram lugar, em “Desejo e Perigo”, à falta de sutileza e exageros.

Nascido em Taiwan, Ang Lee tem construído uma carreira original, entre a China e os Estados Unidos. De “Banquete de Casamento” e “Comer, Beber, Viver”, no início da carreira, à “O Tigre e o Dragão”, “Razão e Sensibilidade” e “Brokeback Mountain”, o cineasta já acumulou crédito suficiente para ser chamado de “autor” – um título que hoje poucos podem ostentar na grande indústria cinematográfica.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , ,
16/05/2009 - 12:28

A morte do caçador de fantasmas

Compartilhe: Twitter

Passou em brancas nuvens no Brasil a morte do homem que dedicou a vida a caçar fantasmas. Nascido na Áustria, radicado nos Estados Unidos, Hans Holzer (1920-2009) escreveu cerca de 140 livros sobre parapsicologia, ocultismo e temas correlatos – vários deles publicados por aqui.

Holzer cunhou o termo “caça-fantasma”, nome de um programa que apresentou numa tevê americana, mas preferia ser chamado de “doutor” ou “professor”. Descobri um pouco sobre Holzer na página de obituários da revista “Economist”. O texto ensina que, com quatro anos, ele já tentava ler histórias sobre fantasmas para seus colegas – apavorados – no jardim de infância.  

Fantasmas, ele explicava, são perfeitamente naturais. São seres humanos que não estão conscientes que morreram. Com uma câmera Polaroid de alta velocidade, Holzer conseguia caçá-los – uma técnica que ele ensinou a muita gente.

Como já escrevi no blog sou fã dos obituários da “Economist”. A qualidade da seção começa pela escolha do personagem que merece ocupar a página semanal dedicada aos mortos. Pode ser Jesus Cristo, o roqueiro Syd Barret ou o papagaio Alex, cobaia de experiências sobre o estudo da fala dos animais.

O obituário da “Economist”, invariavelmente bem escrito, consegue conciliar reverência ao personagem escolhido com bom humor e ironia. O texto sobre o caça-fantasma Hans Holzer, por exemplo, termina assim: “No funeral arrangements were announced for Mr. Holzer. He did not intend, however, to stick arround.” (“Informações sobre o enterro do Sr. Holzer não foram anunciadas. Ele não pretendia, porém, continuar por aí.”)

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura Tags: , ,
15/05/2009 - 07:57

Filme tira Simonal da Sibéria, sem absolvê-lo

Compartilhe: Twitter

Há alguns mitos consolidados a respeito de Wilson Simonal (1938-2000).  “Inventado” por Carlos Imperial, dividiu com Roberto Carlos, na década de 60, o lugar de cantor mais popular do Brasil. Fez 30 mil pessoas cantarem “Meu limão, meu limoeiro” e “Cidade Maravilhosa” no Maracanãzinho.

Filho da empregada doméstica da crítica Barbara Heliodora, deslumbrou-se com o sucesso. Era “alienado”, apolítico. Inventou de cantar a ufanista “País Tropical” com mais gosto e originalidade (suprimindo a última sílaba de cada palavra) que o próprio Jorge Benjor.

Era o “rei da pilantragem” – tanto no palco quanto fora. Dirigia carros esporte importados e namorava loiras – um negro arrogante, metido a besta. “Ou você vai ser alguém na vida ou vai morrer crioulo mesmo”, ele disse, uma vez.

Em conflito com o seu contador, mandou policiais do Dops darem uma dura no sujeito. O contador diz que foi torturado e apanhou. O “Pasquim” decretou: “dedo-duro”. Foi submetido, nas palavras de sua segunda mulher, a uma “overdose de ostracismo” – passou 30 anos na Sibéria, como observou Arthur da Távola. Quando os filhos começaram a carreira artística, assistia aos shows escondido, com medo de prejudicá-los.

Morreu aos 62 anos, em conseqüência de complicações geradas pelo alcoolismo.

O que há de verdade e mentira nessa história tão fascinante quanto terrível? Difícil saber. “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, documentário que estreia nesta sexta-feira, pode até ter a pretensão de esclarecer alguns desses mitos, mas o seu maior atrativo é deixar tudo sem um ponto final.

Dirigido por Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o filme resgata imagens sensacionais de Simonal, a lembrar do seu talento e carisma. Recolhe ótimos depoimentos (até Pelé e Nelson Motta falam coisas interessantes!), ouve a versão do contador Raphael Viviani e leva o espectador a se emocionar com a tragédia que embalou as últimas três décadas do cantor – a tal “overdose de ostracismo” a que foi submetido.

Passada a emoção, restam várias dúvidas. Ainda que jornalístico e, naturalmente, superficial, o documentário poderia ter investigado um pouco mais. Foi, ou não dedo-duro? Mandou, ou não, bater no contador? Não consegue, porém, avançar no esclarecimento da questão que transformou Simonal num pária.

De um lado, os amigos conservadores (Mieli, Chico Anysio, Boni) repetem o discurso que o cantor foi vítima de um tempo de intolerância e radicalismo. O ex-todo poderoso da Globo chega a dizer que Simonal era boicotado pelos diretores e roteiristas de programas da emissora – ele nada podia fazer. De outro lado, apenas Jaguar e Ziraldo mostram a cara, como que conformados com o “inevitável” papel do “Pasquim” no episódio, mas lembrando que a condenação a Simonal começou na grande imprensa.

Apesar da forte, comovente e dominante presença dos filhos Max de Castro e Simoninha, “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei” consegue ser um filme aberto, sujeito às mais variadas interpretações. É simpático a Simonal? É generoso com a memória artística de um cantor genial. Deixa claro que o músico cometeu um erro grave. E obriga o espectador a pensar sobre o tamanho desse erro e os seus efeitos. É bastante coisa para um filme.

Em tempo: o trailer do filme pode ser visto aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , , , , ,
14/05/2009 - 19:05

Flip: filet mignon no fim de semana

Compartilhe: Twitter

Sempre estimulante, a programação da sétima Flip, divulgada nesta quinta-feira, apresenta uma curiosidade. Com exceção de Richard Dawkins, talvez o maior nome do evento, cuja conferência está marcada para quinta-feira, 2 de julho, às 19hs, a feira literária de Paraty reservou os dias e horários mais nobres do evento para os estrangeiros e deixou a maioria dos brasileiros em segundo plano.  

Com programação desde quarta-feira, 1º de julho, até domingo, dia 5, a Flip guardou para o sábado e a manhã de domingo os nomes de maior apelo de mídia, quase todos estrangeiros – Alex Ross, Gay Talese, Lobo Antunes e Simon Schama (Chico Buarque, escalado para as 19hs de sexta, completa este time de “estrelas”).

Em 2004, Chico reuniu uma multidão para vê-lo jogar futebol e ler trechos de um romance de Paul Auster. Ambos os eventos foram frustrantes. Este ano, a julgar pela descrição da mesa que dividirá com Milton Hatoum, existe a promessa de algo a mais: “O Brasil na visão desses dois grandes prosadores é o tema da mesa que eles compartilham em Paraty”, informa o site oficial da Flip. 

Então, se você planeja passar o sábado e a manhã de domingo em Paraty, recomendo que tente chegar sexta-feira no final da tarde. 

PS: Parati ou Paraty? Sei que o assunto é polêmico, mas, da mesma forma que o iG, usei neste texto a grafia que a cidade prefere e a Flip adotou.  

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
13/05/2009 - 10:52

Quem terá coragem de repetir o gesto de Belluzzo?

Compartilhe: Twitter

Luiz Gonzaga Belluzzo assistiu a disputa de pênaltis que levou o Palmeiras às quartas de final da Libertadores na arquibancada, no meio dos torcedores, na Ilha do Retiro. Como tantos outros dirigentes esportivos, Belluzzo é antes de tudo um torcedor. Não é um profissional do esporte. Como ele mesmo já disse, não é presidente, está presidente do Palmeiras.

Belluzzo é uma figura rara, encantadora, educadíssima. Amigo de todos, do presidente Lula ao porteiro do seu prédio, passando pelo governador Serra, empresários, jornalistas e, descobrimos agora, os mais fanáticos torcedores da arquibancada.
 
O presidente do Palmeiras não está sozinho nesta sua demonstração de paixão pelo clube que preside. Os presidentes são todos, sem exceção, tão torcedores quanto Belluzzo. Alguns, com discurso empolado e palavras como “profissionalização”, “gerenciamento” e “marketing”, tentam demonstrar um profissionalismo que não resiste a um lance duvidoso ou de perigo do seu time no campo.

O gesto de Belluzzo, porém, cria uma situação embaraçosa para seus colegas, presidentes de clube. Ficam todos, depois dessa, obrigados a repetir a iniciativa do presidente do Palmeiras. Mas que cartola terá peito de ir à arquibancada num momento decisivo da partida sem correr o risco de ser vaiado ou, no limite, agredido pelo torcedores do seu time?

PS: Convido os leitores que estão no Rio de Janeiro para o lançamento do meu livro, “História do Lance!”, nesta quarta-feira, dia 13, a partir das 19hs, na Livraria da Travessa, Ipanema.  

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , ,
12/05/2009 - 11:20

Unisul x Globo: o modelo do voleibol brasileiro em questão

Compartilhe: Twitter

A desistência de alguns patrocinadores em investir em times de vôlei no Brasil expõe um dos nós da chamada “modernização” ou “profissionalização” do esporte. A prática de encampar equipes, incorporando aos seus nomes a marca do patrocinador, ou mesmo a criação de times-empresas, apresenta um problema, até agora sem solução, para as empresas de comunicação.

Há menos de um mês, a Finasa anunciou o fim do patrocínio ao Osasco e, esta semana, a Unisul comunicou o término do seu projeto em Joinville. Em ambos os casos, argumentou-se que os patrocinadores estavam insatisfeitos com os veículos de comunicação, em particular as Organizações Globo, que só se referem às equipes pelos nomes das cidades, omitindo as marcas dos patrocinadores.

Em nota, a Unisul foi clara: “Uma das sugestões é condicionar à emissora que transmite com exclusividade os jogos, a exigência de mencionar os nomes verdadeiros das equipes, considerando que a televisão não pode se omitir no seu papel de ajudar a fortalecer uma modalidade do esporte que cresceu e se fortaleceu graças à abnegação e destemor de seus atletas e dirigentes.”

Além dos eventuais benefícios fiscais e dos ganhos de imagem, o patrocínio a uma equipe esportiva nos moldes praticados pelas principais empresas envolvidas com o voleibol traz a vantagem da chamada “mídia espontânea” – termo criado pelos publicitários para designar as aparições gratuitas, sem pagamento, da marca na mídia (tevês, jornais etc).

Calcula-se o número de vezes que a marca, digamos a Unisul, apareceu numa transmissão esportiva da Globo e compara-se com o custo de uma publicidade de 30 segundos na mesma emissora. Estima-se assim um valor de “mídia espontânea”, ou seja, gratuita, que beneficiou a marca.

Mesmo sem ser citada por narradores e repórteres, a marca aparece naturalmente durante uma transmissão nos uniformes e outros materiais usados pela equipe e exibidos ao longo da partida.

Em nota divulgada nesta segunda-feira, em resposta ao fim do projeto da Unisul, a Globo diz: “Do ponto de vista editorial, a citação indiscriminada de marcas comerciais por parte de narradores, comentaristas e repórteres poderia induzir o público a erro de julgamento quanto a independência, isenção e integridade que estes profissionais obrigatoriamente devem manter com relação a equipes e eventos esportivos”.

Qual o interesse de uma empresa de comunicação em proporcionar mídia espontânea para um potencial anunciante? Eis uma pergunta difícil de responder. Ao transmitir um campeonato de vôlei (um programa como qualquer outro), a Globo busca anunciantes que o tornem viável economicamente.

Diz a emissora em sua nota: “Além do propósito de apoiar o esporte, o expediente de utilizar marcas comerciais para dar nome às equipes e patrocinar ostensivamente projetos esportivos visa, evidentemente, à obtenção da chamada “mídia espontânea” – as empresas querem a citação gratuita das suas marcas, evitando adquirir espaço comercial para expor seus produtos ou serviços”.

A Globo lembra em sua nota que já adota esse procedimento há anos e, por isso, estranha que só agora tenha sido motivo de reclamação.

Não sou especialista no assunto, mas salta aos olhos neste conflito que há outros problemas em jogo, não enunciados nas notas da Unisul e da Globo. O que está em questão é o próprio modelo de manutenção de uma prática esportiva dependente exclusivamente da visibilidade da televisão.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , ,
11/05/2009 - 17:50

Um blog para falar de um livro

Compartilhe: Twitter

Para não atormentar o leitor com notícias sobre o lançamento do meu livro, “História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo”, criei um blog dedicado exclusivamente ao assunto. Fica no iG, neste endereço aqui. O post mais recente reproduz, na íntegra, o texto que o cineasta Ugo Giorgetti, colunista de “O Estado de S.Paulo”, dedicou ao livro no último domingo.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Esporte Tags: ,
10/05/2009 - 19:47

Nilmar fez um verdadeiro gol de placa. Ou não?

Compartilhe: Twitter

Descendo a rua Buri, caminhando em direção ao Pacaembu, dou de cara com um flanelinha de braços cruzados, sem ter o que fazer: “Não tem mais corintiano nessa terra?”, ele me pergunta. Faltam 45 minutos para o início da partida e a rua está, de fato, vazia.

A nação corintiana preferiu ficar em casa – assim como o time titular. 14.458 espectadores pagaram ingresso para assistir o time B do Corinthians estrear no Brasileiro.

Uma partida decidida antes de começar, para quem se deu ao trabalho de ler a escalação dos times que entraram em campo. Mano Menezes colocou Renato, Jean, Diego, Diogo, Jucilei, Boquita, Wellington Saci, Souza e Lulinha para enfrentar o Internacional de Nilmar, D´Alessandro e Taison. Muita ousadia…

Nilmar deu conta do recado sozinho. Recebeu um lançamento preciso de 50 metros de D´Alessandro e partiu na diagonal. Driblou diretamente quatro adversários e superou outros dois no caminho, antes de ajeitar o corpo, arrumar a bola para o pé direito e chutar longe do alcance de Felipe (veja o gol aqui)

Podemos ficar até amanhã discutindo se foi um verdadeiro gol de placa ou não. Não driblou o goleiro, alguém dirá. Não driblou na vertical, em direção ao gol, mas na diagonal, quase na horizontal, outro vai argumentar. Driblou o time reserva do Corinthians, alguém ainda poderá dizer.

Sei não… Foi um desses gols que não se vê todo dia. Nilmar merecia, no mínimo, ter sido aplaudido pela Fiel. O que ela não fez. Ao contrário, ao ser substituído, quase no fim do jogo, o camisa 9 do Inter ainda foi vaiado pela torcida do Corinthians.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , ,
10/05/2009 - 12:14

O garçom, o ator, o diretor de “Boleiros” e o “Lance!”

Compartilhe: Twitter

Aproveito o domingo para responder aos leitores que cobraram notícias sobre meu livro, “História do Lance!”, lançado quarta-feira passada, dia 6, no bar Canto Madalena, em São Paulo.

Foi uma noitada muito legal, com a presença de muitos amigos e colegas, ao longo da qual autografei 70 livros. Um dos pontos altos da festa ocorreu quase ao final, quando o garçom Aguinaldo, que passara a noite servindo chope para a turma, aproximou-se de mim com um livro na mão e pediu um autógrafo. Disse que era leitor do “Lance!” e iria ler o livro.

A primeira pessoa a chegar em busca do livro, mal o bar abriu, às 19hs, era um rosto familiar, mas cujo nome eu não lembrava. Fiquei um pouco sem graça, mas acabei perguntando: “De onde eu te conheço?” André Bicudo, ele se apresentou. “Sou ator, trabalhei nos dois ‘Boleiros’, e também sou técnico de futebol”.

“Boleiros”, de Ugo Giorgetti, para quem não sabe, é um dos melhores filmes já feitos sobre o universo do futebol brasileiro. Em torno de uma mesa de bar, um grupo de ex-jogadores relembra histórias e causos saborosos, sobre o juiz ladrão, o técnico moralista, o craque com medo, enfim, uma galeria de tipos fantásticos do universo da bola.

Lançado em 1998, com muito sucesso, “Boleiros” mereceu uma sequência em 2006, na qual Giorgetti apresenta novos personagens, como o craque que faz sucesso no exterior, mas tem um irmão envolvido com problemas pesados no Brasil, e a Maria Chuteira, especializada em namorar jogadores de futebol.

Figura simpaticíssima, André Bicudo havia lido algo sobre o lançamento e foi ao bar. Sentou-se com os meus amigos e ficou lá por um tempo. Quando o ambiente começou a se encher de gente, ele se foi. Ao final da festa, me dei conta que acabei conversando pouco com André. Queria ouvi-lo sobre o seu papel em “Boleiros”, no qual ele interpreta Caco, um craque do Corinthians que está com medo de jogar e é salvo por um pai-de-santo (vivido por Andre Abujamra).

Pois eis que o círculo se fecha neste domingo. Em sua coluna no caderno de Esportes do “Estadão”, o cineasta Ugo Giorgetti, diretor de “Boleiros”, escreveu um texto que me deixou sem palavras sobre “História do Lance!”. A coluna, infelizmente, não está aberta no site do jornal, motivo pelo qual reproduzo apenas um trecho aqui:

“O Lance! está lá, é claro. Mas, para chegar até ele, Stycer sentiu que era necessário estudar e examinar tudo que o precedeu, porque nenhuma publicação surge solitária, desligada do mundo anterior, ao contrário, ela é sempre fruto e conseqüência. Para falar do Lance! é preciso falar da A Gazeta Esportiva e do Jornal dos Sports. Para falar dessas duas publicações esportivas é preciso falar da imprensa em geral e, para falar da imprensa, é preciso falar do Brasil. É isso que foi feito em História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo, que acaba de ser lançado. Quem ler esse livro vai inevitavelmente se encontrar com o País, pois o que acontece no futebol acontece na sociedade. E a maneira como, no decorrer do tempo, a imprensa interpreta o fenômeno do futebol é reveladora de como ela se coloca diante do resto da realidade brasileira”.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, Esporte Tags: , , ,
08/05/2009 - 17:43

Bob Dylan, Pete Seeger e o machado

Compartilhe: Twitter

O texto sobre os 90 anos de Pete Seeger, comemorados com um show em Nova York, levou alguns leitores a reviverem aqui no blog uma polêmica que já dura 44 anos. Confesso que não lembrava mais dos detalhes da história, relatada de diferentes formas pelos leitores Wilbury, Ricardo e Beto. É um caso muito bom.

Em 1965, numa famosa guinada em sua carreira, Bob Dylan resolveu trocar o violão acústico – instrumento que usara desde o início da carreira, em 1961 – pela guitarra elétrica. A sua primeira aparição pública com o novo instrumento ocorreu no dia 25 de julho, no palco do Newport Folk Festival – um reduto de Seeger, da música folk e da canção de protesto.

Todas as versões sobre o que ocorreu em Newport concordam que Dylan apresentou-se com uma banda nova, com quem nunca havia tocado, e que ensaiou muito pouco a sua participação no festival. Howard Sounes, autor de “Dylan, a Biografia”, um dos livros mais recentes e respeitados sobre o músico (publicado em 2001 e lançado no Brasil pela Conrad), descreve assim o que aconteceu no palco:

Bob entrou no palco com uma jaqueta de couro preto e liderou sua banda de moderninhos em uma versão furiosa de “Maggie´s Farm”. Mike Bloomfield se encurvou sobre a sua guitarra elétrica tocando uma profusão de notas que se fundiam e se transformavam em feedback. A mixagem de som estava confusa. A banda não conseguia ouvir com clareza, e a meio caminho de “Maggie´s Farm” o ritmo foi para o brejo. Aquilo estava longe do folk-rock. Era uma barulheira inacreditável com um volume incrível.

O que aconteceu em seguida deu origem à polêmica histórica entre Seeger e Dylan. Reza a lenda que, furioso de ver Dylan com a guitarra elétrica, Seeger correu para a mesa de som e pediu que o som fosse desligado. Diante da recusa, cortou o cabo de som a golpes de machado. 

Seeger sempre negou essa história. Segundo já disse em várias entrevistas, e está relatado no livro de Sounes, Seeger reconhece que, primeiro, gritou para os músicos que ninguém estava entendendo o que eles tocavam e depois foi até a mesa de som, onde exigiu que os técnicos ajustassem o volume. O empresário e o produtor de Dylan, porém, impediram Seeger de interferir. Normalmente calmo, o pai da canção de protesto americana explodiu: “Se eu tivesse um machado, cortava o cabo”.

“Eu não tinha um machado e não cortei o cabo”, diz Seeger. “Eu disse que se eu tivesse um machado cortaria o cabo”. “A história ganhou tal ímpeto”, escreve Sounes, “que Seeger admite que até a própria esposa não acredita nele”.

Em tempo: como relatei no post que deu origem a esta discussão, Bob Dylan não compareceu à festa em homenagem a Pete Seeger, mas uma música sua foi tocada no show. Adivinhe qual? Sim, “Maggie´s Farm”. A foto no alto mostra Dylan e Seeger em Newport, em 1963, dois anos antes da polêmica.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
07/05/2009 - 15:14

Quem rivaliza com Ronaldo na seleção? Ninguém

Compartilhe: Twitter

Se “seleção é momento”, como gostam de dizer os “professores” de futebol, não há discussão possível sobre a convocação de Ronaldo. É óbvio, na comparação com qualquer camisa 9 brasileiro, atuando no país ou no exterior, que Ronaldo tem vaga entre os atacantes que serão selecionados para os próximos jogos – mesmo que ele ainda seja motivo de piadas.

O problema, a meu ver, é outro. O que significa o fato de um jogador da idade de Ronaldo, com o seu histórico de problemas físicos, estar jogando mais bola que todos – ou quase todos – os seus concorrentes brasileiros?

Ronaldo está brilhando por méritos próprios, mas é evidente que a safra de centroavantes brasileiros talvez nunca tenha sido tão fraca. Luis Fabiano? Fred? Grafite? Keirrison? Nilmar? Quem é o craque que rivaliza hoje com o 9 do Corinthians? Aceito sugestões.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , ,
06/05/2009 - 13:14

“História do Lance!”: lançamento nesta quarta-feira

Compartilhe: Twitter

Será lançado nesta quarta-feira, em São Paulo, o livro “História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo”, no qual descrevo o processo de criação daquele que se tornou o maior diário de esportes do país. O livro, editado com esmero pela Alameda Editorial, é um desdobramento da dissertação de mestrado que defendi em 2007 na FFLCH-USP.

Como observou Gian Oddi, na excelente resenha que escreveu no iG Esporte, Livro revela história do diário Lance! e discute o jornalismo esportivo no Brasil, “embora o texto tenha profundidade acadêmica, as deliciosas histórias colhidas pelo autor, sejam elas fruto da própria experiência no Lance! ou da pesquisa sobre o futebol e a imprensa esportiva no Brasil, dão ao estudo um caráter jornalístico que acaba por tornar a leitura do livro muito saborosa”.

Em entrevista à jornalista Ana Paula Sousa, publicada em seu blog, Futebol e jornalismo: uma relação muito delicada, eu detalho alguns aspectos do trabalho, em particular a recorrência, ao longo de 110 anos, de alguns mesmo problemas e vícios do jornalismo esportivo, como bairrismo, sensacionalismo e suspeitas de corrupção.

Aproveito este post para convidar os leitores para o lançamento, no bar Canto Madalena (rua Medeiros de Albuquerque, 471, Vila Madalena, a partir das 19hs) e informar que o livro será lançado no Rio de Janeiro, no próximo dia 13 de maio.

Também aproveito para agradecer de público aos muitos sites, blogs, revistas e jornais que trouxeram notícias, nos últimos dias, sobre este lançamento. Em particular, meu agradecimento ao iG, à CartaCapital (e também via o blog de Camila Alam),  ao blog de Mauricio Noriega, ao blog do Menon, à coluna de Mônica Bergamo, na “Folha”, ao blog do Juca Kfouri, ao Terra Magazine, de Bob Fernandes, ao Caio Maia, da revista “Trivela”, ao Ubiratan Leal, do “Balípodo”, Observatório da Imprensa, Loucos por Futebol (ESPN), Jornalistas & Cia e Comunique-se

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, jornalismo Tags: , , , , , , , , , , , ,
06/05/2009 - 12:09

Errei, e comemoro: CD de Leonard Cohen sai no Brasil

Compartilhe: Twitter

Publiquei, dez dias atrás, uma ode a Leonard Cohen e ao disco que o artista canadense lançou há pouco, “Live in London”, com a íntegra (mais de duas horas e meia) do show apresentado em 17 de julho de 2008 na O2 Arena, na capital inglesa. Comprei o CD em Buenos Aires, na Semana Santa, e me surpreendi não apenas com o conteúdo espetacular, mas também com o fato de o disco não estar à venda no Brasil.

Por isso, no texto, Leonard Cohen, aos 75 anos, emociona em disco ao vivo, eu lamentava que a gravadora Sony BMG não tivesse se sensibilizado, ainda, para lançar o CD no País.

Escrevo esse post para corrigir uma informação errada que publiquei. O CD não apenas fazia parte dos planos da gravadora, como dias depois do meu post já estava sendo distribuído para a imprensa e lojistas. O que me consola é que, lendo nesta quarta-feira as resenhas escritas por dois especialistas, Thiago Ney (na “Folha”) e Lauro Lisboa Garcia (no “Estadão”), vejo que não escrevi nenhuma besteira. Ambos gostaram tanto do disco quanto eu.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
05/05/2009 - 20:07

Botafoguense se desespera sempre, mas não desiste nunca

Compartilhe: Twitter

Não pretendia escrever sobre o desempenho do Botafogo nas finais do Carioca, mas duas manifestações de botafoguenses, que só tive a oportunidade de ler na noite desta terça-feira, me obrigam a ocupar o espaço deste blog para tratar do meu time.

Na coluna “Gente Boa”, assinada por Joaquim Ferreira dos Santos, em “O Globo”, leio que Carlos Leal, dono da editora Francisco Alves, desistiu de editar um livro de arte sobre o Botafogo. Ele ia fazer 27 livros – agora só vai fazer 26. Fala Leal: “Dizem que tem coisas que só acontecem ao Botafogo. A covardia e a incompetência nunca estiveram entre essas coisas. Esse time e essas diretorias não merecem um livro de arte. Como falar do passado sem falar do presente? Ser tri-vice é demais.”

Na coluna “Painel do Leitor”, na “Folha de S.Paulo”, leio a carta de Fernando Cezar: “Joguei a toalha. Chutei o balde. Peguei o meu boné e fui embora. Chega de ir aos jogos do Botafogo. Agora faço parte da maior torcida do Brasil, a Sofá-fogo. Só vou assistir às partidas do alvinegro com amigos botafoguenses, também desiludidos, todos sentadinhos em um confortável sofá. Perder uma classificação nos pênaltis na Copa do Brasil, em pleno Engenhão, para o Americano, não foi o suficiente para que o nosso Botafogo aprendesse. Logo em seguida deixa de conquistar um título estadual, também nas penalidades máximas (…). Assim não dá! Para mim chega. Só volto a frequentar estádios depois que o Botafogo for campeão.”

Sou obrigado a confessar a minha perplexidade com os dois desabafos. Minha língua coça de vontade de dizer: não são botafoguenses de verdade.

O botafoguense se desespera, sim, com o time, mas a história o ensinou a ser um cético, não se iludir. O botafoguense sabe, sempre, que as chances de ganhar são infinitamente menores que as de perder.

O botafoguense sonhava com uma goleada sobre o Americano no Engenhão, mas tinha certeza, no íntimo, que aquela era mais uma das tragédias anunciadas na história do time.

O botafoguense tinha esperanças, em sua relação de amor e ódio com Cuca, que o pé frio na história fosse o técnico. Mas, a maior concentração de torcedores supersticiosos do planeta, no fundo, desconfiava que, talvez, quem sabe, o supersticioso Cuca seria a pessoa ideal para seguir à frente da equipe.

Quando, na Tribuna da Imprensa do Pacaembu, soube que o primeiro tempo da final terminara com derrota de 2 a 0, juro que vi o filme. Sabia que o Botafogo empataria a partida e perderia o título nos pênaltis. Por força do hábito, penso sempre o pior, quando imagino o que pode acontecer com o Botafogo em campo.

Fiquei triste, tristíssimo, mal-humorado na noite de domingo. Dormi mal, não quis ler o jornal na segunda-feira, mas ontem mesmo, na internet, já procurava saber sobre a lista de reforços que Ney Franco apresentou à diretoria. Do que li, nada me deu muitas esperanças. Como sempre, estou pronto para continuar a sofrer.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , , , ,
Voltar ao topo